Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano (2º período, 2013)

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo, livre de perguntas de resposta múltipla com "X" que é típico da simplificação empobrecedora do pensamento, hoje muito em voga.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
18 de Fevereiro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

««As sete relações filosóficas segundo Hume correspondem, de certo modo, às categorias segundo Kant mas as primeiras são a posteriori e as segundas são a priori.  Em Kant, o entendimento é condicionado, reduz à unidade o diverso das intuições empíricas e a razão é incondicionada e produz antinomias. »

 

1) Explique, concretamente, este texto.

II

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica e o conjunto res cogitans, res extensa e res infinita.

B) A formação do fenómeno MESA e a formação do conceito empírico de MESA, segundo a gnosiologia de Kant,.

 

C) Substância e acidente, em Aristóteles, e substância em David Hume.

 

III

 

3) Disserte, livremente, sobre os seguintes temas:
«O anti empirismo do paradoxo de Zenão, e o conhecimento proposicional segundo Russell. O ser em Hegel, nas suas três fases, e o ser em Parménides. »

 

 

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) As sete relações filosóficas são, segundo David Hume: identidade, semelhança, relações de tempo e de lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É discutível saber se são noções a posteriori, ou seja, que surgem na experiência sensorial e não antes desta, ou se são formas a priori, isto é, estruturas vazias que estão antes da primeira experiência. As categorias, em Kant,  são formas a priori do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade). Podemos fazer corresponder a relação filosófica de causação (determinismo), em Hume, à categoria de necessidade (lei infalível de causa-efeito)  em Kant. Também podemos estabelecer correspondência entre a relação filosófica de identidade e a categoria de inerência e subsistência (substância e acidente). (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). Em Kant, o entendimento, faculdade que pensa e conhece os fenómenos, é condicionado pela sua estrutura interna (a tábua das categorias e a tábua dos juízos puros) e pela sensibilidade onde se desenham os fenómenos (árvores, aviões, montanhas, etc). Reduz à unidade a diversidade das intuições empíricas: exemplo, o conceito de casa, formado no entendimento, é um só e resume as diferentes casas que se formam e percepcionamos na sensibilidade exterior ao corpo. A razão é incondicionada porque é livre, não tem regras que a limitem, e pensa o mundo metafísico, incognoscível. As antinomias da razão são as teses contrárias que ela produz, balançando de uma a outra, porque não tem conhecimento: por exemplo, «Deus existe, Deus não existe», «O mundo é finito, o mundo é infinito». (VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente). Este passo liga-se à RES COGITANS ou SUBSTÂNCIA PENSANTE, que é o pensamento de todos e de cada um dos entes humanos. 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). Neste passo, emerge a RES INFINITA, isto é, a SUBSTÂNCIA INFINITA que é Deus, o criador de todas as coisas. 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. Este último passo liga-se à RES EXTENSA, ou seja, EXTENSÂO, o espaço material dotado de comprimento, largura e altura. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) O fenómeno MESA forma-se na sensibilidade, uma das três partes do espírito humano, do seguinte modo: os númenos afectam, desde o exterior, a sensibilidade (isto é, o espaço e o tempo que rodeiam o corpo do sujeito) e fazem nascer nela um caos de sensações (cores, matéria, sons, etc). Esse caos é moldado pelo espaço (extensão e formas geométricas) e pelo tempo (duração, sucessão simultaneidade) e transforma-se numa mesa, no fenómeno mesa. O entendimento intervém na medida em que confere à mesa o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: pernas, tampo, etc).

O conceito empírico de MESA forma-se no entendimento do seguinte modo: as imagens / intuições empíricas de mesa (as imagens das diferentes mesas que vimos) sobem da sensibilidade ao entendimento, passando pela imaginação. O entendimento, munido de categorias ou conceitos puros como unidade, pluralidade, realidade, recebe as diversas imagens de mesa e redu-las a uma imagem abstracta única, o conceito de mesa, de base empírica. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) C) Substância, em Aristóteles, é, em primeira mão, o ente, o objecto material, o composto que resulta da união da essência ou forma da espécie (eidos) com a matéria-prima universal (hylé). Assim Sócrates é uma substância: une a forma comum homem à matéria prima informe, indeterminada e universal, e daí resulta este homem único, de nariz achatado, chamado Sócrates que não tem essência enquanto imdivíduo.

