Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012
Confusões de Eduardo Lourenço sobre Kant: é a apercepção transcendental distinta do Cogito cartesiano?

 

Eduardo Lourenço, filósofo universitário e prémio Pessoa em 2011, não compreendeu a ontologia de Kant em alguns pontos essenciais. Escreveu a propósito da síntese que é o conhecimento forjado no entendimento (Verstand), uma das divisões do espírito humano segundo Kant:

 

«Qual é então o fundamento da síntese? É o cogito, não no sentido cartesiano de algo subsistente e real, mas de consciência que acompanha todos os conceitos e representações, pura condição a priori do conhecimento. »

"O eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações; porque de outro modo haveria em mim qualquer  coisa de representado que não poderia ser pensado, o que equivaleria a dizer que ou a representação seria impossível ou pelo menos não seria nada para mim...Designo ainda a unidade desta representação sob o nome de  unidade transcendental da consciência de si" (Nota 79: Kant, Crítica da Razão Pura, pag.138)".  

 

«Detenhamo-nos na concepção kantiana da unidade da apercepção transcendental. Ela marca toda a distância que separa a filosofia crítica da metafísica de Fichte, Schelling, Reinold e Hegel. O seu tipo de existência é puramente lógico e não ontológico como o cogito cartesiano ou husserliano cuja realidade indubitável e concreta é apreendida numa intuição original. Ora, para Kant, a única espécie de intuição que existe é a intuição sensível e essa é uma representação que é dada anteriormente a todo o pensamento. O cogito, pelo contrário é um "acto de espontaneidade , quer dizer que não se poderá olhá-lo como pertencente à sensibilidade." (Crítica da Razão Pura, ibid, pag 138).

«Chama-se por isso apercepção pura distinguindo-a da apercepção empírica que caracteriza o acto de apreensão de um eu empírico, coleção de sensações e representações, contraditórias com a unidade que caracteriza o eu transcendental.» 

(Eduardo Lourenço, Heterodoxias I, página 115-116, Gradiva; o negrito é colocado ).

 

 

Isto revela uma grande confusão do laureado com o prémio Pessoa 2011 sobre a ontognosiologia de Kant.  O cogito de Descartes é uma estrutura a priori do espírito humano, ontológica, e a apercepção pura da consciência em Kant não é senão esse mesmo cogito, porque é anterior ao representado, é a priori. Mas Eduardo Lourenço não se apercebe dessa identidade. A lógica é inseparável da ontologia não pode haver uma estrutura lógica que não seja ontológica, a lógica é a radiografia óssea do corpo no qual se inserem os nexos lógicos, os «ossos». Dizer que a apercepção transcendental pura é lógica e não ontológica é não compreender que o entendimento e a razão - molas ou constituintes da apercepção pura - são ontológicos, sendo o entendimento a estrutura e função lógica e a razão a estrutura e função ilógica e supra-lógica.

 

Para diferenciar o cogito da apercepção pura Eduardo Lourenço usa, confusamente o argumento de que Kant nega haver outra intuição além da sensível, esquecendo que Descartes e Husserl deram ao termo intuição um sentido diferente, o de apreensão intelectual e instantânea da verdade.

 

Aliás como se chegaria à certeza de que o entendimento segundo Kant possui as categorias (formas lógicas) a não ser por apreensão intelectual que é a própria apercepção transcendental? Chamar a esta apreensão intuição é o que Husserl fez e Kant não, mas não é motivo para dizer que  cogito e apercepção transcendental sejam distintos...Não é a lógica que descobre a lógica, mas a estrutura ontológica, material ou espiritual, que descobre a lógica. As categorias do entendimento são estruturas ontológicas, e lógicas, de carácter imaterial inerentes ao eu humano.

 

Se Eduardo Lourenço argumentar que é o próprio Kant que postula ser a apercepção transcendental, etérea e formal, diferente de um cogito cartesiano substancial, contraporei o seguinte: a opinião de Kant em várias matérias é incoerente, não é de fiar, como no caso do seu falacioso ataque ao "idealismo dogmático" de Berkeley que é, na essência, o mesmo que o idealismo transcendental de Kant.

 

Mas isto nem Eduardo Lourenço nem os mais famosos catedráticos de filosofia, perdidos na hiper-análise fragmentária (exemplificando o que é hiper-análise: o não reconhecer que uma moeda de prata é, no essencial geral, o mesmo que uma moeda de cobre, ou que um gato preto e um grato branco são da mesma classe) não são capazes de ver.

 

Estou, pois, com Schopenhauer contra a falsidade das cátedras universitárias em filosofia e o sistema de favores mútuos de carreira entre a camada dos professores de filosofia de cátedra- ainda que eu não acompanhe as críticas de «charlatanismo»  com que ele mimoseou Hegel e Schelling.

 

  

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:36
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