Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (Novembro de 2012)

Eis mais um teste de filosofia para o 10º ano de Filosofia em Portugal. Estou entre  os professores que não cedem à vaga simplista das perguntas de escolha múltipla que os adeptos da intelectualmente pobre filosofia analítica, lobby poderoso junto do Ministério da Educação e das Editoras, conseguiram impor no modelo de exames nacionais. Ensinamos conceitos, conteúdos aos alunos e não apenas regras da lógica, ossos sem carne a revesti-los. Produzimos, suscitamos  a relacionação dos conceitos, sem os complexos de «ensinar hstória da filosofia» que minam a impensante maioria dos professores de filosofia actuais.

  

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

30 de  Novembro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

 

 

 

I

 

«O ethos, o pathos e o logos são ingredientes do discurso retórico. A falácia ad hominem e a falácia do homem de palha não parecem recorrer à ideia da indução amplificante como o faz a falácia depois de por causa de. A tese relativista de que «o homem é a medida de todas as coisas», de Protágoras, não conduz necessariamente ao cepticismo

 

 

 

1) Explique, concretamente, este texto.

 

  

2) Relacione, justificando:

 

 

A) As quatro formas de Estado na história, segundo Hegel, e tese de que «o finito deve ser superado», em Hegel.

  

B) A astúcia da razão, em Hegel, e a lei dos dois aspectos da contradição.

 

 

C) Princípio do terceiro excluído e silogismo disjuntivo..

 

 

3) Disserte livremente sobre o seguinte tema:

 

 

«As diferenças entre o ser de Parménides, o ser em Hegel, e a substância, essência e acidente em Aristóteles

 

 

 

 

 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) O discurso retórico é uma construção linguística de bem falar mas nem sempre de bem pensar: por isso, importa distinguir entre a retórica falaciosa, enganosa, como Platão a entendia, e a retórica correcta,não falaciosa. O ethos é o carácter do orador (exemplo: «Toda a minha vida defendi a ecologia, denunciei as fábricas poluentes»), o pathos é o sentimento de paixão posto no discurso (exemplo: «Lutai! Não deixeis que vos tirem o que é vosso), o logos é a razão, o conteúdo racional do discurso (exemplo:«Em toda a coisa, está presente o uno e o múltiplo») (NOTA: ESTA FRASE VALE TRÊS VALORES). A falácia ad hominem é o erro de raciocínio que consiste em atacar pessoalmente o interlocutor em vez de atacar as suas ideias (exemplo: «Quando era jovem ele era militante da extrema-esquerda, fanático...»), a falácia do homem de palha é o vício de argumentação que consiste ao atribuir ao interlocutor posições que ele não defende (exemplo a respeito de um teórico que quer introduzir a acupunctura e a naturopatia nos hospitais públicos: «Ele quer acabar com os hospitais e a classe médica que receita químicos e faz cirurgias»). Nenhuma delas recorre à indução amplificante que é a generalização, em lei infalível, de alguns exemplos empíricos (exemplo: «Aplicamos a cura de beber água destilada em 1000 pessoas e todas melhoraram, logo beber um litro e meio ou dois de água destilada por dia melhora a saúde de todos os seres humanos»). Mas esta ideia é manejada na falácia depois de por causa de, que transforma dois fenómenos vizinhos por acidente numa «lei de causa-efeito necessária» (exemplo: «No domingo vi um gato preto e perdi 50 euros, hoje vi um gato preto e parti um farol da moto, logo ver gatos pretos dá azar». (NOTA: ESTA FRASE VALE TRÊS VALORES). O relativismo diz que a verdade e os valores variam de acordo com os homens de cada classe social, de cada sociedade, etnia, época mas isso não leva obrigatoriamente ao cepticismo, corrente que duvida de tudo ou de quase tudo (as percepções empíricas fornecem alguma verdade, no cepticismo antigo). (NOTA : ESTA FRASE VALE DOIS VALORES).

 

2 - A) As quatro formas de Estado, na fase do ser para si ou Deus incarnado em humanidade são, na teoria de Hegel: mundo oriental, em que só um homem é livre, o imperador, e todos são seus súbditos; mundo grego, em que só alguns homens são livres e há uma multidão de pequenos Estados com leis próprias; mundo romano, em que só alguns homens são livres e há uma lei única sobre um vasto império; mundo cristão reformado, em que todos os homens são livres, o que principiou com a revolta do monge Lutero em 1517 proclamando o direito de qualquer homem interpretar livremente a bíblia e culminou com a revolução francesa de 1789-1799 que instaurou a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A tese de Hegel de que «o finito deve ser superado», isto é, ultrapassado, exprime-se no facto de os Estados serem finitos e se sucederem uns aos outros: o Estado Oriental despótico cessou, vieram as democracias esclavagistas gregas, etc. (VALE TRÊS VALORES).

 

2- B) A astúcia da razão é a manipulação das paixões e dos raciocínios dos homens de Estado feita pela razão universal (Deus) para levar a cabo o seu plano. Exemplo: como a revolução francesa de 1789 imergia no caos, a razão universal escolheu um general ambicioso, Napoleão Bonaparte, para golpear as direitas monárquicas e as esquerdas republicanas e levar a França a invadir o resto da Europa espalhando os princípios do liberalismo. A lei dos dois aspectos diz que numa contradição (em rigor: numa contrariedade) há dois aspectos, em regra desiguais, o dominante e o dominado, que podem trocar de posição. Neste caso, o aspecto dominante é a Razão Universal e o dominado os homens de estado como Napoleão ou outros mas a Razão será sempre o polo dominante (VALE TRÊS VALORES). 

 

2- C) O princípio do terceiro excluído diz que uma qualidade ou um ente ou pertence ao grupo A ou ao grupo não A, excluindo terceira hipótese . O silogismo disjuntivo possui também uma disjunção que, em regra, não é a do terceiro excluído mas outra. Exemplo:

«Ou és filósofo de profissão ou és músico.

És músico.

Logo,não és filósofo». (VALE DOIS VALORES)

 

3) O ser de Parménides é uma essência una, eterna, imutável, homogénea, contínua, limitada, incriada, invisível, - simbolizada na esfera. O nascimento e a morte, as cores, o devir, são ilusões.«O ser é e o não ser não é» afirmou Parménides, rejeitando a dialética de Heráclito. «Ser e pensar são um e o mesmo» -dizia Parménides. Neste ponto, coincide com Hegel. Este, ao contrário de Parménides, apresentou o Ser em movimento formando uma tríade: tese, Ser em si ou Deus antes de criar o mundo; antítese, Ser fora de si ou Deus alienado em natureza biofísica (reinos vegetal, animal); síntese, Ser para si, ou Deus encarnado em humanidade e progredindo, através da moral, do direito, do Estado, da filosofia, em direção à liberdade de espírito, fim da . Em Aristóteles, o ser, isto é, o existir, o pertencer a algo, participa nas essências ou formas eternas - que não estão no inexistente mundo inteligível de Platão mas sim nos objectos materiais, nas substâncias, que são um composto formado da forma da espécie (eidos) e da matéria-prima universal (hyle). A substância é a essência individualizada, isto é, a essência mais os acidentes, isto é, aspectos acessórios e transitórios das coisas (exemplo: Rir e chorar são acidentes na essência do rosto humano que, em regra, se mantém sério). Logo, só em Hegel o ser sai fora de si. (A RESPOSTA VALE QUATRO VALORES: HÁ OUTRAS RESPOSTAS VÁLIDAS POSSÍVEIS).

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:50
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