Quarta-feira, 11 de Julho de 2012
Crítica de Max Scheler à redução fenomenológica de Husserl

 

O fenomenólogo alemão Max Scheler (22 de Agosto de 1874- 19 de Maio de 1928), na linha das correntes vitalistas e não representacionistas, critica o conhecimento como uma apreensão racional-intelectual, visto unicamente como um aclarar da água turva de modo a ver o fundo do tanque:

 

«O problema da produção técnica das disposições afectivas e intelectuais necessárias para o conhecimento filosófico das essências é conhecido de todos os metafísicos, desde Buda, Platão, e Santo Agostinho até ao "esforço doloroso" de Bergson a fim de intuir a "durée" e até à teoria da "redução fenomenológica" de Husserl, que significa um problema epistemotécnico da atitude filosófica específica no saber e no conhecimento, em Husserl mascarado simplesmente sob uma aparente metodologia lógica e até aqui resolvido do modo mais deficiente. A técnica interna do saber filosófico e metafísico é justamente um problema de índole completamente peculiar e independente e não deve confundir-se com a técnica do conhecimento científico positivo nem os restantes procedimentos psicoténicos para outros "fins". Na dita técnica trata-se sempre de uma coisa: de produzir por meio de um acto de exclusão dos actos e impulsos que dão o momento de realidade dos objectos (a realidade é sempre, em simultâneo, o sumo e último "principium singularisationis") uma pura contemplatio das genuínas ideias e fenómenos primários e - na correspondência entre umas e outros - da "essência" livre de existência. Mas estes actos e impulsos são sempre de natureza dinâmica impulsiva - como reconheceram em comum Berkeley, Maine de Biran, Bouterweck, o Schelling do último período, Schopenhauer, W.Dilthey, Bergson, Frischeisen-Köhler, E.Jaensch, M.Scheler. Só como "resistência" oposta à atenção dinâmica impulsiva se dá a realidade em todos os modos da percepção e da recordação. Ora bem, estes actos a excluir, e não um mero procedimento lógico para "prescindir" dos modos da existência ou para "pôr entre parentesis" a existência como crê E.Husserl são, mesmo assim as raízes positivas de aquela vontade de domínio e aquela valoração do domínio que, como vimos, são em simultâneo uma das raízes psicológicas da ciência positiva e da técnica do domínio.»

(Max Scheler, Sociología del Saber, pag. 163-164, Editorial Leviatán, Buenos Aires, 1991; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

A crítica de Scheler a Husserl aqui contida é a de que este reduziria o conhecimento a uma técnica de eliminação de pormenores empíricos singulares dos entes, separando a "essência" da existência, o que é impossível, segundo Scheler. A redução fenomenológica não é senão, a meu ver, a teoria do conceito como abstração das percepções empíricas similares entre si, formulada por Aristóteles. E esse tecnicismo que é a redução fenomenológica (Exemplo: «vejo vários pinheiros de ramagem a oscilar ao vento e abstraio das diferenças entre eles e isolo na minha mente, por redução, a essência de pinheiro») seria não uma atitude neutra mas assentaria em postulados metafísicos não explícitos e questionáveis, numa vontade de domínio, mais ou menos subjectiva.

 

Parece, pois, haver duas vias na fenomenologia: uma delas, a de Scheler e Heidegger, filiada em Schopenhauer e Kant, criadora, existencialista que defende o conhecimento como explosão da matéria das sensações com formação posterior da forma; a outra, a de Husserl, reprodutora, essencialista estática, espelhamento ou desvelação de um arquétipo ou forma essencial que existe desde o início encoberto ou mal entrevisto por uma cortina sensorial, de percepções empíricas ou imagens da memória. No entanto, há que analisar bem os textos de Husserl, como salientou Merleau-Ponty, e detectar se este superou a «redução fenomenológica» nalgum deles.

 

  

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 23:35
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