Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (2º período lectivo, 2013)

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo, que não usa o terreno pantanoso das perguntas de resposta múltipla que é típico dos sectários da filosofia analítica, pobres em pensamento.  Os professores portugueses podem e devem  resistir ao analfabetismo filosófico promovido pelos partidários da filosofia analítica vulgar, objectivamente ao serviço da manipulação e despolitização da juventude. Há muitos professores que são tão ignorantes que não conhecem a teoria triádica da história de Hegel, a teoria dos três mundos em Platão, as leis da dialética, o idealismo de Berkeley e de Kant - apenas conhecem as leis de Morgan, os inspectores de circunstâncias e umas tantas banalidades filosóficas.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia,  Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
14 de Fevereiro de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

 

I

«“O Tao não age e, no entanto, tudo se faz por seu intermédio”, dizia Lao Tse.  O templo cristão da Idade Média foi construído segundo o princípio da correspondência microcosmo-macrocosmo, de que a teoria platónica da participação é um exemplo, e implicava uma certa mística, incluindo a gematria da Cabala

 

1) Explique concretamente este texto.

 

II

 

2) Relacione, justificando:

A) Máxima, Imperativos Categórico e Hipotético, e Vontade Heterónoma e Autónoma em Kant.

 

B) Dualismo antropológico no estoicismo e três partes da alma em Platão.

 

C) Ética utilitarista de Stuart Mill, relativismo e subjectivismo moral.

 

III

3) Disserte sobre os seguintes temas:

 

“O livre-arbítrio, o fatalismo e o determinismo na acção humana. Os quatro arquês e a cosmogénese segundo Pitágoras de Samos ”.

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) O Tao, origem e ritmo do universo, oscilação permanente entre o Yang, (dilatação, calor, fogo, dia, alto, som) e o Yin (contração, frio, água, noite, baixo, silêncio), não age, isto é, não actua com intencionalidade, acontece espontaneamente. E tudo se faz por seu intermédio: semear e colher obedece aos ritmos da lua, o trabalho nos escritórios, escolas ou nos campos obedece à alternância dia-noite (Tao), a cura das doenças demora X dias (obedecendo ao Tao), as estações o ano desenrolam-se segundo o Tao, etc. (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). O templo cristão da Idade Média era um microcosmo (pequeno mundo organizado) que reflectia o macrocosmo (o grande universo): por isso a catedral medieval tinha a forma de um homem (Cristo) de braços abertos. A abside correspondia à cabeça de Cristo e estava voltada para Oriente, onde nasce o Sol símbolo de Cristo. O altar corresponde ao coração e o transepto aos braços abertos. As naves ao tronco e pernas de Cristo.Assim o que está em baixo (o templo) é espelho do que está em cima (um gigantesco corpo de Cristo atravessando o universo). A teoria da participação em Platão sustenta que os entes do mundo da matéria participam, isto é imitam, dos arquétipos ou modelos perfeitos existentes no mundo inteligível. Assim as estátuas de Cristo na catedral participam no modelo inteligível que é o Cristo vivo, na transcendência. Isto implica mística ou seja união íntima com a divindade. E comportava a gematria, uma disciplina da Kabalah judaica, que faz corresponder letras a números (exemplo: A=1, B=2, C=3, D=4). Por exemplo, sendo o nome de Cristo em grego equivalente ao número 888, o eixo que liga a base do altar à cúpula da catedral de Troyes mede 88 pés e 8 polegadas - medida intencional. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) Máxima, segundo Kant, é um princípio moral subjectivo que cada pessoa adopta. A máxima deve ser transformada em imperativo categórico, isto é, na verdadeira lei moral que, à partida, tem uma formulação abstracta: «Age como se quisesses que a tua acção fosse lei universal da natureza», isto é, aplicável a todos sem distinções. Exemplo: A máxima «Gosto de ajudar pessoas como´higienista naturopata, ensinando-lhes a cura das doenças através da alimentação vegetariana» pode ser transformada no imperativo categórico: «Ensina todas as pessoas do mundo a alimentar-se mediante frutos, legumes frescos e cereais de modo a evitarem e curarem todas as doenças e aplica a ti mesmo essa mesma arte dietética». O imperativo categórico baseia-se na vontade autónoma, livre, do eu racional.

