Sábado, 12 de Maio de 2012
Incoerências no livro «Preparação para o exame nacional 2012, Filosofia, 11» da Porto Editora - ou como os inimigos da filosofia se introduzem no castelo do pensar

 

A Porto Editora lançou um livro de preparação para o restaurado exame nacional de filosofia do 11º ano, que terá lugar em 20 de Junho de 2012, em Portugal. A autoria do dito livro permanece anónima: os autores, talvez prevendo a crítica que revele as suas inconsistências teóricas, resolveram não dar a cara. E a Porto Editora factura, vendendo dezenas de milhares de exemplares - a 29,90 euros cada um, ao grande público - de um manual que apresenta consideráveis erros em filosofia, os erros típicos da chamada «filosofia analítica» que, de forma galopante, ocupa lugares de cátedra em muitas universidades e junto de editores, produtores de televisão e gabinetes influentes em ministérios da educação. Professores e autores de manuais de filosofia analítica são, em regra, verdadeiros cavalos de Tróia da sofística, da (anti) filosofia da linguagem, que invadiram a cidade do pensamento, mutilando e deformando este. Vejamos alguns das centenas de erros e equívocos em que este livro flutua pantanosamente. 

 

 

 

O UTILITARISMO NÃO É UM CONSEQUENCIALISMO, MAS UM ACTUALISMO

 

« O utilitarismo é uma teoria ética consequencialista, pois considera que são as consequências da acção que determinam se esta é moralmente correcta». (autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 51). 

 

Esta é  uma definição um pouco idiota. O erro desta definição está em confundir o teor da acção (o acto) com as consequências (a potência). O utilitarismo não é consequencialista mas sim actualista: o que conta é agir e o resultado instantâneo, não a consequência. Exemplo: um presidente de uma câmara municipal, sabendo que não há verbas para pagar aos funcionários camarários, desloca verbas afectas a outra rubrica que não de pagamentos de salários e paga de imediato os salários do mês em curso. A consequência imediata deste acto ilegal é os trabalhadores verem o seu sustento assegurado e a consequência mediata, a curto ou médio prazo, é serem obrigados a devolver o dinheiro e o presidente da câmara ser julgado em tribunal. Vemos, pois, que o termo «consequência» é ambíguo: o acto utilitarista do presidente da câmara não foi, verdadeiramente, consequencialista, limitou-se a assegurar a maior felicidade a muitos naquele momento.

  

Por que razão Stuart Mill não definiu a sua doutrina como consequencialismo? Porque era mais inteligente que Simon Blackburn, Peter Singer, Desidério Murcho: consequência é mais do que resultado imediato da acção e Mill centra-se neste. As consequências a médio e longo prazo são, com frequência, contrárias ao utilitarismo. Por isso é equívoco, parcialmente erróneo, definir o utilitarismo como um consequencialismo quando é, sobretudo, um instantaneísmo actual ou actualismo.

Imaginemos uma orgia sexual envolvendo 30 pessoas adultas e livres organizada por um casal na sua vivenda de férias: é um acto hedonista, utilitarista visto que satisfaz o prazer de uma maioria ou de todos os envolvidos, no momento (actualismo) mas não é consequencialista uma vez que não há distribuição de preservativos e não prevê as consequências deste acto do qual alguns dos participantes sairão infectados por HIV ou outros males venéreos.

 

UMA ERRÓNEA CONCEPÇÃO DO UTILITARISMO: SOBREVALORIZAR O RESULTADO, ESVAZIAR A INTENÇÃO (DEONTOLOGIA)

 

Escrevem ainda os anónimos autores deste livro:

 

«CRÍTICAS AO UTILITARISMO:

Objeção do criminoso azarento: se aceitarmos o utilitarismo, alguém claramente mal-intencionado terá agido correctamente ao ter o azar de a sua acção correr mal e tiver consequências benéficas que não foram por si desejadas, e o mesmo para alguém bem-intencionado cuja acção, contra o previsto, gera apenas sofrimento.» (ibid, pag 51).

 

Este é o modelo de raciocínio de autores da "filosofia analítica": isolam aspectos do mesmo fenómeno, neste caso, o resultado e a intenção, e sobrevalorizam o primeiro apagando o segundo. Ora isto não é o utilitarismo de Mill. Este considera a acção eticamente correcta aquela que une um resultado favorável à felicidade de uma maioria, com uma recta intenção. É deontológico. É a deontologia das maiorias ao passo que a moral de Kant é a deontologia da universalidade humana e do seu contrário, o indivíduo singular.

 

Um terrorista que ia fazer explodir uma bomba numa esplanada de restaurante onde estão 100 pessoas mas que morre, ao explodir a bomba involuntariamente num local isolado, sem causar vítimas,  não cometeu um acto bom, segundo o utilitarismo de Mill. Agiu com dolo ainda que o acaso ou o destino lhe tenham trocado as voltas - mas os autores deste manual sustentam que, segundo Mill, o terrorista cometeu acto benéfico porque menosprezam o peso da intenção no acto moral utilitarista.

 

POR QUE RAZÃO A POSIÇÃO ORIGINAL, SEGUNDO JOHN RAWLS, IMPEDIRIA A NEGOCIAÇÃO?

 

 

Sobre a teoria de John Rawls, escreve-se o seguinte:

 

«CRÍTICAS À TEORIA DE RAWLS:

- Críticas ao acordo sobre os princípios:

. Um acordo implica negociação: na posição original não pode haver genuína negociação. (ibid, pag 53)

 

Porquê? Claro que pode. A posição original é aquela em que, numa assembleia ideal de todos os cidadãos de um país ou região, cada um exprime as suas ideias na moldagem das leis, sem conhecer a posição social e económica dos outros cidadãos, de modo a que não haja constrangimentos. Isto não impede a negociação genuína: se, por exemplo, 500 000 cidadãos sustentam que a lei deve autorizar o aborto voluntário na mulher até às 12 semanas de gravidez e 400 000 cidadãos estão contra, é possível negociar uma lei que seja resultante das vontades opostas, por hipótese, acordarem a permissão do aborto clínico até 8 semanas após o início da gravidez.

