Domingo, 6 de Janeiro de 2013
Sonetos -II

 

O MEU AMOR VERMELHO

 

 

Talvez não possas ver-me sempre assim:
há a lei do devir que nos transforma,
o conteúdo gera nova forma,
um outro, velho, já germina em mim.

 

Mas enquanto houver em mim juventude
brilho no olhar, luz hormonal,
quero beijar-te toda, sensual,
do teu umbigo ao seio, em amplitude.

 

E sentir que os teus braços são reais,
ondas do tempo, quantuns e fractais
e me envolvem no prisma do amor.

 

Ser em ti a energia em movimento
e a eternidade em que me sento
o enxofre e o mercúrio, o atanor.

 

Francisco Limpo

 

 

GÓTICO AMOR

Já Eros entre nós viveu em ouro
e agora és tu no extremo dessa cama
a levantar a colcha desta chama
com roupa de vinil e até de couro

 

Vamos às fantasias, ao chicote,
à pura advertência, ao sutiã,
à lingerie absorta da manhã,
à sala do castelo e ao archote.

 

És a minha rainha, de brocado,
e eu o cavaleiro teu amado,
na carne a arder em Eros de energia.

 

Silêncio no palácio. É madrugada
e tu, nudez de lua deslumbrada
e eu, sol que renasce até ser dia.

 

Francisco Limpo

 

 

NILO DA ALMA

 

E os teus cabelos de oiro, meu amor?
E os teus lábios pintados de vermelho
o teu sorriso doce ou de outra cor,
Nilo da alma, Egipto, escaravelho?

 

E o teu corpo esguio, sempre em flor,
de rosas, margaridas e hortênsias?
E o nosso olhar cruzado, as excelências
da taça dos desejos do amor?

 

E Eros entre nós? Flecha na alma!
Mas não é só paixão, existe a calma
de sabermos que é um amor eterno

 

Podemos às vezes perder o juízo
mas regressamos sempre ao paraíso,
depois de nos beijarmos no inferno.

 

Francisco Limpo

 

COISALIDADE

 

Eras de oiro e eu não valia nada
excepto o tempo dos limões no limoeiro.
Eras a minha cama, a almofada,
e eu o teu lençol, o travesseiro.

 

Eras a mesa da cozinha e a bancada
e eu o teu azeite, o galheteiro.
Vivíamos de amor, eras a amada,
e eu o trovador, o pregoeiro.

 

Íamos num cavalo de marfim
que eram as tuas coxas junto a mim
e eu queria sempre chegar primeiro.

 

Eu era as rédeas e tu o selim,
e o desejo era o andar deste rocim
que nos acompanhava o ano inteiro.

 

Francisco Limpo

 

 

O OUTONO É GRANDE

Eu sei, amor, o outono é grande, e cresce
na folha verde e azul dos teus sentidos.
No teu seio o vermelho amanhece
e a noite possui óculos coloridos.

 

Vejo-te num bar e és luz difusa
infra-vermelhos sobre a escuridão.
Eu canto o amor que não se usa,
e se atribui à ideia de Platão.

 

És a diva, o arquétipo imortal,
flutuas sobre mim,deusa outonal
nuvem sobre o céu da minha boca.

 

E beijo-te em rodelas de ananás,
morangos, e outra fruta que me apraz
nos teus lábios, lente que desfoca.

 

Francisco Limpo

 

 

ETÉREA ONTOLOGIA

 

Amei cabelos de oiro e eram teus
e papoilas de lábios no teu rosto
e nos meus gestos carnais, ateus,
de te tocar, da uva até ao mosto

 

Beijei-te à procura da substância
da minha azul, etérea ontologia,
epistemologia da fragância
onde viajas, no balão de cada dia.

 

E sei que há escadarias no teu peito
que eu subo a correr, quase desfeito,
no vulcão dos teus seios, nos mamilos.

 

Sinto-me hereje e tu a contra igreja,
o nosso amor é livre e de cereja
sabe a cátaros e a bogomilos.

 

Francisco Limpo

 

O SEU CORPO É TODA A IDADE MÉDIA

 

Que bom estar, em deleite, dentro dela,
no castelo da vagina, enclausurado,
tirar de vez em quando o cadeado
e sair dessa agradável cidadela

 

Cá fora a relva verde do seu ventre
a humidade do rio de virtude
e sempre que a minha lança entre,
hei-de cantar ao som do alaúde.

 

O seu corpo é toda a Idade Média
a sua alma é uma enciclopédia,
um livro de horas, uma iluminura

 

E eu sou um cavaleiro surreal
que busca nela o vaso, o Santo Graal
a medicina alquímica que cura.

 

Francisco Limpo

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 


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publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:01
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