Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
A discutível leitura de Parménides por Ivan Gobry

«Vocabulário grego de filosofia» de Ivan Gobry é um livro que qualquer professor ou estudioso de filosofia deve possuir na sua biblioteca, pela riqueza de informação nele concentrada. Sobre a teoria de Parménides escreve Ivan Gobry:


«Com Parménides, o Uno já não é Princípio e Fonte dos seres, mas o Único, o Ser que não tolera outro. (...) Seu raciocínio é simples: o ser, sendo eternamente o mesmo, é perfeito e imutável; portanto, não pode ser o Princípio, pois o facto de dar o ser a outros o privaria da totalidade do Ser. Esse Uno é puramente inteligível, pois somente a via da razão pode encontrá-lo, visto que os sentidos só conhecem o múltiplo (fr II, VI, 4; VIII, 20).» (Ivan Gobry, Vocabulário grego da filosofia, Livraria Martins Fontes, pag 72; a letra negrita é colocada por mim).


 


Contesto esta interpretação de Gobry sobre o poema de Parménides. O facto de o ser dar ser a outros não o priva em nada da sua totalidade. Em analogia com a teoria de Platão: o facto de o Arquétipo de Belo, sem forma física, irradiar o belo sobre todas as coisas, accões e ciências belas em nada dissolve ou diminui o ser, a essência ou ideia de Belo, hiperfísica.


Não está dito nos textos de Parménides que o Ser é inteligível em si mesmo , isto é, não está explícito que o ser é pensamento puro, até porque o pensamento possui diferenciação, heterogeneidade, qualidades que não há no ser.  A frase de Parménides «ser e pensar é um e o mesmo» não significa que desapareça a diferença entre o ser e o pensar mas sim que possuem identidade, encaixe mútuo, que só se acede ao "ser" pela via inteligível.


Por outro lado, ao invés do que afirma Ivan Gobry, o Ser é fonte de todos os entes imersos no mundo físico da aparência: é o substrato uno, imóvel, imanente a todas as coisas e processos.


Parménides não negou o devir em todas as modalidades. Negou-o no plano do ser que ele entende como um substracto esférico, imóvel, homogéneo, incriado dos entes. Portanto, ao contrário do que Gobry afirma, o Ser é o Uno mas não o Único. O Ser permite o múltiplo - que é e não é - no plano da ex-istência (ex ou ek significa fora; fora do Ser). A oposição entre Parménides e Heráclito não é absoluta, como vulgarmente se propaga. Parménides admite a mudança no plano ôntico - para usar a terminologia de Heidegger - mas não no plano ontológico. Diríamos que Parménides é dialéctico, «heraclitiano», no plano da descrição dos fenómenos, das aparências sensíveis, do mundo físico, (a via da aparência)  mas recusa a dualidade no seio do ser profundo e primordial que Heráclito advogava.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:45
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