Terça-feira, 1 de Maio de 2012
Algumas teses de Theodor Adorno sobre estética

 

Theodor Wiesengrund-Adorno (11 de Setembro de 1903, Frankfurt Am Main; 6 de Agosto de 1969, Visp), filósofo, sociólogo, musicólogo, um dos grandes teóricos da arte no século XX, escreveu:

 

«A arte nega as determinações categorialmente impressas na empiria e, no entanto, encerra na sua própria substância um ente empírico. Embora se oponha à empiria através do momento da forma - e a mediação da forma e do conteúdo não deve conceber-se sem a sua distinção - importa, porém, em certa medida e geralmente, buscar a mediação no facto de a forma estética ser conteúdo sedimentado.» ( Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.15, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Esta é uma ideia perfeitamente hegeliana: o conteúdo espiritual, isto é, a ideia e o sentimento, descem e exprimem-se na forma, na figura desenhada na tela e nas tintas usadas, na figura tridimensional esculpida no mármore, etc. No entanto, a arte não é pura imitação da natureza, nega determinações ou características desta: por exemplo, o braço de mármore de uma estátua não contém veias e células vivas como o braço que o artista tomou por modelo empírico.

 

AS OBRAS DE ARTE SEM SENTIDO GERAM UM CONTEXTO DE SENTIDO

 

A ausência de sentido e de significação, um dos problemas cruciais de muita da arte contemporânea, é assim equacionada por Adorno:

 

«As obras de mais elevado nível formal, desprovidas de sentido ou a ele alheias, são, pois, mais que simplesmente absurdas, porque o seu sentido cresce na negação do sentido. A obra que  nega rigorosamente o sentido está obrigada, por tal lógica à mesma coerência e unidade, que outrora devia presentificar o sentido.  As obras de arte, mesmo contra a sua vontade, tornam-se contextos de sentido ao negarem o sentido. »( Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.176, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Uma questão que aqui se pode colocar é: as obras tornam-se contextos de sentido, em si mesmas, ou é o espectador que, automaticamente, instaura um sentido em tudo aquilo que percepciona, do mesmo modo que ao olhar uma mesma nuvem uma pessoa diz que lhe lembra uma cenoura, outra diz que se assemelha a um focinho de rato e uma terceira à fuselagem de um avião? É o sentido objectivo e real em si e por si ou é subjectivo e irreal, está só nos olhos de quem contempla? 

 

A VERDADEIRA ARTE NÃO INCLUI A INTENÇÃO

 

Para Adorno, a intenção não é um ingrediente essencial da obra de arte. Esta surgiria como que por um puro automatismo, algo similar à natureza e suas leis. É sem dúvida, uma espécie de «astúcia da razão artística» - o conceito hegeliano de astúcia da razão, isto é de manipulação dos espíritos individuais pela razão ou espírito universal,  sustenta, por exemplo, que Napoleão não foi o principal artífice da história da França de 1801 a 1812, como chefe do directório e imperador, mas que foi a razão universal (Deus) que, astuciosamente, se serviu da personalidade e do prestígio de Napoleão Bonaparte para operar as transformações indispensáveis ao domínio da burguesia sobre a vida política em França e na Europa.

 

«A arte procura imitar uma expressão, que não incluiria intenção humana. Esta é apenas o seu veículo. Quanto mais perfeita uma obra de arte, mais as intenções dela se ausentam. A natureza, indirectamente o conteúdo de verdade da arte, elabora imediatamente o seu contrário. Se a linguagem da natureza é muda, a arte aspira a fazer falar o silêncio, exposta ao insucesso pela contradição insuperável entre esta ideia, que impõe o esforço desesperado, e aquela, a que se aplica o esforço, de um não-intencional puro e simples.»  

 

«A natureza deve a sua beleza ao facto de parecer dizer mais do que é. A ideia da arte é arrancar este mais à sua contingência, torná-lo senhor da sua aparência, determiná-lo a ele mesmo como aparência, e também negá-lo como irreal. O «Mais» fabricado pelo homem não garante em si o conteúdo metafísico da arte. Esta poderia ser um nada absoluto e, no entanto, as obras de arte poderiam pôr esse «Mais» como aparência. Tornam-se obras de arte na elaboração do «Mais»; produzem a sua própria transcendência, sem serem o seu teatro, e, por isso, são novamente separadas da transcendência.»

(Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.95, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

A arte é aparência com um «mais» em relação à aparência que é a natureza - a pintura de uma paisagem de um desfiladeiro atravessado por um rio é algo «mais» que o próprio desfiladeiro e rio. Mas o «mais» não reside unicamente no pormenor da técnica utilizada na "reprodução" ou nas tintas e na tela mas sobretudo na transcendência que consiste na espiritualidade, no núcleo de ideias e sentimentos que delas emana. 

