Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012
Teste de filosofia para o 10º ano de escolaridade- II (Dezembro de 2012)

Eis um teste de filosofia para o 10º ano de escolaridade, final do primeiro período lectivo,  em Portugal, numa linha oposta à do lobby da filosofia analítica que descasca, mutila e exaure de forma empobrecedora a árvore da filosofia tradicional e contemporânea substantiva. Damos conteúdos inteligentes e pedimos aos alunos que os interiorizem e relacionem para depois os extravasar.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

 

5 de Dezembro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

 

I

 

“A teoria da participação em Platão, do mesmo modo que a relação entre conceito e percepção empírica, exprime bem o problema do uno e do múltiplo na filosofia. O indeterminismo biofísico com livre-arbítrio (vulgo: libertismo) implica responsabilidade na acção, ao contrário do determinismo biofísico sem livre-arbítrio (vulgo: determinismo radical).

 

 

 

1) Explique concretamente este texto.

 

 

 

II

 

2)Relacione, justificando:

 

  

A)    Juízo de facto, juízo de valor e metafísica.

 

B)    Indução amplificante necessitarista, indução estatística e dedução.

 

C)    Hylé, substância e eidos, em Aristóteles, e lei da tríade.

 

III

 

3)Disserte sobre o seguinte tema:

 

   “As quatro esferas ou modalidades de valores segundo Max Scheler e o Nous, o Tumus/Tymus e a Concupiscência na alma humana, segundo Platão”.

  

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA UM TOTAL DE VINTE VALORES

1) A teoria da participação, segundo a qual os entes materiais participam - imitam - nos arquétipos que estão no mundo superior inteligível envolve as noções de uno e múltiplo. O uno - por exemplo, o arquétipo ou forma pura de Triângulo - é participado ou imitado pelo múltiplo - neste caso: as centenas de milhar de triângulos em pedra, gesso, madeira, ferro ou escrita de papel que há no mundo material em que vivemos.  O conceito ou ideia representa o uno  e as percepções empíricas ou conjuntos de sensações visuais são o múltiplo. Exemplo: o conceito de sobreiro é um só e corresponde a múltiplos, milhares de sobreiros que estamos a ver (percepções empíricas). (A PRIMEIRA FRASE DO TEXTO DA PERGUNTA VALE TRÊS VALORES). O indeterminismo biofísico com livre-arbítrio é a teoria segundo a qual a natureza não funciona segundo leis necessárias mas ao acaso (exemplo: a chuva pode cair fria e pouco depois quente no mesmo local, a pedra largada no ar ora cai ora flutua no ar, etc) e o homem dispõe de livre-arbítrio, isto é, capacidade de escolher livremente após reflexão. Como tem livre-arbítrio, é responsável. O determinismo biofísico sem livre-arbítrio é a teoria segundo a qual a natureza se rege por leis necessárias de causa-efeito e não existe o livre-arbítrio, os homens decidem por instinto, sem reflexão. Neste caso, os homens são irresponsáveis, não têm culpa dos erros que cometem. (A SEGUNDA FRASE DO TEXTO DA PERGUNTA VALE TRÊS VALORES)

 

2-A) O juízo de facto é uma afirmação ou negação ligando dois ou mais conceitos referindo-se a realidades objectivas, patentes a todos. Exemplo: «O Alentejo possui muitos olivais e montados de azinho e sobro.» Aparentemente, não há metafísica neste juízo, sendo metafísica a região das entidades invisíveis e desconhecidas e a teoria sobre elas. O juízo de valor é uma afirmação ou negação de caracter subjectivo ou intersubjectivo (neste caso: comum a várias pessoas). Exemplos: «O aborto voluntário é um acto mau», «As revoluções são acontecimentos benéficos», etc. No juízo de valor existe metafísica, isto é, especulação sobre o que é bem ou mal, «vida no além», Deus, origem da vida no cosmos, etc. (VALE TRÊS VALORES).

