Domingo, 6 de Novembro de 2011
Sobre a imobilidade das formas, da ciência e das afecções, em Aristóteles

Aristóteles era infinitamente mais inteligente e criativo em filosofia do que Simon Blackburn, Thomas Nagel ou Paul Ricoeur. A obra de Aristóteles, em particular a Física e a Metafísica, supera de longe a obra destes três filósofos do século XX e da generalidade dos académicos. Aristóteles é mesmo superior a Heidegger: a teoria do Estagirita sobre o tempo exposta na Física em nada fica atrás, em profundidade, da teoria do alemão pró nazi autor de "Ser e tempo". Só os defensores da falácia da modernidade afirmam que «Aristóteles viveu há 2350 anos, logo as suas ideias estão ultrapassadas, refutadas e superadas por grandes filósofos que vieram depois dele e pelos académicos de hoje, em geral». Há ideias imortais e fundamentais em filosofia que se pensaram há 2300 ou há 3000 anos e que continuam válidas, imunes a qualquer revisionismo. Isto não obsta a que se detectem erros antidialéticos na Física e na Metafísica do filósofo que foi um grande pensador dialético.

 

Escreveu o Estagirita:

 

«Quanto às formas, às afecções e ao lugar para o qual são movidas as coisas em movimento, estes são imóveis, como a ciência e o calor. Coloca-se-nos o problema de se as afecções são movimentos (como a brancura, que é uma afecção) porque se o fossem seriam uma mudança em direcção a um movimento. Mas talvez a brancura não seja um movimento, mas sim o chegar a ser branco. E também nestes casos o movimento pode ser. 1) por acidente, ou 2) segundo uma parte ou outra coisa, ou 3) primariamente, não segundo outra coisa; por exemplo, o que está embranquecendo muda por acidente ao ser pensado (pois o facto de ser pensado é um acidente para a cor), muda segundo uma parte em direção à cor, e muda em relação à Europa, enquanto Atenas é parte da Europa, mas muda por si em direcção à cor branca.» (Aristóteles, Física, Livro V, 224 b, 10-25; o negrito é posto por mim).

 

Praticamente qualquer parágrafo da Física ou da Metafísica de Aristóteles possui uma carga complexa de pensamento que importa meditar. O que Aristóteles afirma é que as formas - as essências eternas (eidos) não a forma transitória (morfé) misturada com a matéria - não se movem. É completamente platónico, embora recuse um lugar para as formas, um mundo inteligível. Assim o cavalo eterno é imóvel mas os cavalos reais que pastam neste prado engordam ou emagrecem, movem-se e desaparecem. E as afecções ou qualidades recebidas como o calor, a cor, a nota musical são também imóveis - não o calor que está nesta mão e que se extingue ao mergulhá-la em água gelada.

 

Ao dizer que o facto de se pensar a cor branca é um acidente para a cor branca Aristóteles adopta a posição realista da exterioridade das coisas face ao pensamento humano. E faz-nos pensar a sua afirmação de que a ciência é imóvel, opondo-se, com grande antecipação, a Popper, a Thomas Khun e a outros epistemólogos do construtivismo e do revisionismo científico. A ciência está imóvel, diz Aristóteles. O que se move é o nosso modo de chegar até ela.

 

  

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:12
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