Sexta-feira, 1 de Junho de 2012
Equívocos de Ludwig Wittgenstein no Tratactus Logico-Philosophicus

 

O Tratactus Logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein apresenta diversas incoerências, disfarçadas na atomização "fatiada" das teses que parecem construir uma escadaria indestrutível de pensamentos. Mas há incoerências, degraus de mármore fracturados, fissuras. Wittgenstein escreveu:

 

«1. O mundo é tudo o que é o caso.

«1.1 O mundo é a totalidade dos factos, não das coisas.»

(Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico , Investigações Filosóficas, pag. 29, Fundação Calouste Gulbenkian; o bold é posto por mim).

 

Isto está em contradição com o seguinte pensamento:

 

«2.024  A substância é o que permanece independente daquilo que é o caso». 

 

(ibid, pag.33; o bold é posto por mim).

 

Ora aquilo que é o caso é o mundo. Assim a substância permaneceria independente do mundo. De novo, isto contradiz o seguinte:

 

«2.021 Os objectos formam a substância do mundo. Por isso, não podem ser compostos.»

 

Afinal há a substância do mundo... Mas acima dizia-se que a substância estava independente do mundo, isto é, daquilo que é o caso. É uma incoerência visível.

 

 

O TEMPO É FORMA FIXA OU É CONFIGURAÇÃO INSTÁVEL DOS OBJETOS?

 

Wittgenstein identifica o termo coisas com o conceito de objectos e define o mundo como múltiplos estados de coisas. Escreve ainda:

 

«2.01  O estado de coisas é uma conexão entre objectos (coisas).

«2.012  Se posso pensar num objecto em conexão com um estado de coisas então não posso pensá-lo fora dessa possibilidade desta conexão.»

2.0251  Espaço, tempo e cor (coloração) são as formas dos objetos.

2.027    Só havendo objetos pode haver uma forma firme do mundo.

2.0271  O objecto é o firme, o subsistente; a configuração o mutável, o insubsistente.»

2.072    A configuração dos objetos forma o estado de coisas.

2.032     O modo e a maneira como os objetos estão em conexão num estado de coisas, é a estrutura do estado de coisas.

2.033    A forma é a possibilidade da estrutura.»

(Ludwig Wittgenstein, ibid, páginas 30-34; o bold é colocado por mim)

 

 

Ao dizer que o espaço é uma forma dos objetos (2.0251), Witgenstein é ambíguo: há espaço além dos objectos, que não é forma destes.

Por outro lado, ao distinguir , como Aristóteles na "Metafísica" entre a configuração (morfé) ou forma em devir, mudando a cada instante, e a forma firme, estável (o eidos, essência), Wittgenstein contradiz-se, ao menos aparentemente: admite uma forma firme do mundo ( totalidade dos estados de coisas) devida aos objectos (2.026) mas diz que a instável configuração dos objectos forma cada estado de coisas (2.0271). É como dizer que a soma de todas as instabilidades, que são cada estado de coisas, originasse o mundo estável. Mas esta estabilidade do mundo seria meramente uma abstração, a menos que Wittgenstein se desviasse para o platonismo e considerasse existirem objetos imóveis e eternos, imateriais...

 

Dizer que «o tempo é uma forma dos objectos» é equívoco neste contexto, neste «jogo de linguagem»: devia antes  dizer que o tempo é configuração, um modo absolutamente transitório de os objetos serem.

A ideia de a forma conter todas as possibilidades da configuração e da estrutura do estado de coisas é claramente hegeliana: a essência contèm em germe, em potência, a totalidade dos momentos da forma que posteriormente serão extrinsecados ou postos fora de si.

 

 

HÁ UMA REALIDADE EXTRA MUNDO MAS... «A REALIDADE TOTAL É O MUNDO»

 

Wittgenstein escreveu:

 

«2.04  A totalidade dos estados de coisas que existem é o mundo.

2.06    A existência e a não existência de estados de coisas é a realidade.

2.063  A realidade total é o mundo.»

 

É evidente a inconsistência mútua destes pensamentos.No primeiro, o mundo é definido como a totalidade dos estados de coisas que existem mas não dos que não existem. Estes últimos, tal como o mundo, incorporam-se na realidade, que é o reservatório maior que tudo engloba, o mundo e o não mundo, de acordo com o pensamento 2.06. Por último Wittgenstein contradiz-se flagrantemente ao identificar o mundo com a realidade total (2063). 

Jogo de palavras, sofística - este é um traço da filosofia analítica a que o próprio Wittgenstein não escapou. Não possui conceitos firmes, isentos de anfibologia.

 

RUSSEL TAMBÉM PENSAVA DE FORMA ILÓGICA

 

Se um dos fundadores da filosofia analítica no século XX apresenta estas incoerências, não podemos esperar que os seus herdeiros e os epígonos estejam isentos da incoerência.  Bertrand Russel, outro fundador da filosofia analítica, postulou, erroneamente, que há classes que são membros de si mesmas, como a classe dos objectos abstractos (refutei este pseudo paradoxo em artigo neste blog, de 22 de Fevereiro de 2012).

 

Os catedráticos de filosofia analítica e de outras correntes não detectaram estas falhas lógicas numa filosofia que pretende ser a primeira na lógica. É por isso que não acredito na filosofia das universidades, no saber da cátedra. Esta é uma mistura de vaidades pessoais com reprodução de pensamentos  de filósofos consagrados e alguma rara inovação, às vezes para pior (caso da classificação de "consequencialismo" aplicada à teoria de Mill). Quanto ao processo de cooptação de novos catedráticos universitários, está, desde há séculos, inquinado: sendo a grande maioria dos catedráticos de inteligência mediana ou mediano-elevada, inimiga da inteligência superior, holística, que apenas existe em um ou outro, a regra é que os que ascendem à cátedra sejam pensadores de segunda categoria, razoavelmente confusos.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:59
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