 

 

UMA DEFINIÇÃO UNILATERAL DE OBJECTIVISMO

 

É deste modo que o manual define objectivismo:

 

«O objectivismo (quanto aos valores, ou axiológico) é a teoria de segunda ordem que defende que os valores são propriedades objectivas do mundo, independentes das valorações efetivamente realizadas por indivíduos e culturas. Há, portanto, juízos de valor objectivamente verdadeiros e falsos (são, na verdade, juízos de facto).» (autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 34; o destaque a negrito é posto por mim). 

 

Esta definição é parcialmente errónea. Há um objectivismo intra anima (dentro da alma) que sustenta que os valores são os mesmos para todas as pessoas, embora não estejam plasmados nos objectos e ações e não existam no mundo exterior: é o objectivismo irrealista. Exemplo: é objectivismo ético considerar que «é má prática a profanação de cemitérios»  e que «violar uma criança é crime». Este objectivismo reside na comunidade de valoração, não está fora desta. Poder-se-ia designá-lo como intersubjectivismo generalizado.

Há um objectivismo extra anima (fora da alma) que diz que os valores de bem e mal são os mesmos para toda a gente e residem nos objectos e actos exteriorizados. Exemplo: o veneno da serpente é um valor de coisa mau, a explosão de uma bomba matando civis inocentes é um acto mau, etc.

 

Esta distinção não é feita na filosofia analítica. É paradoxal: os analíticos carecem de poder de análise, são incapazes de perceber os dois sentidos do termo «objectivismo» ao passo que os dialéticos, como eu, que sou ideomaterialista dialético e não materialista dialético, vão muito mais longe em precisão de conceitos. Dialética é, dito de forma sintética, «um divide-se em dois, que lutam entre si». Nós, dialéticos, somos muito superiores em rigor de pensamento aos analíticos que atomizam o pensamento, perdendo de vista a unidade das diferentes determinações e o devir destas.

 

A confusão sobre o conceito de objectivismo é patente no seguinte exercício do manual:

 

Exercício 1

Selecione a alternativa correcta.

 

1. A distinção entre juízo de facto e juízo de valor não é óbvia, porque para o objectivismo...

 

«A. os juízos de valor são juízos de facto.

 B. os juízos de valor não são juízos de facto.

 C. .os juízos de valor exprimem apreciações.

 D. os juízos de valor descrevem estados de coisas.»  

 

(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 168). 

A resposta que o manual aponta como certa é  B: «os juízos de valor não são juízos de facto.» (ibid, pag 216)

 

Trata-se de miopia teórica dos autores do manual: admito que a resposta 1-B esteja correcta mas também a 1-C e a 1-D estão. Não é verdade que os objectivistas consideram que «os juízos de valor exprimem apreciações» e que «os juízos de valor descrevem estados de coisas» ?. É. Portanto, não há uma mas três respostas correctas. Logo, o exercício está mal concebido. Serão estes autores escolhidos pelo GAVE para elaborar o exame nacional de filosofia? Oremos aos deuses para que não sejam... Seria grave se fossem as mesmas pessoas a fazer este manual e a prova de exame- seria um sinal de promiscuidade ilícita entre o Estado e uma editora privada. Podemos estar certos que não são os mesmos? Será por isso que os autores se ocultaram no anonimato?

 

 

UMA DEFINIÇÃO CONFUSA DE DETERMINISMO

 

«A tese que aparentemente se lhe opõe, o determinismo, é especialmente interessante se for tomada como uma tese universal ou radical, no sentido de defender que toda e qualquer ação (e decisão) (autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 34; o destaque a negrito é posto por mim). 

 

Ora o indeterminismo biofísico - exemplos: a variação descontrolada da metereologia, gerando, por exemplo, um dia de queda de granizo em pleno verão, uma cadeira levantar-se sozinha do solo e flutuar minutos no ar, contrariando a gravidade terrestre - também se opõe ao livre-arbítrio. Mas, segundo a lógica dos autores do manual, tudo o que se opõe ao livre-arbítrio se designa por "determinismo"... Assim este conceito resulta interpretado como uma amálgama, de leis da natureza, excepções e acaso. A filosofia analítica, longe do mundo das ciências empírico-formais, não define, invariavelmente, o determinismo como a conexão necessária entre as causas X e os efeitos Y. Afasta-se desta definição para dizer que determinismo é a conexão passado-presente-futuro. Ora isto é um erro: a conexão passado-presente-futuro tem quase tanto de determinista como de indeterminista para as filosofias que conferem um papel de destaque ao acaso, isto é, ao factor indetermista.

 

O que há de necessário, determinista, na conexão passado-presente-futuro é o fluxo do tempo, a constância geológica e geográfica, as leis permanentes da natureza (as leis gerais da vida das aves, dos mamíferos, dos seres humanos, etc): o ano de 1925, sucede ao de 1924, este ao de 1923... Decerto, há determinismo no princípio da identidade: o território de Portugal continente é em 2012 o mesmo que em 1950 e em 1870. Mas há na conexão passado-presente-futuro uma boa dose de indeterminismo aparente:  o acidente nuclear na Ucrânia em Abril de 1986, a instalação de uma fábrica poluente na região X, a queda do regime líbio de Kadhafi em 2011, a revolução na Síria em 2012, a generalização do uso de piercings e telemóveis entre os adolescentes na primeira década do século XXI, etc.