 

2-B) A indução amplificante  é a generalização, em lei infalível, de alguns exemplos empíricos (exemplo: «Aplicamos a cura de beber água destilada em 1000 pessoas e todas melhoraram, logo beber um litro e meio ou dois de água destilada por dia melhora a saúde de todos os seres humanos»). A dedução é um raciocínio em que a conclusão está implícita nas premissas processa-se por necessidade lógica, de uma premissa geral a uma conclusão particular ou do geral ao geral (exemplo: «Os peixes respiram por guelras, a sardinha é um peixe, portanto a sardinha respira por guelras»). A indução estatística é o raciocínio que parte de alguns exemplos empíricos, algo aleatórios, e generaliza segundo uma média estatística. Exemplo: «Há 15 dias, num domingo, vieram 617 pessoas a esta praia, há 8 dias, num domingo, vieram 530 pessoas a esta praia, induzo que hoje, domingo, venham entre 550 a 600 pessoas a esta praia.» (VALE TRÊS VALORES).

 

2-C) A hylé ou matéria-prima universal é como um vasto oceano sem forma nem existência, segundo Aristóteles. Ao receber o eidos ou forma de uma espécie, como um papel em branco recebe a marca de um carimbo metálico, a hylé dá origem a compostos ou substâncias individuais: este cavalo branco, aquele cavalo castanho. A lei da tríade diz que um processo dialético se divide em três fases: a tese ou afirmação, a antítese ou negação e a síntese ou negação da negação, que resume e concilia as duas anteriores. Assim a substância individual é a síntese, a forma/eidos é a tese e a hylé/matéria universal é a antítese. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) Max Scheler estabeleceu quatro esferas ou modalidades de valor e em cada uma delas valores de coisa, de função e de estado:

- Esfera dos valores sensíveis (prazer e dor físicos, agradável e desagradável, sendo o útil e o inútil valores de referência). Corresponde à concupiscência ou parte inferior da alma, sede dos instintos de comer, beber, reproduzir-se, etc, na teoria de Platão. Exemplo: nesta esfera, sopa de feijão é um valor de coisa, apetite e capacidade digestiva é um valor de função e sensação de saciedade com o estômago cheio ou semi cheio é um valor de estado

- Esfera dos valores vitais ( o nobre e o vulgar, coragem e cobardia, saúde e doença, juventude e velhice, sentimento de vitória ou de derrota, ciúme, inveja, etc). Corresponde sobretudo, ao tumus ou tymus, ou parte média da alma, onde residem a coragem, o sentimento de coragem, de honra, de brio militar, de orgulho. Exemplo: nesta esfera, um castelo ou cidade a conquistar pelas armas é um valor de coisa, apetite guerreiro e capacidade de luta  é um valor de função e sentimento  de vitória ou de derrota após a batalha é um valor de estado.

- Esfera dos valores espirituais ( bem e justo,mau e injusto, ética; belo e feio, estética; verdadeiro e falso, filosofia, e como domínio derivado, ciências ). Corresponde, em Platão, ao Nous ou Razão intuitiva ou parte superior da alma que apreende os arquétipos do Bem, do Belo, do Número, do Justo- e à Dianóia ou razão discursiva matemática. Exemplo: nesta esfera, o livro «Metafísica» de Aristóteles é um valor de coisa, a capacidade de ler e entender as suas teses é um valor de função e sentimento  de sabedoria filosófica alcançado é um valor de estado.

- Esfera dos valores do santo e do profano ( deuses ou Deus ou espíritos eternos, numa perspectiva; o universo sem Deus nem deuses, noutra perspectiva). Corresponde ao Nous, que apreende Deus, o arquétipo de Bem, ou à Dianóia, no caso dos ateus, que apreende os entes matemáticos e outras formas.  Exemplo: nesta esfera, o santuário cátaro de Montsegur é  um valor de coisa, a capacidade de sentir o divino ou o mágico desse lugar montanhoso é um valor de função e o sentimento  de integração com a divindade ou o cosmos inteiro  é um valor de estado. (VALE CINCO VALORES; OUTRAS RESPOSTAS CORRECTAS SÂO POSSÍVEIS).

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:09
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