Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade ( 2º período lectivo)

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo, que não usa o terreno pantanoso das perguntas de resposta múltipla que é típico dos sectários da filosofia analítica, pobres em pensamento.  

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C
14 de Fevereiro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

«O imperativo categórico de Kant é formal e autónomo e é distinto do hedonismo sensualista de Aristipo de Cirene. O templo cristão da Idade Média foi construído segundo o princípio da correspondência microcosmo-macrocosmo e implicava uma certa mística, incluindo a gematria da Cabala, e talvez a reminiscência de arquétipos

 

1) Explique concretamente este texto.

 

II

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Realismo crítico e racionalismo.
B) Dualismo antropológico no estoicismo e dualismo no taoísmo.
C) Ética utilitarista de Stuart Mill e determinismo com livre-arbítrio (determinismo moderado).

III

3) Disserte sobre o seguinte tema:

 

“As quatro causas de um ente segundo Aristóteles, os quatro arquês e a cosmogénese segundo Pitágoras de Samos ”.

 

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) O imperativo categórico, verdadeira lei moral, gerada no eu racional ou numénico, é formal, ou seja abstracto, porque apresenta a seguinte formulação: «Age como se quisesses que a tua acção fosse uma lei universal da natureza». Dá-se apenas a forma (equidade, agir de igual modo com todos) mas não o conteúdo concreto. Por isso deixa a cada pessoa autonomia para preencher o seu imperativo categórico pessoal. É, pois, autónomo. É diferente do hedonismo sensualista de Aristipo de Cirene uma vez que este postulava que o maior bem é o prazer dos sentidos (comer, beber, entregar-se ao sexo, etc) e o mal é a dor, a privação de bem-estar. O agir por dever em Kant, opõe-se ao agir por prazer sensual, em Aristipo. (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). O templo cristão da Idade Média era um microcosmo (pequeno mundo organizado) que reflectia o macrocosmo (o grande universo): por isso a catedral medieval tinha a forma de um homem (Cristo) de braços abertos. A abside correspondia à cabeça de Cristo e estava voltada para Oriente, onde nasce o Sol símbolo de Cristo. O altar corresponde ao coração e o transepto aos braços abertos. As naves ao tronco e pernas de Cristo. Assim o que está em baixo (o templo) é espelho do que está em cima (um gigantesco corpo de Cristo atravessando o universo).  Isto implica mística ou seja união íntima com a divindade. E comportava a gematria, uma disciplina da Kabalah judaica, que faz corresponder letras a números (exemplo: A=1, B=2, C=3, D=4). Por exemplo, sendo o nome de Cristo em grego equivalente ao número 888, o eixo que liga a base do altar à cúpula da catedral de Troyes mede 88 pés e 8 polegadas - medida intencional. A construção do templo na medida em que incorporava cilindros, prismas e outros poliedros era talvez uma reminiscência, isto é, uma vaga lembrança dos arquétipos de cilindro, de prisma e outros existentes, segundo Platão, num mundo acima do céu visível chamado mundo inteligível ou das formas puras. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. Isto é racionalismo, pois esta teoria afirma que a razão é a principal fonte de conhecimento, negando uma parte das percepções empíricas.(VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) O dualismo antropológico no estoicismo, filosofia baseada na aceitação do destino e no lema «Aguenta e abstèm-te», consiste em dividir o ser humano en 2 polos: o eu racional ou guia interior, que consegue dominar as paixoes e filosofar; o eu animal ou corpo, fonte das paixões da ambição, da cólera, dos prazeres da carne.