 

A EQUÍVOCA DIVISÃO COMPATIBILISMO VERSUS LIBERTISMO E DETERMINISMO RADICAL

 

 

Mas a incapacidade dialética - e por dialética entenda-se, não o discurso sofístico, mas a determinação das múltiplas unidades de dois contrários que constituem a essência de cada coisa ou de cada tema do pensamento- dos autores deste manual e dos filósofos analíticos em geral é visível. Por exemplo, a seguinte divisão:

 

«2.2.5 Compatibilismo e incompatibilismo

 

Face ao problema em discussão, podemos adotar uma de duas posições filosóficas:

 

1. Incompatibilismo: o determinismo implica a rejeição do livre-arbítrio.

2. Compatibilismo: determinismo e livre-arbítrio são compatíveis.

 

O incompatibilismo admite, por sua vez, duas versões:

 

1.1 Determinismo radical: o determinismo é verdadeiro e o livre-arbítrio é uma ilusão.

1.2 Libertismo: temos livre-arbítrio, e assim, o determinismo é falso porque pelo menos alguns acontecimentos (incluindo as ações ou apenas elas) não são determinados. »

(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 26; o destaque a negrito é posto por mim). 

 

Ora aqui existe uma confusão gritante: o libertismo, que implica livre-arbítrio ao lado de determinismo, é denominado uma forma de incompatibilismo mas é o mesmo que o compatibilismo, que implica livre-arbítrio ao lado do determinismo. No entanto, são apresentados como se fossem coisas distintas! Mas não são: do modo como estão definidos, libertismo é o mesmo que compatibilismo ou determinismo moderado, ´lembrando a frase de Heraclito «o caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo».

 

Só esta confusão, de que são cúmplices e fautores filósofos como Thomas Nagel, Peter Singer,  Simon Blackburn, e muitos outros, além dos catedráticos portugueses da filosofia analítica (João Branquinho, Ricardo Santos, etc) mostra como é pobre o campo da filosofia analítica, centrada no estudo da linguagem sem abarcar globalmente o campo dos referentes (extralinguísticos). Eles não pensam! Não visualizam o espaço conceptual, os géneros e as espécies, organizados vertical ou horizontalmente. Não distinguem por exemplo, determinismo radical - prefiro designá-lo como determinismo sem livre-arbítrio - de fatalismo. Decoram, enrolam-se no fetichismo das palavras, sem discernir o significado destas. São intelectualmente medíocres, como é medíocre este manual da Porto Editora e possivelmente - se não se inflectir caminho - será medíocre, no seu teor, o exame nacional de filosofia em Junho de 2012, em Portugal!

 

FALÁCIAS DE MINÚCIAS 

 

 Acerca do estatuto do conhecimento, o delírio (hiper) analítico dos autores chega a conceber respostas escandalosamente anti filosóficas, porque redutoras. Vejamos exemplos:

 

«10. ESTATUTO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO  

Exercício 1.

Selecione a alternativa correta.

 

2. Uma proposição empiricamente verificável é aquela que...

A. é comprovada pela experiência.

B. pode ser comprovada pela experiência.

C. tem de ser comprovada pela experiência.

D. tem que ser refutada pela experiência.(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 34; o destaque a negrito é posto por mim). 

(pag 206)

,

 

A solução indica que a única resposta correcta é a B. É uma falácia por redução, de minúcias: considera-se que poder ser comprovada está certo mas que ser comprovado não...É ridículo: uma proposição empiricamente verificável é aquela que é comprovada pela experiência, como diz a hipótese A; e é aquela que tem de ser comprovada pela experiência, como diz a hipótese C. Logo há três hipóteses de resposta certa: A,B e C. Este tipo de pergunta é perfeitamente arbitrário, é um jogo de linguagem inadmissível para quem pensa verdadeiramente. Algo similar sucede com o seguinte exercício:

 

8. Segundo o critério de demarcação de Popper, uma teoria científica é aquela que...

A. foi refutada pela observação.

B. tem que ser refutada pela observação.

C. pode ser refutada pela observação.

D. pode ser refutável pela observação.

 

(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 207; o destaque a negrito é posto por mim). 

 

A solução aponta como certa a resposta C (ibid, pag 252). É óbvio que a resposta D está igualmente correcta.

 

 

O EMPIRISMO NÃO EXCLUI AS IDEIAS INATAS

 

O manual insiste numa ideia errónea muito disseminada:

 

 

«Os empiristas defendem que todo o conhecimento do mundo é a posteriori. Os racionalistas defendem que algum desse conhecimento é a priori

 

 

 

(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 121). 

 

 

O erro refuta-se do seguinte modo: o empirismo em geral defende que quase todas as nossas ideias derivam directamente das impressões sensoriais ( exemplo: a ideia de oliveira é uma cópia desbotada das oliveiras que vimos) e outras, as ideias mais abstractas, resultam de associações de ideias (exemplo: a ideia de Deus é fruto da associação das ideias complexas de pai, de juíz, de imperador, de super homem, etc); mas, para parte dos empiristas, algumas daquelas impressões podem ser impressões inata ou geneticamente gravadas nos orgãos dos sentidos (Como podemos percepcionar o amarelo se não houver a cor amarela nas nossas fibras ópticas? Como podemos percepcionar o perfume da rosa se não existir, como impressão inata, o cheiro da rosa nas nossas fibras olfactivas?) Só o semelhante reconhece o semelhante.

 

É um equívoco identificar racionalismo com inatismo. Há racionalistas que defendem a teoria da tábua rasa, isto é que nascemos com a mente vazia de conhecimentos. Inatismo é um género que intersecta em parte os géneros empirismo e racionalismo, que mutuamente considerados, são espécies de um género maior.

 

 

DEFICENTE CLASSIFICAÇÃO DAS CORRENTES DA ARTE

 

No capítulo V, A dimensão estética, o manual oferece-nos três correntes sobre a arte : a teoria da arte como imitação, a teoria expressivista e a teoria formalista. E dá as seguintes definições:

 

«5.2.1. A teoria da arte como imitação

«Trata-se da mais antiga teoria da arte, aquela que vigorou durante mais tempo. Ela remonta aos grandes filósofos gregos Platão e Aristóteles, que defenderam que a arte consiste na imitação da natureza, ainda que o tenham feito de forma diferente - no caso do primeiro, como uma acusação à arte. É também conhecida como teoria mimética da arte...» .(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 56). 

