Domingo, 22 de Julho de 2012
Ernst Mach e David Hume: em torno da tese de os corpos como complexos de sensações

 

Ernst Mach (18 de Fevereiro de 1838-19 de Fevereiro de 1916), físico e filósofo austríaco, um dos fundadores do empirocriticismo, escreveu:

 

«Cores, temperaturas, pressões, espaço, tempo e assim por diante estão ligados uns com os outros de variadas maneiras; e com eles estão associadas disposições da mente, sentimentos e volições. Fora desta fábrica, que está relativamente mais fixa e permanece visível, grava-se na memória, e exprime-se na linguagem. Uma permanência relativamente maior é exibida, em primeiro lugar, por certos complexos de cores, sons, pressões, e assim por diante, funcionalmente ligados no espaço e no tempo, que por isso recebem nomes especiais e são chamados corpos. Esses complexos não são absolutamente permanentes.»

«A minha mesa está agora luminosamente, agora mal iluminada. A sua temperatura varia. Pode receber uma mancha de tinta. Uma das suas pernas pode ser quebrada. Pode ser reparada, polida, substituída, peça a peça. Mas, para mim, permanece a mesa na qual  diariamente escrevo. »

«Mais, esse complexo de memórias, humores e sentimentos, junto com um corpo particular (o corpo humano) que é chamado o "Eu" ou o "Ego" manifesta-se como relativamente permanente. Eu posso ser solicitado para este ou aquele assunto, posso estar quieto e alegre, excitado, ou mal-humorado. Ainda, casos patológicos aparte, subsistem suficientes aspectos duradouros para identificar o ego. Obviamente, o ego também só tem permanência relativa.»

«A aparente permanência do ego consiste principalmente no simples facto da sua continuidade, na lentidão das suas mudanças. »(Ernst Mach, The Analysis of Sensations, and the relation of the Physical to the Psychical, pags 3-4, Forgotten Books, Viena, 1900; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Parece estarmos a ler David Hume no seu atomismo cognitivo. Escreve Mach:

 

«Então naturalmente surge a noção filosófica, de início impressiva, mas subsequentemente reconhecida como monstruosa, de uma "coisa em si", diferente da sua "aparência", e incognoscível.»

«Coisa, corpo, matéria não são nada para além da combinação dos elementos - cores, sons e assim por diante...»

(Ernst Mach, The Analysis of Sensations, and the relation of the Physical to the Psychical, pags 6, Forgotten Books, Viena, 1900)

 

 

Isto é, basicamente, o idealismo atomista e sensista de David Hume. No entanto, este, no seu «Tratado da Natureza Humana», comete o erro de dizer que a plebe não distingue entre representação (imagem, ideia) e objecto físico em si:

 

«Ora, conforme já notamos, qualquer que seja a distinção que os filosófos façam entre os objectos e as percepções dos sentidos, que eles admitem serem coexistentes e semelhantes, tal distinção não é compreendida pela generalidade das pessoas; estas, como não apreendem senão um ser, jamais podem aceitar a opinião de uma dupla existência e de uma representação. As próprias sensações que entram pelos olhos ou pelos ouvidos, são para elas os verdadeiros objectos...» (David Hume, Tratado da Natureza Humana, pag 247, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é posto por mim)

 

 

Isto é, obviamente, falso. A maioria das pessoas defende o realismo natural, que é um dualismo, de um lado o objecto físico em si, do outro lado a percepção, esta como «imagem de espelho» do primeiro. A prova do erro de Hume está em que o senso comum diz que o cego não vê, não tem representação, de um objecto físico fora dele.

 

 

O que me parece é que Mach não circunscreve as cores, os sons, o espaço, o tempo, ao interior das mentes humanas, mas as põe fora como se houvesse um caos ou magma exterior à mente a que ela fosse buscar a matéria-prima para construir os objectos que são aglomerados de sensações. Esses objectos estariam pois na fronteira mente-corporeidade exterior. Kant ou Berkeley são, irrevogavelmente,  idealistas, ainda que o primeiro se auto classifique de «realista empírico». Em Mach, os complexos chamados corpos existem em nós e fora de nós ou no limite entre o interior e o exterior desconhecido. São complexos de sensações, não são coisas em si, autosubsistentes. Poderá o empirocriticismo ser algo distinto de uma variante do idealismo?

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 12:15
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