Substância, em David Hume, é uma ideia, a representação de um corpo supostamente exterior a nós, formada a partir de impressões de sensação (exemplo: a rosa que vejo e toco é só real na minha percepção) de impressões de reflexão . Em Aristóteles substância é uma coisa real material - realismo - em Hume substância é uma ideia - idealismo. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) O paradoxo de Zenão sustenta o seguinte: um corredor veloz, Aquiles, não consegue apanhar uma tartaruga que se move a uma certa distância à frente dele porque, em cada segundo, percorre metade da distância que o separa da tartaruga mas esta adianta-se um pouco nesse lapso de tempo, e embora Aquiles acabe por ficar colado a ela nunca a consegue atingir; assim se prova, racionalmente, que o movimento é ilusório. Isto é anti empirismo, ou seja, é racionalismo, porque nega as percepções empíricas, a imagem de Aquiles a ultrapassar a tartaruga. Isto é conhecimento proposicional, isto é, conhecimento teórico, como sustenta Bertrand Russell. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES). Hegel considerou o ser ou ideia absoluta como a essência da história universal: na primeira fase, a ideia absoluta (Deus) está sozinho e pensa em criar o universo, o espaço e o tempo; na segunda fase, a ideia absoluta aliena-se em matéria, em reino mineral, vegetal e animal; na terceira fase, a ideia absoluta renasce em forma de humanidade, que combina o espírito da primeira fase com a matéria da segunda fase, e progride em direção à liberdade. Em Hegel, o ser é móvel e transformável, passa a não-ser na segunda fase, ao contrário do ser teorizado pelo grego Parménides, imóvel e eterno, sem devir, uno, contínuo, contíguo, homogéneo, limitado como uma esfera, imutável e imperceptível aos sentidos, apenas perceptível à razão. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES).

 

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:38
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2 comentários:
De Anónimo a 3 de Março de 2013 às 16:26
Francisco

Ainda que possa concordar com o que é por si referido, convirá salvaguardar o cumprimento dos programas e das orientações de exame para, assim, não prejudicar ou defraudar as legítimas expectativas dos alunos que se submetam ao exame da disciplina.
Apesar das referidas orientações, o programa prevê uma certa autonomia na exploração dos temas.


cumprimentos
PS não sou o autor do blog a que faz alusão no seu post




De Francisco Limpo Queiroz a 3 de Março de 2013 às 19:53
O exame de filosofia é opcional. A sua existência é quase irrelevante - para muitos é mesmo irrelevante. Quando se pretende uniformizar o tipo de testes em função do exame nacional de filosofia deixa-se de filosofar e ensinar filosofia. Está-se a produzir alunos robóticos que nada sabem sobre Aristóteles, Kant, Hume, Hegel, Feyerabend, Heidegger etc se limitam a colocar cruzes em quadrículas. É a burocratização da filosofia. A filosofia tem um programa geral muito vasto e confere enorme autonomia aos que a sabem ensinar. Os outros são os professores medíocres, que são, aliás, a maioria.

Não deveria sequer haver exame nacional porque a construção deste tem sido obra de um grupo anti filosófico de pseudo-pensadores que dão erros crassos na construção das perguntas e lucram com a venda de manuais de perguntas e respostas típicas.

«Cumprir os progranas» é muitas vezes o argumento falacioso dos que não sabem filosofia e não definem nada de substancial. Eles não falam das 4 causas em Aristóteles ou da teoria da participação em Platão, nem da diferença realismo/fenomenologia porque, dizem, está «fora do programa»...Só «os inspectores de circunstãncias e as leis de Morgan estão no programa»....Dá vontade de rir...

Mas o que é cumprir o programa? Todas as questões que neste teste acima explano fazem parte do programa de filosofia do 11º ano, tal como eu o cumpro, com autonomia e saber bastante.


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