 

«5.2.3  A teoria expressivista

«Segundo esta teoria, a que está mais próxima do que a maioria das pessoas ainda actualmente pensa sobre a obra de arte, as obras de arte são veículos de expressão de sentimentos ou de emoções vividas pelos seus autores e, por isso, podem despertá-los naqueles que as contemplam. Trata-se de uma perspectiva que dá extrema importância à parte espiritual da experiência da arte. Ela ficou sobretudo associada ao Romantismo (século XIX), época em que substituiu a teoria da imitação...» (ibid, pag. 57)

 

«5.2.5 A teoria formalista

«A tese de Kant de que a beleza decorre apenas da pura forma de um objecto, e não da sua utilidade, representou uma antecipação da teoria formalista, que se desenvolveu na segunda metade do século XX, destacando-se o inglês Clive Bell.

Segundo esta teoria, o que faz de algo uma obra de arte é o facto de possuir uma forma que pode ser apreciada esteticamente. Assim, o que é artístico numa obra não é a sua capacidade para gerar emoções, mas as relações entre as suas qualidades formais: na pintura, as cores e figuras, e o seu equilíbrio; na poesia, os sons as repetições e cadências de palavras...» (ibid, pag 59)

 

Esta divisão triádica está mal elaborada. Em primeiro lugar, a arte como imitação da natureza não apresenta, neste esquema, um contrário, isto é, a corrente da arte como não imitação, transfiguração da natureza ou desnaturação. Expressivismo não é contrário de imitação da natureza: a exteriorização das emoções do artista (expressivismo) é compatível com a imitação da natureza. Assim, o quadro «Mona Lisa» é simultaneamente imitação da natureza e expressão do olhar subjectivo do pintor Leonardo da Vinci. Imitação (naturalismo) e expressão (subjectivismo) são espécies de géneros diferentes compatíveis entre si.

 

O formalismo, entendido como proporção e medida entre os diversos componentes da obra de arte e característica principal desta, é uma espécie de um terceiro género, compatível com imitação e expressivismo. A falta de conhecimento da dialética faz com que estes autores "analíticos" sejam incapazes de ordenar correctamente os conceitos e perceber com clareza as suas correlações recíprocas. De nada lhes servem os inspectores de circunstâncias e as derivações: não captam o pensamento vivo e multifacetado, a realidade dialética.

 

Os exercícios propostos no manual são, na grande maioria, de estrutura ambígua e resposta confusa ou errónea.

 

5. A dimensão estética

 

Exercício 1

Selecione a alternativa correcta

 

1. Os valores seguintes são estéticos:

    A. beleza, originalidade, utilidade, harmonia.

    B. harmonia, graciosidade, justiça, expressividade.

    C. expressividade, graciosidade, bondade, originalidade.

    D. utilidade, graciosidade, profundidade, intensidade.

 

(autores anónimos, «Preparação para o exame nacional 2012, 11º» Porto Editora, pag. 177). 

 

A única resposta indicada como correcta é a B. É uma visão arbitrária, subjectivista, dos autores deste manual. A resposta A está certa: beleza, originalidade, utilidade e harmonia são valores estéticos. A resposta D está igualmente certa: utilidade, graciosidade, profundidade, intensidade. Se a utilidade não está presente em todas as obras de arte, está em muitas e é um valor estético. Um automóvel clássico, no qual se fizeram modificações estéticas notáveis, é uma obra de arte com utilidade, do mesmo modo que o edifício do museu Guggenheim ou a torre de Belém.  

 

Porquê este tipo de exames com seis ou mais perguntas de escolha múltipla (quatro hipóteses) e resposta única, em muitos casos redutora e errónea? Porque os "analíticos" que produzem os manuais e as orientações dos programas de filosofia temem a especulação, essência da filosofia, a liberdade de interpretação e tentam dar um cunho "científico" ao exame, servil para com as ciências empírico-formais e hermenêuticas, com o que caem na unilateralidade medíocre. Imagem lusa: Desidério Murcho servindo Carlos Fiolhais, o «filósofo» submetido ao «cientista», no blog «de rerum natura», nos jornais, etc. Se Fiolhais disser «A astrologia, mesmo a astrologia histórico-social, é fraude» Murcho diz: «Amén, o cientista falou, ele sabe, a nossa função é a análise lógica da linguagem, nada mais».

 

É a mesma ignorância, o mesmo servilismo que Russell e Witgenstein, fundadores da filosofia analítica, demonstraram face às ciências pragmáticas (medicina alopática, história fragmentária excludente dos vectores planetários como a de Ferdinand Braudel ou José Matoso, etc). A filosofia analítica, que é um simples instrumento da ciência fragmentária, ideológica e tecnológica, que domina o planeta, está neste momento a sequestrar o pensamento das gerações mais jovens, impedindo-as de questionar com toda a liberdade a vida, a tecnociência (por exemplo: a vacinação), os valores e o legado filosófico, fechando-as em «preciosismos» lógicos, desviando os estudantes do estudo de filosofias como o vitalismo, o materialismo dialético, a cabala e a metafísica em geral, e desviando-os do estudo de ciências nascentes como a astrologia histórica ou a sincronicidade ontofonética que cultivo.

 

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
Censura prévia nas IV Jornadas Internacionais de Investigadores de Filosofia do grupo Krisis- Évora: o rosto do fascismo epistemológico e académico

 

O grupo Krisis Évora censurou, num estilo similar ao da Inquisição que outrora teve sede em Évora, uma comunicação diferente do comum  às IV Jornadas Internacionais de Investigadores de Filosofia que terão lugar em meados de Junho de 2012 na Universidade de Évora. Nas faculdades de filosofia contemporâneas não se pode discutir livremente todos os assuntos que requeiram reflexão profunda: há tabus, há constrangimentos ditados ora pela ideologia oficial da faculdade ou do Estado que a financia, ora pelos interesses de carreira do catedrático A ou B que não admite sofrer contestação. O teor do convite à participação nas IV Jornadas foi o seguinte "call for papers":

 

 

Universidade de Évora

 

14, 15 e 16 de Junho de 2012

 

  

            O grupo KRISIS, em colaboração com o Departamento de Filosofia da Universidade de Évora, e o Instituto de Filosofia Prática organiza as IV Jornadas Internacionais de Investigadores de Filosofia, a ter lugar em Évora (Portugal).

 

 

As Jornadas serão estruturadas de acordo com o seguinte tema:

 

– Cartografias da Filosofia para o séc. XXI

 

           

            O objetivo das Jornadas é abrir um espaço onde os investigadores das diversas áreas da filosofia possam interrogar a pertinência dos seus trabalhos de investigação, lançando assim o desafio para uma reflexão acerca do futuro da filosofia e da validade atual das suas diversas formas de manifestação.

           

Para participar é necessário enviar uma proposta de 300 palavras, acompanhada dos dados pessoais (nome, habilitações e instituição), até ao dia 30 de Abril de 2012, dirigido a: krisis.evora 

 

A lista dos trabalhos selecionados será divulgada até ao dia 5 de Maio de 2012.

 

            As comunicações não deverão exceder os 20 minutos de exposição, a que se seguirá um período de discussão. As línguas oficiais do encontro são: português, espanhol, francês, inglês e italiano.

 

            Na expetativa de que venham a juntar-se a esta iniciativa.

 

            Os nossos melhores cumprimentos.

 

 

 

Comissão Organizadora: José Caselas, Miguel Antunes, António Caselas, Irene Pinto Pardelha, Moisés Ferreira, Luizete Dias

Comissão Científica:

Olivier Feron,

Eduardo Pellejero,

Irene Viparelli

 

 

Como investigador de filosofia que sou, candidatei-me às jornadas, enviando, em 25 de Abril de 2012, a seguinte síntese da minha comunicação:

 

 

Astrologia Histórico-Social: uma ciência que inflectirá a trajectória da filosofia                                           
 
por Francisco Limpo Queiroz

 

1.  A teoria das áreas zodiacais.
A astrologia histórico-social está isenta dos equívocos e do misticismo da astrologia tradicional: é o estudo dos factos histórico-sociais mediante o uso das tabelas astronómicas (efemérides), assinalando as posições dos planetas em cada um desses factos. É astronomia histórico-social. Esse estudo detecta impressionantes regularidades, leis planetário-geofísico-sociais. É o regresso da concepção estóica do tempo cíclico, apoiada agora num manancial de dezenas de milhar de factos históricos precisos. Cada signo do Zodíaco – arco de 30º do céu - divide-se em áreas cada uma das quais representa vários países, localidades, entidades políticas e religiosas e outras. Exemplo: a área 10º-11º de Caranguejo (graus 100 e 101 da longitude eclíptica) designa entre outras entidades o Peru. Este conhecimento obtém-se por indução a partir de uma multiplicidade de factos empíricos: em 24 de Maio de 1940, com Vénus em 10º 34´/ 58´ de Caranguejo, um sismo de de magnitude 8,1 Richter sacode o Perú; em 31 de Maio de 1970, com Marte em 10º 5´/ 11º 17´de Caranguejo, um sismo de magnitude 7,8 Richter atinge Ancash, no Perú, provocando 66 794 mortos; em 22 de Abril de 2002, com Júpiter em 9º 34´/ 9º 43´ de Caranguejo, um sismo de magnitude 4,4 Richter gera 1 morto no Perú.
 
2. O mesmo tipo de factos históricos é produzido por vários ciclos planetários simultâneos. Isso explica o carácter probalístico da previsão mas não implica que o fluxo de acontecimentos, ontológico, seja contingente e alterável.

 

3. A predestinação absoluta dos factos sociais e biofísicos, detectável na movimentação dos planetas e a eliminação da noção de livre-arbítrio: uma mudança de paradigma na cartografia da filosofia no século XXI. A filosofia pode zelar pela astrologia histórico-social predestinacionista – necessidade ontológica – do mesmo modo que tem zelado pela lógica e pela necessidade lógica.»

 

Recebi, no dia 1 de Maio de 2012, um e-mail do grupo Krisis /Évora negando-me a possibilidade de participar nas jornadas, de expor em detalhe as teses aqui resumidas. O e-mail diz o seguinte:  

 

«Caro Investigador
 
A Comissão Científica das Jornadas considerou que a sua proposta não se adequa ao espírito destas IV Jornadas, visto que não é consistentemente assumido um enquadramento filosófico que suporte a análise da temática apresentada; não é clara a relação existente entre a proposta e as orientações do call for papers.
 
Cumprimentos
José Caselas»

 

 

É pura sofística a argumentação de José Caselas e do secretariado do Krisis/Évora. Não há um enquadramento filosófico que suporte a análise da temática apresentada? Mas é óbvio que há: o enquadramento é a filosofia/ontologia presdestinacionista, do determinismo absoluto.  Parte-se de factos históricos concretos, verifica-se que factos similares ocorrem segundo posições planetárias similares e infere-se que há determinismo planetário que reduz ou faz mesmo desaparecer o chamado livre-arbítrio. Isto é claro. É uma direção de pesquisa filosófica. A investigação de história segundo a astronomia é, simultaneamente, uma tarefa científica e filosófica e constitui uma direcção fundamental do trabalho filosófico já que esclarece muito sobre o grau de liberdade e determinismo nos fenómenos humanos e biofísicos. Interessa a todos os que buscam a verdade, com seriedade. Se estivesse de boa fé, a "comissão científica" das jornadas - Olivier Feron, Eduardo Pellejero, Irene Viparelli - acolhia com agrado, ou no mínimo, com tolerância, a tese que propus.

