Quinta-feira, 12 de Julho de 2012
Equívocos de Max Scheler em gnosiologia

 

Sem embargo de ser um pensador de alta qualidade, o fenomenólogo alemão Max Scheler (22 de Agosto de 1874- 19 de Maio de 1928), desliza no gelo de alguns equívocos teóricos ao explanar as diferentes correntes ontognosiológicas. Escreveu:

 

«Um terceiro princípio da sociologia do saber, que é em simultâneo uma tese da teoria do conhecimento, afirma que há uma lei de ordem fixa na origem do nosso saber de realidade, isto é, do "capaz de ação", e na concreção das esferas próprias e constantes da consciência humana e das suas correlativas esferas de objetos. Indiquemos quais são as esferas de ser e de objetos irredutíveis entre si antes de enumerar a lei. São: a) a esfera do Absoluto real e valioso, do Santo; b) a esfera dos contemporâneos, dos antepassados e da posteridade, isto é, a esfera da sociedade e da história ou do "outro"; c) as esferas do mundo exterior e do mundo interior com a esfera do próprio corpo e do seu meio; d) a esfera do considerado como "vivo"; e) a esfera do mundo corpóreo morto e que aparece como "morto". A teoria do conhecimento fez até hoje diversos ensaios - que não há por que motivo expôr aqui -  para reduzir umas a outras estas esferas do ser, cujo conteúdo dado muda, naturalmente de um modo constante na história: ora o mundo interior ao exterior (Conte, Mach, Avenarius, o materialismo); ora o mundo exterior ao interior (Berkeley, Fichte, Descartes); ora a esfera do Absoluto às restantes esferas (por exemplo, tentando "inferir" casualmente a existência e a essência de um princípio divino); ora o mundo da vida ao mundo precedente do morto (como a teoria "introafectiva"da vida, por exemplo, em Descartes e em Lipps); ora em admitir a existência de contemporâneos à precedente existência do próprio mundo  interior e de um mundo corpóreo exterior (teoria do conhecimento da consciência alheia por meio da inferência analógica e da infroafeção); ora a distinção entre sujeito e objeto em geral à precedente existência do "próximo", ao qual se "introjeta" primeiro a parte do integrante do meio ambiente, por exemplo, "esta árvore", para logo ser introjetada a própria pessoa pelo observador (Avenarius); ora o próprio "corpo" a uma mera cooordenação associativa de autopercepção do próprio eu e das sensações orgânicas e do próprio corpo percebido por fora. »

 

«Todos estes ensaios são por princípio erróneos. As esferas são irredutíveis e, enquanto esferas, dadas, do mesmo modo primário com toda a consciência. O que, sim, se pode mostrar com todo o rigor  é que há uma ordem no dar-se e preceder-se estas esferas, que está sujeito a uma lei essencial e permanece constante em toda a possível evolução do homem. Quer dizer: cada uma das esferas está já "concretizada", em todo o estado de evolução, quando a outra não o está ainda, e está concretizada de modo determinado quando a outra o está ainda de modo indeterminado. Em segundo  lugar, a realidade de um objecto de uma essência determinada dentro de cada uma destas esferas pode ainda «pôr-se em dúvida», ou pode deixar-se "indecisa" quando não se pode duvidar, ou não se pode deixar indecisa, a realidade de um objeto de uma essência determinada nas outras esferas.  Deixando, pois, de lado, o lugar da esfera do Absoluto, nesta ordem, é válida a seguinte lei, fundamental para os fins da nossa sociologia do saber: a esfera "social dos contemporâneos" e a esfera histórica "dos antepassados" precedem neste sentido  todas as demais esferas: a) na realidade; b) em conteúdo e num determinado conteúdo. O "tú" é a categoria da existência mais fundamental no pensar humano. »

 

«Por isso, entre os primitivos, é aplicada igualmente a todos os fenómenos da natureza; a natureza inteira é para eles primariamente um campo expressivo e uma "linguagem" de espíritos e demónios ocultos atrás dos fenómenos. Acrescento  algumas outras leis de precedência igualmente importantes: 1) A esfera do mundo exterior precede sempre a do mundo interior. 2) O mundo considerado como "vivo" precede sempre o mundo considerado como "morto", isto é, smplesmente "não vivo". 3) O mundo exterior dos outros sujeitos contemporâneos precede sempre o que "eu" como indivíduo tenho e "sei" justamente do mundo exterior; e não menos o mundo exterior dos "meus" contemporâneos precede sempre o mundo interior dos "meus" contemporâneos. 4) O mundo interior dos contemporâneos, dos antepassados e da posteridade (como perspectiva de expectativa) precede sempre o meu próprio mundo interior como esfera. Isto é: toda a autobservação é - como já Thomas Hobbes viu claramente - só um "conduzir-me" comigo próprio como se eu fosse "outro"; a autobservação não é presuposto, mas sim consequência e imitação da observação do próximo. 5) O meu próprio corpo e todo o corpo alheio precede como campo expressivo (não como objecto corpóreo) toda a distinção entre corpo e alma (isto é, "mundo interior")» (Max Scheler, Sociología del Saber, pag. 60-62, Editorial Leviatán, Buenos Aires, 1991; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

 

Há algumas imprecisões neste texto. Scheler confunde aqui diversos planos: o da ontologia fáctica, actualizada, (realismo, idealismo, fenomenologia, monismo neutral ou empirocriticismo) com o da ontogénese (espiritualismo/núsalismo, materialismo, núsmaterialismo). Mistura espécies de géneros diferentes, o que é anti dialético. O género supremo ontologia divide-se em diversas espécies - ontologia actualizada (o ser actual), ontogénese (os princípios do ser ou o ser primordial) ontologia do futuro - cada uma das quais constitui um género que se subivide em sub-espécies.

 

Por outro lado, não é exacto dizer que as correntes que reduzem o mundo interior ao exterior estejam exemplificadas em Mach e Avenarius. Estes dois teóricos do empirocriticismo, o percursor do positivismo lógico, fundem o interior com o exterior, fazendo desaparecer ambos, ao sustentarem que os corpos são complexos sensoriais. Não se vê que o interior se reduza ao exterior... e o inverso não sucede no empirocriticismo? Este não é nem realismo (dualismo ontológico) - Scheler chama a este com certa imprecisão materialismo - nem idealismo (monismo ontológico simples).

 

Também não é exacto colocar Descartes como um exemplar dos filósofos que reduzem o mundo exterior ao mundo interior: Descartes só fez esta redução no momento da dúvida absoluta e nos subsequentes momentos do «Penso, logo existo» e do «Se eu existo como mente e possuo algumas perfeições, há-de haver um ser mais perfeito que me criou, Deus» pois, no final dos seus raciocínios neste tema, ele admitiu que há um mundo exterior de matéria, ainda que isento de cor, cheiro, peso, dureza, sabor, som (realismo crítico das qualidades primárias e secundárias).

 

Ademais , se o realismo. o idealismo, o empirocriticismo de Mach e Avenarius e a fenomenologia ( pressentida na frase acima: «ora em admitir a existência de contemporâneos à precedente existência do próprio mundo  interior e de um mundo corpóreo exterior (teoria do conhecimento da consciência alheia por meio da inferência analógica e da infroafeção») estão "erróneos", o que sobra, na pura gnosiologia? Scheler deriva para a sociologia, para os princípio sociológicos do indivíduo em função da massa ou da classe social e do interior como função do exterior, e não esclarece, de facto, qual é a sua posição gnosiológica

 

 Por outro lado, quando escreve «3) O mundo exterior dos outros sujeitos contemporâneos precede sempre o que "eu" como indivíduo tenho e "sei" justamente do mundo exterior» Scheler está a negar que a criatividade e o saber de um indivíduo possa ultrapassar e preceder - no sentido ontológico do termo: ser originário, anterior a - a criatividade e o saber dos seus contemporâneos. É o mesmo erro sociológico que Hegel cometeu ao dizer que  um indivíduo, por mais criativo que seja, nunca pode ultrapassar o espírito do seu povo.

 

PLATÃO NÃO ADMITIA A EXISTÊNCIA DE UM MUNDO EXTENSO E , ORIGINARIAMENTE, MORTO?

 

Scheler escreveu ainda:

 

«O admitir a realidade e uma determinada constituição da sociedade e da história em cujo seio se acha um homem está pois, muito longe de fundar-se em admitir a realidade e uma determinada constituição do chamado "mundo corpóreo" ou um certo conteúdo da autopercepção interior, como tantos continuam a acreditar ainda. Não foi em vão que houve numerosos filósofos que negam que hajam um mundo real, extenso, morto (Platão e Aristóteles, Berkeley e Fichte, Leibniz e Kant, etc) mas muitos poucos que neguem a existência real de um animal ou mesmo de uma planta.»(Max Scheler, Sociología del Saber, pag. 62, Editorial Leviatán, Buenos Aires, 1991; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Scheler procura, neste excerto, demarcar-se quer do realismo ("mundo corpóreo" em si mesmo, autosubsistente) quer do idealismo (mundo material como "autopercepção interior") e afirma a supremacia do vitalismo, no sentido de que o universo é vivo. Mas vitalismo é espécie de um género diferente do género ontológico cujas espécies são realismo e idealismo e fenomenologia. Há um realismo vitalista e um realismo não vitalista, mecanicista ou mecano-quimista. 

Sobre Platão, Scheler erra ao dizer que aquele negou a realidade de um mundo extenso, morto.  E sobre Aristóteles erra igualmente pois este admitiu que o espaço é extenso, extramental, preenchido por matéria de diversas naturezas.

 

A concepção de Platão sobre o mundo é uma concepção realista, "materialista" se quisermos dizê-lo de modo um pouco grosseiro: a matéria é real e subsiste independentemente das mentes humanas. Aliás é eterna, e anterior à humanidade. Platão está nos antípodas de Kant, em matéria de ontognosiologia. Schopenhauer não parece ter frisado suficientemente esta diferença entre ambos, exaltando antes as semelhanças. Platão é realista, ao passo que Kant é idealista.

O chamado idealismo de Platão deveria designar-se, sim, por realismo das Ideias-objecto. Estas são formas objectivas, transcendentes, que ocupam um lugar fora das mentes humanas. Em Platão há, de facto, um mundo extenso e originariamente morto: a chorá ou espaço preenchido de uma matéria difusa, informe. Espanta que Scheler alinhe Aristóteles e Platão, realistas, ao lado de Berkeley, Kant e Fichte, idealistas. É uma falta de clareza séria.

 

 

Os doutoramentos em filosofia não filtram, não depuram, o filão de oiro do pensamento intelectual da ganga de erros lógicos ou metafísicos. Scheler, um dos poucos que mereceria um título de doutor na universidade ideal da filosofia, cometeu, não obstante, paralogismos.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:02
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