Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012
Martin Buber: o Eu, o Tu e o Isso

Martin Buber (8 de Fevereiro de 1878, Viena - 13 de Junho de 1965, Jerusalém) foi um filósofo austríaco, de origem judia, de ideologia sionista, que teorizou as relações humanas como um triângulo com três vértices: o Eu, o Tu e o Isso. Escreveu Buber:

 

«As palavras fundamentais da linguagem não são vocábulos isolados, mas pares de vocábulos.»

«Uma destas palavras primordiais é o par de vocábulos Eu-Tu

«A outra palavra primordial é o par Eu-Isso, em que Ele ou Ela podem substituir um Isso

«Quando se diz Isso, diz-se ao mesmo tempo o Eu do par verbal Eu-Tu».

«Daí que também o Eu do homem seja duplo. Pois o Eu da palavra primordial Eu-Tu é distinto do Eu da palavra primordial Eu-Isso.»

 

«As palavras primordiais não significam coisas mas indicam relações.»

«As palavras primordiais não exprimem algo que pudesse existir independentemente delas, mas uma vez ditas, dão lugar à existência.»

«Estas palavras primordiais são pronunciadas a partir do Ser.»

«Quando se diz Tu, diz-se ao mesmo tempo, o Eu do par verbal Eu-Tu

«Quando se diz Isso, diz-se ao mesmo tempo o Eu do par verbal Eu-Isso.(1)»

 

«A palavra primordial Eu-Tu só pode ser pronunciada pelo Ser inteiro.»

«A palavra primordial Eu-Isso jamais pode ser pronunciada pelo Ser inteiro.»

 

«Não há Eu em si, mas somente o Eu da palavra primordial Eu-Tu e o Eu da palavra primordial Eu-Isso

«Quando o homem diz Eu, quer dizer um dos dois.»

 

(Martin Buber, Yo y tú, páginas 7-8, Nueva Visión, Buenos Aires).

 

Vejamos exemplos da distinção entre Tu e Isso. Um construtor civil ou outro industrial que falsifica os materiais de construção da casa ou de outro produto que vende, adulterando a qualidade a fim de obter o máximo lucro, está numa relação Eu-Isso: os seus clientes não constituem um Tú, alguém com personalidade própria de quem o eu cuida, mas sim um Isso, um ente estranho que se explora como uma «coisa material» manipulável. No entanto, se uma casa se desmoronar, depois de vendida a um cliente, e o construtor civil se arrepender da sua lógica de capitalismo implacável e sentir a perda e o prejuízo do cliente como «seus» e o procurar indemnizar com justiça, substituiu a relação Eu-Isso pela relação Eu-Tu.

 

Duas observações sobre a citação acima que nos oferece a súmula da doutrina de Buber.

A primeira: há um fundo fenomenológico de entes correlatos (o Eu e o Tu, o Eu e o Isso) nestas teses. Há intersubjectividade: o Eu não existe isolado, mas em correlação com o Tu ou com o Mundo.

A segunda: há um fundo cabalístico nestas teses, na medida em que os fonemas, as palavras são as estruturas a partir das quais nasce a existência da matéria, do mundo do devir. Lembra a tese da Kaballah judaica: «Deus criou o mundo com as vinte e duas letras do alfabeto hebraico.»

 

NOTA

1) Na versão espanhola que estou a citar esta frase aparece do seguinte modo: «Quando se diz Isso, diz-se ao mesmo tempo o Eu do par verbal Eu-Tu». Como me pareceu um erro ou desatenção na tradução, optei por escrever "par verbal Eu-Isso». Mas a dúvida requer a consulta à versão original...

 

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)</strong



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:49
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Junho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
17

19
21
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

Áreas 21º-24º de Carangu...

Ponto 27º 37´/ 27º 44´ de...

Equívocos no Exame Nacion...

25 a 30 de Junho de 2017:...

28 de Junho a 1 de Julho ...

Breves reflexões de Junho...

Areas 14º-18º of Aries, 2...

Identidade de género, uma...

Teste de filosofia do 10º...

Teste de Filosofia do 11º...

arquivos

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds