Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Equívocos de Orlando Vitorino sobre a relação pensamento-conhecimento

Orlando Vitorino, (1922- 14 de Dezembro de 2003), filósofo português discípulo de Álvaro Ribeiro e José Marinho,  escreveu:

 

«Uma abissal, mas significativa divergência, assim se observa: na filosofia clássica, representada por Aristóteles, o pensamento precede o conhecimento, que dele resulta; na filosofia moderna, representada por Kant, o conhecimento é anterior ao pensamento e constitui seu conteúdo e objecto.» (Orlando Vitorino, Exaltação da filosofia derrotada, pag 86, Guimarães Editores; o negrito é posto por mim).

 

Parece haver um certo magma de confusão neste pensamento de Orlando Vitorino. Só os sensistas ou sensacionistas defendem que o conhecimento (empírico) é anterior ao pensamento. Ora, Kant não é um sensacionista: para ele, as sensações não fornecem, por si sós, conhecimento, precisam de ser elevadas, via imaginação ao intelecto que delas forma os conceitos empíricos. Por exemplo, é a partir da percepção empírica do fenómeno cavalo, obtida na sensibilidade, que o entendimento constrói o conceito empírico de cavalo.

 

Como é possível afirmar que, em Kant, o conhecimento é anterior ao pensamento? É um absurdo. Kant não é um empirista mas um empiro-racionalista. Kant admite o conhecimento a priori mas este é sempre um pensamento, um juízo, não há conhecimento anterior a pensamento. O conhecimento inicia-se com a experiência, mas em conjugação com o intelecto a priori. O conhecimento é pensamento a priori ou é pensamento a posteriori vitalizado pelas sensações:

 

«Se porém todo o conhecimento se inicia com a experiência, isso não prova que todo ele derive da experiência. (...) uma questão ... vem a ser esta: se haverá um conhecimento assim, independente da experiência e de todas as impressões dos sentidos. Denomina-se a priori esse conhecimento e distingue-se do empírico, cuja origem é a posteriori, ou seja, na experiência.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 37,  Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é colocado por mim).

 

«Podemos, contudo, reduzir a juízos todas as acções do entendimento, de tal modo que o entendimento em geral pode ser representado como uma faculdade de julgar. Porque, consoante ficou dito, é uma capacidade de pensar . Ora pensar é conhecer por conceitos.»(Kant, ibid, Livro I, 1ª Secção,pag 103)

 

 

E Aristóteles não faz o pensamento anteceder o conhecimento: são simultâneos. Ainda que pudessemos admitir que o raciocínio (um pensamento) antecede por milésimas de segundo, o conhecimento, não podemos esquecer a intuição noética, o pensamento instantâneo que nos fornece as essências ou formas eternas:

 

«A ciência é conhecimento racional e, por sua vez, o conhecimento racional dá a conhecer a coisa e a sua privação» (Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1046 b, 5-10).

 

«Assim, pois, a respeito das coisas que são uma essência, e que são actos, não é possível errar, mas antes captá-las ou não». (Aristóteles, ibid, Livro IX, 1051 b, 30-35).

 

Ora a captação de uma essência é simultamente pensar e conhecer. Não há um pensar anterior ao conhecimento, em Aristóteles, se excetuarmos Deus que pensa sobre si mesmo e desconhece o cosmos. As formas eternas não são um pensamento vivo nem são matéria, porque o pensamento é acto de uma inteligência, divina, astral ou humana. São as ideias não pensantes, as formas inteligíveis mas não inteligentes, o pensamento não humano, por assim dizer, congelado, fixo. As essências de cavalo e montanha subsistirão mesmo que não haja nenhum homem para as apreender ou conceber.

 

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 14:17
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