 

Sucede que os membros do grupo Krisis, como os professores catedráticos em geral, são ignorantes em matéria de astronomia e conjugação desta com os factos histórico-sociais (astrologia histórico-social) e não suportam a ideia de que nas suas "Jornadas de Investigação" alguém os suplante ou expenda uma ideologia/ciência diametralmente oposta à deles. Recorrem, pois, à censura. Não abrem espaço nenhum à reflexão livre, ao contrário do que proclamam no "call for papers" acima. Não permitem  que se possa expor as teses que os incomodam. Nem 20 minutos podem conceder a quem os confronta teoreticamente. É a pura ditadura da cátedra. A ditadura dos medíocres, arrogantes e sem grandeza de alma e de inteligência.

 

Corrupção nos Departamentos de Filosofia: para salvar prestígios de professores auxiliares e catedráticos, elimina-se o pensamento dissidente. Aqueles que nada sabem sobre as movimentações dos planetas no círculo celeste do Zodíaco e suas implicações causais e filosóficas na vida na Terra censuram quem sabe mais do que eles no assunto, quem tem ideias a apresentar. Eis o ridículo, o grotesco destas coisas chamadas "IV Jornadas Internacionais de Investigadores de Filosofia" e "Departamento de Filosofia da Universidade de Évora".

 

UM FASCISMO EPISTEMOLÓGICO REINANTE NA FILOSOFIA NAS UNIVERSIDADES: A PROIBIÇÃO DE INVESTIGAR E DEBATER AS LEIS ASTRONÓMICO-SOCIAIS (A ASTROLOGIA HISTÓRICA) 

 

Esta é uma realidade de que poucos se dão conta, de tão embrenhados que estão na ilusão de que a instituição universitária da filosofia é a cúpula do saber. Dá-se como verdade indiscutível que «os astros não determinam a vida dos seres humanos, porque estes são livres, racionais e imprevisíveis» e que «é impossível que o movimento dos planetas cause a queda de aviões ou fugas radioactivas em centrais nucleares ou atentados a governantes ou greves operárias nos dias X, Y ou Z, até porque Carl Sagan, Karl Popper e Hubert Reeves declararam que a astrologia é uma impostura, não é e nunca poderá ser ciência». Isto são argumentos de seres impensantes. De seres que nunca investigaram o assunto. Mas tão arraigadas estão estas convicções que originaram um fascismo epistemológico que contamina a totalidade dos filósofos e professores universitários (exceptuo Paul Feyerabend e algum outro): é proibido defender teses na universidade favoráveis à astrologia como ciência da história e nenhum mestrado ou doutoramento se autoriza nesse sentido.

 

Segundo me disseram, há anos numa universidade francesa uma tese de doutoramento sobre a astrologia como ciência foi aprovada por um júri de razão aberta mas rapidamente foi anulada por pressão do colégio universitário porque era heterodoxa. As universidades, em especial nas ciências humanas, são as igrejas laicas de hoje e os professores catedráticos equivalem aos bispos, cardeais e papas do catolicismo de cuja infalibilidade não se pode duvidar. O título de «professor doutor», que Platão e Aristóteles não usavam, equivale ao de «sua eminência» e ao de «sua santidade» que os cardeais e papas usaram e usam. Não há autêntica liberdade de gestação e de expressão do pensamento onde ela deveria existir no mais alto grau: nas faculdades de filosofia, nas universidades. O peso sombrio das togas e dos títulos dos docentes esmaga o livre pensamento, em nome da autoridade. É uma verdadeira idade das trevas, em nome do iluminismo.

 

Sucede que, em Junho de 2001, a editorial Estampa publicou uma obra da minha autoria intitulada «Sincronismos, cabala e graus do Zodíaco» que demonstra com múltiplos factos empíricos, pela primeira vez na história mundial, a existência de significativas correlações entre as posições dos planetas no Zodíaco e a ocorrência de acidentes na aeronáutica, na ferrovia, na indústria, em Portugal, Espanha, EUA, França, etc, a existência de leis planetário-biofísico-sociais. Um livro chave na ciência que, juntamente com outro livro do mesmo autor " Os acidentes em Lisboa na Astronomia-Astrologia, Astrology and accidents in USA" (Publidisa, 2008), fundamentam o determinismo planetário que impera em todos os fenómenos terrestres e celestes.

 

A meu ver, que sou suspeito, embora auto-crítico quanto baste, estes dois livros são muito mais substanciais em saber e mais inovadores do que qualquer tese de doutoramento jamais aprovada nas universidades portuguesas, do que as obras completas de Peter Singer, José Gil, Eduardo Lourenço, Thomas Nagel, Giles Deleuze, Bertrand Russell e outros. Desde a teoria da relatividade de Einstein, esta Astrologia Histórico-Social que os deuses ou o destino ateísta me inspiraram - que  nada tem em comum com a psico e a pseudoastrologia de Paulo Cardoso, Maria Flavia Monsaraz, Luís Resina, Cristina Candeias e outros astrólogos comerciais - é a maior revolução científica na cosmologia e na filosofia.

 

É pena que o editor Estampa, Manso Pinheiro, não tivesse usado a Feira de Frankfurt ou outra para conseguir a tradução e edição do «Sincronismos, cabala e graus do Zodíaco» nos EUA, França ou Grã Bretanha, e é pena que o autor, talvez por alguma inabilidade social, não tenha conseguido expandir o livro noutros países. Consta que um exemplar deste livro está na biblioteca do Congresso dos EUA mas não consta que algum exemplar se encontre nas bibliotecas das universidades portuguesas e brasileiras, nem mesmo nos departamentos de filosofia que, por essência, deveriam acolher o caleidoscópio das teorias especulativas, em particular as heresias científicas. 

