Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Heidegger inverteu o conceito tradicional de fenómeno

 

Heidegger inverteu o sentido tradicional da palavra fenómeno (phainomenon= o que aparece, o visível, audível e palpável, em grego).  :

 

« O conceito fenomenológico de fenómeno entende por "o que se mostra" o ser dos entes, o seu sentido, suas modificações e derivados. E o mostrar-se não é um mostrar qualquer, nem muito menos o que se diz "aparecer". O ser dos entes é o que menos pode ser algo atrás do qual esteja algo que não apareça.»

«"Atrás" dos fenómenos da fenomenologia, não está essencialmente nenhuma coisa, mas sim, pode estar, oculto o que pode tornar-se fenómeno. E precisamente porque os fenómenos não estão dados imediata e regularmente, é necessária a fenomenologia. Encobrimento é o conceito contrário de "fenómeno". 

«A forma na qual os fenómenos podem estar encobertos é variada. Em primeira instância, pode estar encoberto um fenómeno no sentido de estar ainda não descoberto. (...)»

«"Fenoménico" chama-se ao que se dá e é explanável na forma peculiar de enfrentar o fenómeno, daqui o falar-se de estruturas fenoménicas. "Fenomenológico" diz-se de tudo o que entra na forma de mostrar e explanar e o que constitui os conceitos requeridos nesta disciplina.»

« Fenómeno em sentido fenomenológico é só aquilo que é ser, mas ser é sempre ser de um ente: daqui que quando se visa libertar o ser, seja necessário fazer comparecer o ente na forma apropriada.» (Martin Heidegger, El Ser y el tiempo, páginas 46-47)

 

 

Kant já havia distinguido fenónemo de aparência - exemplo: o vinho é um fenómeno, mas a cor e o sabor do vinho são aparências - de tal modo que se poderia dizer que o fenómeno é um objeto ilusório ou semi-real, acidental, algo inaparente. Se em Kant o fenómeno é "o objeto indeterminado de uma intuição empírica" e se situa na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, em Heidegger o fenómeno - não falamos do fenómeno psíquico mas dos fenómenos janela, casa, Estado, etc - situa-se no mundo, fronteira do eu com os objetos reais - «janela» entre o eu e os objetos exteriores, já que o cão e a abelha não têm mundo, só o homem possui mundo - ou é o conjunto de objetos intemporais e transmundanos equivalentes aos númenos em Kant e aos arquétipos em Platão.

 

A inversão do conceito tradicional de fenómeno feita por Heidegger é paralela a outras inversões terminológicas operadas por este pensador alemão : com Heidegger, existência deixa de ser o ato ontológico (o estar, a presença indeterminada) de qualquer essência e passa a ser a essência de cada ente, a forma fundamental, o ser plasmado no ente determinado. Heidegger quis notabilizar-se mudando, se não as regras do jogo do pensar filosófico, ao menos as fichas, a terminologia. Estava no direito de o fazer. Mas não foi transparente ao explicar estas mudanças terminológicas e isso rendeu-lhe uma aura suplementar de veneração junto do público que gosta do que é misterioso e admira o que não entende.  

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:14
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