Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Teste de filosofia 11º ano de escolaridade em Portugal (meio do segundo período letivo)

 

Vejamos um teste de filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal, suscetível de ser dado a meio do segundo período letivo, no modelo que preconizo para suscitar alunos cultos e criativos, .

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

 Fevereiro de 2012        Professor: Francisco Queiroz       

 

I

 

« Ninguém pode pretender, com razão, conhecer alguma coisa da causa transcendental das nossas representações do sentido externo…(Kant , Crítica da Razão Pura»)

 

1-I)      Explique a frase do texto acima.

 

2-I)      Explique, segundo a gnosiologia de Kant, onde e como se forma o fenómeno árvore, as cores verde e castanha da árvore e o juízo «A árvore é muito antiga».

 

3-I)      Explique a relação entre fenómeno e númeno, e, entre ambos, por um lado, e a sensibilidade, o entendimento e a razão, por outro lado.

 

II

 

«Não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções. Uma substância é inteiramente diferente de uma percepção. Não temos pois nenhuma ideia de substância. A inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária como suporte das nossas percepções. Nada parece necessário para servir de suporte à existência de uma percepção.» David Hume (Tratado do Entendimento Humano, pag 280)

 

 

 

2-1) Explique este texto reportando-o a realismo ontológico, idealismo ontológico, ceticismo, empirismo, racionalismo. Segundo este texto de Hume, parece-lhe que o empirismo conduz necessariamente ao realismo ontológico?  Justifique.

 

 

 

2-2)  A posição de Hume sobre inerência e substância é a mesma de Kant? Justifique.

 

III

 

3)Relacione, justificando:

 

 

 

3-1-           O ser-aí em Heidegger e as três fases da Ideia absoluta em Hegel, uma das quais  corresponde  àquele.

 

 

3-2-           Idealismo transcendental em Kant, e o idealismo volitivo de Schopenhauer e ideal-realismo em Hegel.

 

 

3-3-           Metafísica, categorias em Kant e sete relações filosóficas em Hume.

 

 

 

 

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO EM 20 VALORES NO TOTAL)

 I

 

I-1) Ninguém pode conhecer nada da causa transcendental - isto é, a priori - das nossas representações do sentido externo, isto é, dos objetos que vemos e tocamos no espaço, que é o sentido externo, porque essa causa é o númeno, o objeto real, incognoscível, exterior, em princípio, ao espírito humano composto de sensibilidade, entendimento e razão (VALE DOIS VALORES).

 

I- 2) O fenómeno árvore forma-se na sensibilidade, segundo Kant,  e do seguinte modo: os númenos ou objetos metafísicos transcendentes ao espírito humano afetam a sensibilidade, fazendo nascer nesta um caos de sensações, e as formas a priori da sensibilidade, o espaço (figuras geométricas, extensão) e o tempo, vão moldar esse caos material dando-lhe a forma de uma árvore (fenómeno). Esta última está fora do nosso corpo físico mas dentro da nossa sensibilidade e as cores verde e castanha da árvore não pertencem a esta mas ao modo de o eu percepcionar o fenómeno. Assim, se a árvore é ilusória - idealismo kantiano: a árvore não é uma coisa em si, desaparece se morrermos - as cores da árvore são duplamente ilusórias. O juízo «a árvore é muito antiga» forma-se no entendimento a partir da tábua dos juízos puros que são proposições vazias dotadas de certas formas e da tábua das categorias ou conceitos puros. Em primeiro lugar, as imagens do fenómeno árvore ascendem da sensibilidade, através da imaginação e são reduzidas à unidade pela categirias de unidade, pluralidade, causa-efeito, etc: forma-se o conceito de árvore. E as imagens de árvores muito antigas são igualmente enviadas ao entendimento e são transformadas no conceito empírico «árvore antiga». Aplica-se a tábua dos juízos a estes dois conceitos ligando-os através do verbo ser e surge o juízo empírico:«A árvore é muito antiga.» (VALE TRÊS VALORES).

 

I- 3)  O fenómeno é o objeto visível e palpável que nasce na sensibilidade por duas causas: uma externa, o númeno ou objeto metafísico, real e incognoscível (Deus, mundo como totalidade, etc) que afeta de fora a sensibilidade, fazendo nascer nesta o caos da matéria: outra, interna, as formas a priori do espaço (figuras, extensão) e do tempo que dão a forma ao fenómeno. (Não me refiro aqui ao númeno possivelmente interior ao espírito humano, mas impenetrável, que seria alma imortal do sujeito cognoscente).

