Domingo, 9 de Dezembro de 2012
Heidegger confundiu subjectivismo com idealismo subjectivo

Em «Caminhos de Bosque», o filósofo alemão Martin Heidegger  (26 de Setembro de 1889, Mebkirch- 26 de Maio de 1976, Friburgo) destaca a importância do sujeito, da subjectividade de cada homem, como a base da liberdade, e situa Descartes como o descobridor desse fundamento. Escreveu:

 

« A tarefa metafísica de Descartes passou a ser a seguinte: criar o fundamento metafísico para a libertação do homem em favor da liberdade como autodeterminação com certeza de si mesma. (...)

«O fundamentum, o fundamento da dita liberdade, o que subjaz na sua base, o subjectum, tem que ser portanto algo certo que satisfaça as citadas exigências essenciais. »(Martin Heidegger, La época en la imagen del mundo, in Caminos de Bosque, pag. 87).

 

E prossegue Heidegger:

 

 «Na sofística grega qualquer subjectivismo é impossível porque nela o homem nunca pode ser subjectum. Nunca pode chegar a sê-lo porque aqui o ser é presença e a verdade desocultamento».

«No desocultamento, acontece a phantasía, o chegar a aparecer o presente como tal para o homem que está, por sua vez, presente para o que aparece. Sem embargo, como sujeito representador, o homem fantasia, quer dizer, move-se no imaginário, na medida em que a sua capacidade de representação imagina o ente como aquilo objectivo dentro do mundo como imagem.» (Martin Heidegger, La época en la imagen del mundo, in Caminos de Bosque, pag. 88, Alianza Editorial, Madrid; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Trata-se de um equívoco sério de Heidegger.  Na sofística grega, não há subjectivismo? É óbvio que há e já em Platão o havia, em certa medida. Aliás, a fantasia não é um fenómeno somente colectivo da espécie humana: ela tem um veio singular, individualizado, diferente de pessoa para pessoa e isso não é senão o subjectivismo. A grande revolução filosófica da transferência do centro de gravidade do conhecimento, do mundo exterior para o sujeito pensante, é já efectuada pelos sofistas, nomeadamente por Górgias, se atentarmos no que sobre este escreveu Sexto Empírico em «Adversus mathematicos, 65»:

 

«No livro intitulado «Do Não-Ser, ou da Natureza» Górgias definiu três princípios a saber: primeiro, que nada existe, segundo, se algo existe é incognoscível, e terceiro, se fosse cognoscível, não poderia ser comunicado, nem divulgado. » (citação de Sexto Empírico in Pinharanda Gomes, Filosofia Grega Pré-socrática, pag.273, Guimarães Editores; o destaque a negrito é de minha autoria)..

 

O cepticismo manejado por Descartes no século XVII já foi usado por Górgias. E o subjectivismo de Górgias é patente: se algo for conhecido, não pode ser comunicado, nem divulgado, fica no interior da consciência de um só sujeito.

 

Heidegger pensou confusamente: chamou subjectivismo, corrente gnosiológica que se bifurca em subjectivismo realista ou subjectivismo idealista,  ao idealismo subjectivo de Descartes que reduz o mundo a um conteúdo imaginário da consciência solipsista («Cogito, ergo sum»).

 

E a multidão dos heideggerianos, sejam ou não docentes universitários, não descobre estes erros do mestre, porque a universidade não pensa globalmente nem pormenorizadamente, é uma instituição contra-revolucionária de instalados, de gente doutorada que se arroga possuir o «saber».  De facto, cada doutoramento é uma especialização numa área ínfima do saber e é uma falácia indutiva chamar «doutor em filosofia» a alguém que se doutorou em torno de uma obra de um autor como Martin Heidegger, Jean Paul Sartre, Peter Singer ou qualquer outro. Um "doutor" na ética utilitarista ou em Bertrand Russel não é doutor em Aristóteles, ou em Platão, ou em Hegel e em tantas centenas de filósofos consagrados e temas diversos de filosofia...

 

Heidegger não tinha um pensamento perfeito, ainda que seja superior ao comum dos filósofos. E as universidades ou cátedras que o veneram cheiram a Vaticano, na sua vénia teocrática: olham-no como o Papa da fenomenologia, o representante directo da deusa da Filosofia na Terra. Não é assim. «Ser e tempo» é um livro abundante em confusões, com linguagem razoavelmente obscura. Heidegger nem sequer compreendeu bem a ontognosiologia de Kant, à semelhança de 99% dos catedráticos, como mostrei, neste blog, no artigo «O equívoco de Heidegger ao interpretar a ontognosiologia de Kant» em 9 de Janeiro de 2010.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 13:01
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