Quinta-feira, 7 de Março de 2013
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (2º teste do 2º período, 2013)

 

 Eis um teste de filosofia de final de 2º período lectivo do 10º ano de escolaridade, em Portugal, na linha do ensino da filosofia baseado na compreensão, invenção e relacionação de conteúdos metafísicos, éticos, gnosiológicos, etc, evitando a redução ao deserto da lógica formal e a interpretação minimalista do programa.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C
4 de Março de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

 

"Aparentemente, pelo menos, o imperativo categórico de Kant é mais difícil de pôr em prática do que a moral utilitarista de Stuart Mill. Lao Tse, filósofo do taoísmo, escreveu que  «o santo conhece sem viajar, compreende sem olhar, realiza sem agir.» e isto liga-se ao combate entre racionalismo e empirismo e tem alguma semelhança com a ética do estoicismo.”

 

1) Explique, concretamente, este texto.

II

2) Relacione, justificando:

A) Lei dialéctica da contradição principal e binómio esquerdas/direitas em política.
B) Hierarquia dos valores, esfera dos valores vitais e esfera dos valores espirituais na doutrina de Max Scheler.
C) Indução amplificante, dedução e percepção empírica.

                                                                                                                    III

3) Construa um diálogo entre um anarquista, um comunista leninista, um social-democrata (socialista democrático), um liberal e um fascista sobre a propriedade das fábricas e quem as deve gerir, e sobre o valor da democracia parlamentar ou liberal (burguesa).

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO EM 20 VALORES

 

1) O imperativo categórico em Kant sustenta a equidade, o agir respeitando todos como pessoa humana: «Age como se quisesses que a tua acção seja uma lei universal da natureza». Isto é impraticável em certos casos como, por exemplo, o de um capitão de um navio que se afunda e tem de escolher entre 200 passageiros em risco de morrer os 30 que devem ir no único salva-vidas disponível. A ética utilitarista de Stuart Mill rege-se pelo princípio da maior felicidade, isto é, a acção deve proporcionar felicidade à maioria dos envolvidos numa situação, mesmo prejudicando algumas pessoas, a minoria. E no caso dos 30 passageiros a ser salvos entre 200 cujas vidas se perderiam, o utilitarismo não conseguiria sequer aplicar o princípio da felicidade da maioria dos envolvidos na situação (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). Lao Tse, filósofo do taoísmo, uma doutrina quietista que assenta na oscilação entre o Yang (dia, luz, movimento) e o Yin (noite, escuridão, repouso), defendeu que se conhece sem viajar, e se compreende sem olhar, isto é, defendeu o racionalismo - a grande fonte dos nossos conhecimentos é o raciocínio, a razão - e minimizou o empirismo - doutrina que diz que as percepções empíricas são a fonte dos conhecimentos e moldam as nossas ideias. O taoísmo, doutrina que preconiza, racionalmente, o não agir, isto é, o não ser ambicioso, não lançar guerras, não seguir as carreiras de político e universitário, é semelhante ao racionalismo estóico porque este preconiza o autodomínio, não ser ambicioso nem colérico, não lançar guerras, não se importar com a opinião injusta dos outros, aguentar e abster-se. (ESTAS FRASES VALEM QUATRO VALORES).

 

2) A) A lei dialéctica da contradição principal sustenta que um sistema de múltiplas contradições/ contrariedades pode ser reduzido a uma única contradição, chamada contradição principal, agrupando num dos polos um bloco de contradições, secundárias entre si, e no outro polo as restantes ou quase todas as restantes contradições. A contradição principal manifesta-se, muitas vezes, entre as esquerdas - o bloco social e político desconfiado dos ricos capitalistas ou mesmo inimigo destes enquanto classe social- e as direitas - o bloco das pessoas amigas dos capitalistas privados, em geral, e do valor liberdade empresarial por cima do valor igualdade social. Em momento de eleição presidencial em segunda volta, como sucedeu em 16 de Fevereiro de 1986, as esquerdas socialista, comunista, trotskista e alguns semi amarquistas uniram-se num polo da contradição principal e votou Mário Soares (51% dos votos); as direitas PSD, CDS, monárquica e outa formaram o outro polo da contradição principal, votando Freitas do Amaral (49% dos votos). (VALE TRÊS VALORES)