O dualismo no taoísmo pode ser visto segundo vários ângulos: o Tao, mãe e ritmo do universo, desdobra-se em duas ondas contrárias, Yang (luz, calor, verão, vermelho, crescer) e Yin (escuridão, frio, inverno, azul, diminuir); o agir, que é próprio dos ambiciosos, dos políticos e dos que se consagram ao estudo livresco, e o não agir, que é próprio do sábio contemplativo e do camponês que segue o ritmo da natureza, isto é, o Tao. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) C) A ética utilitarista de Stuart Mill tem como pilar primeiro o princípio da maior felicidade, isto é, propiciar a felicidade à maioria das pessoas envolvidas numa situação, mesmo prejudicando uma minoria de pessoas, e como pilar segundo, os bons princípios da tolerância e do respeito para com o próximo e a qualidade superior de certos prazeres do espírito (música, literatura, ciências, etc). Supõe, como seu suporte metaético, o determinismo com livre-arbítrio isto é, a doutrina que sustenta que as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, na natureza biofísica (determinismo) e ao mesmo tempo, os homens dispõem de livre-arbítrio, isto é, de capacidade de escolha livre após reflexão. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) Há 4 causas de um ente, segundo Aristóteles: formal (a forma do ente), material (a matéria-prima de que é formado o ente) eficiente (aquele ou aquilo que gerou ou fabricou o ente) e final (a finalidade do ente). Na doutrina de Pitágoras de Samos, há quatro princípios (arquês) de todas as coisas que configuram a cosmogénese (nascimento do cosmos) do seguinte modo: do vazio surge um ponto (número um); o ponto desdobra-se em dois que afastando-se formam uma linha recta (número dois); da recta sai um ponto que projectando-se sobre ela segundo infinitas rectas gera um plano (este é o número três); do plano sai um ponto que, projectando-se segundo três linhas rectas sobre esse plano, gera o tetraedro ou pirâmide de três lados (esta é o número quatro). Estes números-figuras, combinando-se entre si, formam todos os objectos do universo (árvores, planícies, animais, homens, etc). A soma dos quatro números figuras essenciais dá 10, o número divino ou tétrade. (VALE QUATRO VALORES).

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:18
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6 comentários:
De Almerindo a 20 de Fevereiro de 2013 às 22:58
Boa Noite

Só uma questã para satisfazer a minha curiosidade.
Os conteúdos sujeitos a avaliação no presente teste referem-se ao programa de que ano de escolaridade?

Obrigado


De Francisco Limpo Queiroz a 20 de Fevereiro de 2013 às 23:33
Referem-se ao 10º ano de filosofia.

Para o esclarecer melhor: os temas de filosofia hermética (princípio macrocosmos-microcosmos na construção das catedrais medievais, gematria da Kaballah) da teoria de Platão (os três mundos a reminiscência), a teoria das 4 causas de Aristóteles, a cosmogénese segundo Pitágoras de Samos, o racionalismo e o realismo crítico enquadram-se no ponto 1.1 -O que é a filosofia e no ponto 1-2- Quais são as questões da filosofia? do PROGRAMA DE 10º ANO.

Quanto ao estoicismo, ao taoísmo, às éticas de Kant e Stuart Mill enquadram-se nos pontos 2.1- Valores e valoração- a questão dos critérios valorativos, 3.1.1- Intenção ética e norma moral e 3.1.3

Como vê, é possível ultrapassar a pobreza metafísica e filosófica dos manuais escolares dos Desidério Murcho, Aires Almeida, Luís Rodrigues, Pedro Galvão, Pedro Madeira, etc, desde que se tenha cultura filosófica ampla e uma perspectiva criativa no ensino da filosofia..



De Ana Duarte a 3 de Abril de 2013 às 21:39
Prof Francisco gostaria de lhe agradecer o seu teste bem como a correcção . Penso que será útil ao meu educando que frequenta o 10 ano. O ensino secundário é um "salto" nesta faixa etária, por vezes difícil para a maturidade (ou falta dela, em alguns casos) que se exige. Quer pais , quer alunos quer professores vêem-se confrontados com a ansiedade desta adaptação. Esta forma de partilhar saberes, é de grande utilidade para todos. Um bem haja. Espero poder contar com esta ajuda para também ajudar.
Obrigada.
Ana Duarte


De Francisco Limpo Queiroz a 4 de Abril de 2013 às 19:52
Muito obrigado, D. Ana Duarte. Se exigimos aos nossos alunos um pensamento claro, substancial, perfeito, temos de ser capazes de lhes explicar as teorias e conceitos filosóficos de forma clara, sintética e profunda. É nosso dever fazê-lo.


De Ana Duarte a 4 de Abril de 2013 às 21:24
Prof Francisco, desculpe ainda a resposta à resposta, mas não poderia de deixar de comentar. Como em todas as profissões há sempre uns melhores que outros, e a capacidade de transmitir conhecimentos de forma clara, concisa e objetiva é privilégio de alguns (!!!)... Faz é muitas vezes a diferença na aprendizagem dos alunos. Mais uma vez obrigada pela sua partilha e forma fluida da correção
Ana Duarte


De Francisco Limpo Queiroz a 6 de Abril de 2013 às 21:28
Muito obrigado, D. Ana Duarte.


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