O imperativo hipotético, ou falsa lei moral desenhada no eu inferior, corporal, não racional, enuncia-se assim: «Age de modo a beneficares acima de tudo a ti mesmo, familiares e amigos, secundarizando as outras pessoas ou mesmo prejudicando-as.» Baseia-se na vontade heterónoma (isto é a vontade estranha ao eu racional), nos desejos corporais egoístas. Muitas máximas do tipo «Em primeiro lugar, eu e sempre eu», «Ganhar dinheiro e enriquecer sem me preocupar com a pobreza de outros é o meu lema» dão corpo a este imperativo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) O dualismo antropológico no estoicismo, filosofia baseada na aceitação do destino e no lema «Aguenta e abstèm-te», consiste em dividir o ser humano en 2 polos: o eu racional ou guia interior, que consegue dominar as paixoes e filosofar; o eu animal ou corpo, fonte das paixões da ambição, da cólera, dos prazeres da carne.

O eu racional equivale, em Platão, ao Nous, ou razão intuitiva, a parte superior da alma, que apreende o Bem, o Belo, o Justo e outros arquétipos; o eu corporal equivale à parte inferior da alma ou Epytimia, sede dos prazeres da comida, bebida, acumulação de dinheiro e bens materiais, etc. A parte intermédia da alma é o Tymus ou Tumus e faz a síntese entre as outras duas: enquanto sede da honra, da coragem e do brio militar tenderá a estar ligada ao Nous. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) C) A ética utilitarista de Stuart Mill tem como pilar o princípio da maior felicidade, isto é, propiciar a felicidade à maioria das pessoas envolvidas numa situação, mesmo prejudicando uma minoria de pessoas. É aplicada de forma relativista, isto é, de forma variável, segundo a classe social, a sociedade, a época. Exemplo: a felicidade de um grupo de pessoas X que venceu o euromilhões poderá ser aplicar o dinheiro na compra de casas e automóveis de luxo, mas a felicidade do grupo de pessoas Y que venceu, em outro concurso, o euromilhões poderá consistir em edificar casas de acolhimento para sem abrigo ou crianças orfãs. O subjectivismo é a teoria que afirma que a verdade é íntima, varia de pessoa a pessoa. Ora, em numerosos casos, existe subjectivismo na apreciação do que é fazer feliz a maioria. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) O livre-arbítrio é a capacidade de escolher, mediante reflexão, os seus valores e as suas acções. É compatível com o determinismo, princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias as mesmas causas geram os mesmos efeitos, mas é incompatível com o fatalismo, doutrina segundo a qual não existe liberdade nenhuma, nem na natureza física nem no ser humano, e tudo está rigorosamente predestinado.

Na doutrina de Pitágoras de Samos há quatro princípios (arquês) de todas as coisas que configuram a cosmogénese (nascimento do cosmos) do seguinte modo: do vazio surge um ponto (número um); o ponto desdobra-se em dois que afastando-se formam uma linha recta (número dois); da recta sai um ponto que projectando-se sobre ela segundo infinitas rectas gera um plano (este é o número três); do plano sai um ponto que, projectando-se segundo três linhas rectas sobre esse plano, gera o tetraedro ou pirâmide de três lados (esta é o número quatro). Estes números-figuras, combinando-se entre si, formam todos os objectos do universo (árvores, planícies, animais, homens, etc). A soma dos quatro números figuras essenciais dá 10, o número divino ou tétrade. (VALE QUATRO VALORES).

 

  

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 19:23
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