 O entendimento não sente mas pensa o fenómeno e atribui-lhe unidade, necessidade, mas não pensa o númeno: o entendimento é a inteligência concreta virada para o campo da experiência. A razão desconhece os fenómenos e os conceitos empíricos do entendimento, pensa apenas os númenos que desconhece e que estão fora dela e do espirito humano. É a faculdade metafísica e filosófica por excelência. (VALE TRÊS VALORES)

 

2-1) Ao dizer "não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções"  Hume revela-se empirista (as perceções sensoriais são a fonte dos conhecimentos) e ao acrescentar "não temos pois nenhuma ideia de substância" Hume situa-se ou como cético (teoria que, em certa modalidade, duvida da existência da matéria) ou como idealista (teoria que afirma que o mundo material está na nossa mente, não existe fora desta). Ao dizer a "inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária como suporte das nossas perceções" Hume parece estar a criticar o racionalismo (doutrina que diz que as nossas ideias fundamentais são construídas pela razão, desprezando os dados da experiência) porque este, em regra, supõe que o acidente ou traço fortuito, ocasional, repousa sobre uma base sólida, a substância. Hume rejeita pois o realismo, doutrina da existência de um mundo material fora das mentes humanas. (VALE TRÊS VALORES)

 

2-2) Em Kant a inerência e subsistência é uma categoria, ou seja, uma forma a priori do entendimento: substância e acidente, por assim dizer, o castiçal (subsistência) que suporta a vela (inerência) e a vela nesse inserida, . As categorias são anteriores`a experiência, são a priori. Em Hume, a inerência parece não existir: « Nada parece ser necessário para servir de suporte à existência de uma perceção». Portanto, Kant e Hume sustentam posições diferentes nesta matéria. (VALE UM VALOR)

 

3-1) O ser-aí, na teoria de Heidegger, é cada homem, na sua situação, na sua verdade íntima e peculiar. Liga-se à terceira fase da teoria da ideia absoluta de Hegel. Segundo este, o motor da história universal é a ideia absoluta ou Deus que atravessa três fases: a do Ser em si, ou Deus sozinho como espírito, antes de criar o espaço, o tempo e o universo; a do Ser fora de si, ou Deus alienado em natureza física, mineral, vegetal ou animal; a do Ser para si, que começa com o surgimento da humanidade que é Deus incarnado voltando a si, à fase do espírito puro. Esta última fase é a do ser aí (Dasein) ou cada homem na sua circunstância. (VALE TRÊS VALORES)

 

3-2) Idealismo transcendental em Kant: a matéria é mera representação no sentido externo ou espaço, a sua causa remota é o númeno ou objeto metafísico, o espaço e o tempo são transcendentais ou a priori, estão inerentes ao sujeito. Idealismo volitivo em Schopenhauer: é bastante semelhante ao de Kant, a matéria é irreal, representação no sentido externo mas a causa da matéria é a vontade inconsciente do sujeito ou da espécie humana. Ideal-realismo em Hegel:o mundo material existe fora das mentes humanas mas as formas da natureza são ideias da Mente Divina. (VALE DOIS VALORES).

 

3-3) Metafísica é a região dos entes ou supostos entes invisíveis, impalpáveis, além da experiência física e sensorial. As sete relações em David Hume sao uma espécie de categorias ou formas que organizam a experiência tal como as doze categorias ou conceitos puros de Kant, ainda que as primeiras não possam existir fora dos atos e circunstâncias concretas.

Em Kant, as categorias são os moldes vazios dos conceitos empíricos, que sintetizam os dados recebidos da sensibilidade (experiência) e interpretam estes. São doze: unidade, pluralidade, totalidade; realidade, negação, limitação; inerência e subsistência (substância e acidente), causalidade e dependência (causa e efeito), comunidade (ação recíproca entre o agente e o paciente); possibilidade-impossibilidade, existência- não existência, necessidade-contingência.

Em Hume, as sete relações filosóficas são: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação.  Há algumas equivalências óbvias: a causação (causalidade determinista) em Hume equivale à necessidade em Kant; a unidade e a pluralidade em Kant equivalem à proporção de quantidade ou número, em Hume (VALE TRÊS VALORES).  

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:05
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