 

 

NOMINALISMO VERSUS UNIVERSALISMO ESTÉTICO

 

 

Sobre o nominalismo estético, isto é, a corrente que sustenta que cada obra de arte é única, singular na sua forma e na sua mensagem, e não se inregra num cânone comum, numa escola, num conceito universal determinado, escreveu Adorno:

 

«O nominalismo estético é um processo na forma, e transforma-se, por seu turno, em forma: também aí o universal e o particular se mediatizam. (...) As formas abertas são as categorias universais dos géneros que buscam o equilíbrio com a crítica nominalista do universal. Esta apoia-se na experiência do fracasso inevitável da unidade do universal e do particular, a que aspiravam as obras de arte. Nenhum universal pré-dado admite em si e sem conflito o particular, que não deriva de um género. » (...)

«A obra de arte nominalista deve tornar-se tal em virtude de se organizar puramente a partir de baixo, em vez de lhe serem impostos os princípios de organização. Mas nenhuma obra de arte cegamente abandonada a si mesma tem em si a força da organização, que lhe traçaria os limites obrigatórios: reconhecer-lhe essa força seria, de facto, feiticismo. O nominalismo estético libertado, como a crítica filosófica de Aristóteles, liquida toda a forma enquanto sobrevivência de um ser-em-si espiritual. Vai desembocar na facticidade literal e esta é inconcilável com a arte. Poder-se-ia mostrar, num artista de nível formal como Mozart, como as suas obras mais audaciosas na forma e, portanto, mais autênticas, se aproximam da decomposição nominalista. O carácter da obra de arte enquanto artefacto é incompatível com o postulado da obra repoisando puramente em si. Ao serem feitas, as obras de arte recebem ao mesmo tempo em si aquele momento do organizado, do "governado", que é insuportável à sensibilidade nominalista»( Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.248, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

É discutível a tese de Adorno segundo a qual «nenhuma obra de arte cegamente abandonada a si mesma tem em si a força da organização, que lhe traçaria os limites obrigatórios: reconhecer-lhe essa força seria, de facto, feiticismo.» Nominalismo não implica incapacidade de auto-organização ou mesmo ausência de necessidade (determinismo) na vida de um objecto singular: implica, apenas, impossibilidade de universalizar esse objecto singular, de o subsumir como membro de uma espécie ou género determinados ( do tipo:«Este quadro é uma obra da espécie de arte barroca»). De qualquer modo, segundo Adorno, o nominalismo, isto é, a tendência para a singularização da obra de arte, libertando-a de cânones de escola, tem vindo a acentuar-se ao longo da história.

 

Na luta entre o universalismo e o nominalismo como princípios formadores da obra de arte, Adorno parece adoptar uma posição de síntese, como se a obra de arte nascesse simultaneamente do acidente singular (nominalismo) e da essência universal (universalismo):

 

«O principium individuationis na arte, o seu nominalismo imanente, é uma especificação, não um estado de coisas prévio. Ela não favorece apenas a particularização e, assim, a elaboração completa e radical das obras individuais. (...) A relação do particular e do universal não é tão simples como o sugere a tendência nominalista, nem tão trivial como a doutrina da estética tradicional de que o universal deveria particularizar-se. A exacta disjunção entre nominalismo e universalismo não é válida.»  (Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.227, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

MOMENTO CONSTRUTIVO VERSUS MOMENTO MIMÉTICO

 

Adorno opõe o construtivismo - entendido não em sentido particular, como corrente de arte abstracta russa nascida em inícios do século XX, mas sim no sentido geral  de transfiguração do real, reconstruindo-o como mundo simbólico, supranatural ou antinatural; por exemplo, correntes como o surrealismo, o cubismo, o abstracionismo - ao realismo - a mimesis ou imitação da realidade exterior.

 

«Se, mediante a luz do flash, o mundo habitual deve ser desmascarado como aparência e ilusão, passou-se já teleologicamente para o não-figurativo. O construtivismo, contraparte oficial do realismo, tem, através da linguagem do desencantamento, um paralelismo mais profundo com as transformações históricas da realidade do que um realismo coberto desde há muito com um verniz romântico, porque o seu princípio, a reconciliação ilusória com o objecto, se tornou entretanto romantismo. Os impulsos do construtivismo foram, quanto ao conteúdo, os da adequação, por problemática que fosse, da arte ao mundo desencantado, que era impossível realizar sem academismo no plano estético, com os meios realistas tradicionais. Tudo o que hoje pode chamar-se informal só se torna verdadeiramente estético ao articular-se em forma; de outro modo, seria apenas documento. Em artistas exemplares desta época, como Schömberg, Klee e Picasso, o momento expressivo mimético e o momento da construção encontram-se com igual intensidade, não no meio medíocre da transição, mas na tendência para os extremos: mas ambos são, ao mesmo tempo e quanto ao conteúdo, a expressão, a negatividade do sofrimento e, a construção, a tentativa de resistir ao sofrimento da alienação, enquanto que esta é ultrapassada no horizonte de uma racionalidade ilimitada e, portanto, não mais violenta.» (W. Adorno, Teoria Estética, pag 287, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ao sustentar que «tudo o que hoje pode chamar-se informal só se torna verdadeiramente estético ao articular-se em forma», Adorno está a afirmar que a faculdade estética no ser humano é a capacidade de fruir o belo através das formas. Na verdade o Belo arquetípico de Platão, forma pura transcendente a todas as formas ainda seria "informal" porque demasiado abstracto e só plasmando-se nesta ou naquela forma material se daria a conhecer.

 

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:05
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