 

Para levar a reflexão aos que ignoram a Astrologia Histórico-Social dos meus livros, eis algumas leis astrológicas que a investigação que há décadas levo a cabo, laboriosamente, permitiu decantar ( se alguém duvidar das posições dos planetas nas datas que indico, consulte as Swiss Ephemeris ou outras através do google): 

 

ÁREA 0º-1º DE CARNEIRO:

ISRAEL

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 0º-1º do signo de Carneiro é condição necessária, mas insuficiente, para gerar atentados ou acidentes notáveis em Jerusalém, Israel.

 

Em 9 de Março de 2002, com Vénus em 1º 9´/ 2º 23´ de Carneiro, o suicida palestiniano Fouad Hurani, de 20 anos, explode na cafeteria «Moment» em  Jerusalem perto da casa de Ariel Sharon, gerando 11 mortos e 50 feridos; em 21 de Março de 2002, com Sol em 0º 11´/ 1º 11´ de Carneiro, um atentado executado por um palestiniano suicida em Jerusalém faz 3 mortos; em 29 de Março de 2002, com Mercúrio de 28º 51´ de Peixes a 0º 44´ de Carneiro, a palestiniana suicida Ayat Akhras, de 18 anos de idade, explode a bomba que traz colada ao corpo matando-se  bem como a um guarda israelita e a uma jovem , de 17 anos e ferindo outras 20 pessoas no exterior de um supermercado em Jerusalém.

 

 

ÁREA 13º-15º DO SIGNO DE CARNEIRO:

VÉNUS, SISMO NO IRÃO

 

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 13º-15º do signo de Carneiro é condição necessária, mas insuficiente, para destacar o planeta Vénus e gerar sismos no Irão.

 

Em 26 de Março de 1972, com Mercúrio em 14º 44´/ 11´ de Carneiro, é lançada em direcção a Vénus a sonda soviética Venera 8; em 8 de Junho de 1975, com Marte em 13º 10´/ 55´ de Carneiro, é lançada em direcção a Vénus a sonda soviética Venera 9.

 

Em 6 de Maio de 1930, com Urano em 13º 13´/ 16´ de Carneiro, um sismo no Irão extermina 2 600 pessoas; em 21 de Junho de 1990, com Marte em 14º 59´/ 15º 41´ de Carneiro, um sismo com magnitude 7,7 na escala de Richter, nas províncias de Gilan e Zanyan, no Noroeste do Irão, arrasa 17 vilas, 1 871 aldeias e provoca cerca de 37 000 mortos e 100 000 feridos.

 

 

ÁREA 14º-19º DO SIGNO DE TOURO:

 

PERÚ

 

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 14º-19º do signo de Touro é condição necessária, mas insuficiente, para gerar atentados ou acidentes notáveis no Perú.

 

Em 21 de Maio de 1950, com Mercúrio em 20º 0´/ 19º 35´ de Touro, um sismo de magnitude 6 Richter causa 100 mortos em Cuzco, Perú; em 17 de Outubro de 1966, com Nôdo Norte da Lua em 16º 17´/ 18´ de Touro, Mercúrio em 15º 27´/ 16º 44´ de Escorpião, um sismo de magnitude 7,7 Richter abala o Perú; em 31 de Maio de 1970, com Mercúrio em 16º 1´/ 48´ de Touro, um sismo de magnitude 7,8 Richter atinge Ancash, no Perú, provocando 66 794 mortos; em 30 de Maio de 1990, com Mercúrio em 13º 57´/ 14º 52´de Touro, um sismo de magnitude 6,5 Richter causa 135 mortos no norte do Perú; em 23 de Junho de 2001, com Vénus em 16º 30´/ 17º 33´ de Touro, um sismo de magnitude 6,5 Richter gera 75 mortos confirmados na região de Arequipa, Camana, Tacna e Chala, no Perú, 64 desaparecidos no tsunami que o acompanha, 560 feridos e 12 000 desalojados, também sentido no sul do Perú e norte do Chile e Bolívia; em 22 de Abril de 2002, com Mercúrio em 17º 3´/ 18º 51´ de Touro, um sismo de magnitude 4,4 Richter gera 1 morto no Perú.

 

ÁREA 26º-29º DE GÉMEOS:

IRÃO

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 26º-29º do signo de Gémeos é condição necessária, mas insuficiente, para gerar atentados ou acidentes notáveis no Irão.

 

Em 3 de Julho de 1987, com Vénus em 26º 33´/ 27º 46´ de Gémeos, um navio da frota norte-americana no Golfo Pérsico abate com um míssil um avião civil iraniano, com 289 pessoas a bordo; em 3 de Junho de 1989, com Vénus em 27º 54´/ 29º 7´ de Gémeos, morre de cancro o ayatolá Khomeiny, líder espiritual da revolução islâmica no Irão; em 21 de Junho de 1990, com Sol de 29º 22´ de Gémeos a 0º 20´ de Caranguejo, um sismo com magnitude 7,7 na escala de Richter, nas províncias de Gilan e Zanyan, no Noroeste do Irão, arrasa 17 vilas, 1 871 aldeias e provoca cerca de 37 000 mortos e 100 000 feridos. 

 

 

ÁREA 28º-29º DE CARANGUEJO:

  

CASTELO BRANCO

 

A área 28º-29º de Caranguejo faz eclodir acidentes de comboio em Castelo Branco.

 

Em 12 de Julho de 1984, com Nôdo Vénus em 27º 0´/ 28º 14´ do signo de Caranguejo, um comboio de mercadorias abalroa um automóvel numa passagem de nível em Castelo Branco provocando um morto e um ferido grave;em 14 de Abril de 2000, com Nôdo Norte da Lua em 29º 53´/ 29º 49´ do signo de Caranguejo duas carruagens de um comboio de mercadorias descarrilam junto da antiga passagem de nível do Bairro do Barrocal,em Castelo Branco, sem causar feridos, o que leva a CP a proceder ao transbordo rodoviário de passageiros entre Rodão e Covilhã.