 

2)  B) Hierarquia de valores é uma escala ou escadaria de valores, dos mais altos aos mais baixos. Nas quatro esferas de valores idealizadas por Max Scheler há uma hierarquia: em baixo, a esfera dos valores sensíveis (o prazer e a dor; o útil e o inútil), um patamar acima está a esfera dos valores vitais (o nobre e o vulgar, os sentimentos de alegria e tristeza, ciúme, orgulho, humilhação, saúde e juventude, doença e velhice, etc), um patamar acima está a esfera dos valores espirituais (estética: o belo e o feio; ética: o bem e o mal e o concomitante direito, o legal e o ilegal; filosofia ou descoberta da verdade em si e as concomitantes ciências, fundadas na utilidade, verdades por referência). (VALE TRÊS VALORES)

 

2) C) A indução amplificante - inferir de alguns casos particulares, empíricos, uma lei geral; exemplo, observo 200 sobreiros e verifico que em todos se forma uma casca de cortiça e induzo que «Todos os sobreiros do mundo produzem cortiça»- baseia-se na percepção empírica ou observação directa pelos sentidos (visão, tacto, etc; vejo a cortiça nos sobreiros). A dedução- inferir de uma lei ou tese geral para outra tese geral ou para casos particulares - também se relaciona com a percepção empírica (o ver, o tocar, o cheirar, etc) na medida em que esta última confirma ou não a dedução. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) Anarquista: «A propriedade das fábricas deve ser dos trabalhadores e elas devem ser geridas pela assemleia geral de todos os trabalhadores. Queremos a autogestão e não a nacionalização (o Estado patrão) nem a privatização (o patrão capitalista privado).

Comunista : «A propriedade das fábricas deve ser de todo o povo, elas devem ser nacionalizadas a fim de garantir emprego aos trabalhadores e dirigidas por funcionários comunistas que asseguram a realização do plano de produção colectivista decidido pelo governo leninista».

Social-democrata: «As fábricas devem estar, em grande parte na mão de capitalistas privados, aos quais serão aplicados altos impostos progressivos, mas algumas (minas, siderurgia, armamento, etc) devem estar nacionalizadas, ser propriedade do Estado, a fim de fortalecer a classe média.»

Liberal: «As fábricas devem estar todas ou quase todas nas mãos de capitalistas privados, que são o motor da economia.»

Fascista: «As fábricas devem ser dos patrões mas estes não poderão fechá-las nem despedir operários a seu bel-prazer. O Estado nacional fascista terá algumas empresas nacionalizadas - electricidade, minas, siderurgia, etc - e  zelará para que não haja greves nem protestos de esquerda ou outros nas fábricas em geral.»

 

Anarquista: « A democracia parlamentar é um Estado e todos os Estados são ditaduras da classe capitalista ou das classes feudais e semifeudais sobre os trabalhadores. Os anarquistas desprezam as eleições ao parlamento pois estas nunca levam à autogestão, ao poder do povo.»

Comunista leninista:« A democracia parlamentar é melhor que o fascismo mas é um regime que protege os capitalistas privados e a desigualdade social. Os comunistas concorrem às eleições legislativas e autárquicas locais mas gostariam mais de uma ditadura de esquerda, em que a economia fosse nacionalizada sob um governo comunista.»

Socialista democrático: «A democracia parlamentar é o melhor regime político porque os cidadãos gozam de liberdades de greve, imprensa, manifestação de rua, iniciativa empresarial e escolhem livremente através do voto quem os deve governar.»

Liberal: «A democracia parlamentar é o melhor regime político porque os cidadãos gozam de liberdades de greve, imprensa, manifestação de rua, iniciativa empresarial e escolhem, livremente, através do voto quem os deve governar.»

Fascista: «A democracia parlamentar é um regime de fraca qualidade porque permite a liberdade de acção de anarquistas, comunistas, socialistas, gays, lésbicas, emigrantes indesejados, e entrega aos riquezas da pátria áo capital estrangeiro. Os fascistas desejam um Estado nacional, de partido único, uma ditadura de direita.» (VALE QUATRO VALORES)

 

  

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:41
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