 

 

ÁREA 24º-28º DE LEÃO:

 

TURQUIA, ATENTADO A HITLER E A SIDÓNIO PAIS

 

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 24º-28º do signo de Leão é condição necessária, mas insuficiente, para produzir incidentes ou acidentes notáveis na Turquia e atentados a Sidónio Pais e Adolf Hitler.

 

Em 18 de Agosto de 1949, com Sol en 24º 42´/ 25º 40´ de Leão, um terramoto causa 437 mortos na zona de Herzerun, na Anatólia, Turquia; em 19 de Agosto de 1966, com Sol em 25º 34´/ 26º  32´de Leão, um sismo causa 1 100 mortos e milhares de feridos na Anatólia oriental, Turquia; ; em 17 de Setembro de 1967, com Vénus em 27º 52´/ 27º 45´ de Leão, distúrbios durante um jogo de futebol em Kayseri, na Turquia, originam 44 mortos e mais de 600 feridos.

 

 

Em 14 de Dezembro de 1918, com Saturno em 28º 14´ de Leão, o presidente da República Portuguesa, Sidónio Pais, um protofascista, é abatido com três tiros por José Júlio da Costa, republicano radical, na estação do Rossio, em Lisboa; em 13 de Março de 1943, com Nodo Norte da Lua em 24º 39´ de Leão, uma bomba levada por um oficial, que supunha tratar-se de duas garrafas de licor, viaja, sem explodir, por avaria do detonador, no avião em que Hitler voa de Smolensko a Rastenburg, fracassando assim o atentado contra Hitler do general Henning von Tresckow e do tenente Fabian von Schlabrendorff; em 20 de Julho de 1944, com Júpiter em 28º 47´/ 28º 59´ de Leão, uma pasta com uma bomba colocada pelo conde Claus Schenk von Stauffenberg explode na sala do castelo de Rastenburg onde Hitler mantinha uma reunião com os seus oficiais generais, ficando ferido o ditador alemão e morrendo alguns dos presentes.

 

 

 

ÁREA 6º-9º DE VIRGEM:

HAMBURGO, SARAJEVO,

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 6º-9º do signo de Virgem é condição necessária, mas insuficiente, para produzir atentados ou acidentes notáveis em Hamburgo e Sarajevo. 

 

Em 4 de Maio de 1979, com Saturno em 7º 6´ de Virgem, Elizabeth Von Dyck membro grupo de extrema esquerda Baader-Meinhoff, é abatida a tiro pela polícia ao tentar sacar a sua arma em Hamburgo; em 2 de Setembro de 1985, com Sol em 9º 28´/ 10º 26´ de Virgem, bombas danificam duas empresas na Alemanha, uma em Dortmund e a outra em Hamburgo; em 19 de Abril de 1991, o jovem Matias Rust é condenado pelo tribunal de Hamburgo a dois anos e meio de prisão por ter ferido gravemente à facada uma aluna de enfermagem de 18 anos que rejeitara as suas propostas amorosas; em 2 de Dezembro de 1993, com Quiron em 8º 51´/ 8º 54´ de Virgem, o presidente von Weizäcker da Alemanha é agredido em Hamburgo; em 3 de Julho de 1994, com Quiron em 6º 13´/ 6º 19´ de Virgem, Vénus em 20º 34´/ 21º 43´ de Leão, Júpiter em 4º 46´ de Escorpião, de madrugada, sedes da polícia são atacadas com cocktails molotov em Hannover, Hamburgo, Oldemburgo, na Alemanha, como retaliação pela morte a tiro de um curdo de 16 anos perpetrada por um polícia.

 

 

Em 28 de Junho de 1914, com Nodo Sul da Lua em 7º 39´ de Virgem, numa praça de Sarajevo, capital da Bósnia, o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro e inspector geral das forças armadas, que minutos antes junto da estação devolvera com as mãos para a rua uma bomba atirada para a sua carruagem, é assassinado a tiro, tal como sua esposa Sofia von Hohenberg, por Gavrilo Princip, estudante liceal de 19 anos, que deseja vingar os sérvios da opressão a que o império os sujeita; em 28 de Agosto de 1995, com Vénus em 6º 10´/ 7º 24´ de Virgem, morteiros sérvios atingem o mercado de Sarajevo, Bósnia, causando 37 mortos e 90 feridos.

 

  

11º-14º  DE BALANÇA:

 

VIENA DE AUSTRIA

 

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 11º-14º do signo de Balança é condição necessária, mas insuficiente, para gerar atentados ou acidentes notáveis em Viena de Áustria. 

 

Em 21 de Dezembro de 1975, com Plutão em 11º 32´/ 11º 33´ de Balança, Ilich Sánchez Ramírez, venezuelano conhecido como «Carlos», e mais cinco pessoas, membros de um comando «braço armado da revolução árabe», entram no edifício sede da OPEP em Viena de Áustria, abatem a tiro três guardas de segurança e fazem 70 reféns, entre os quais onze ministros e chefes de delegações árabes que levarão consigo de avião para a Argélia; em 28 de Setembro de 1979, com Vénus em 13º 18´/ 14º 33´ de Balança, um incêndio destrói parcialmente um hotel em Viena de Áustria matando 26 pessoas; em 29 de Agosto de 1981, com Saturno em 8º 19´/ 25´ de Balança, Júpiter em 11º 5´/ 11º 17´ de Balança, um atentado da OLP contra uma sinagoga em Viena de Áustria causa 2 mortos.

 

 

ÁREA 1º-3º DE ESCORPIÃO:

REPRESSÃO NO BRASIL

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 1º-3º do signo de Escorpião é condição necessária, mas insuficiente, para gerar repressão policial mortal no Brasil.

 

Em 10 de Dezembro de 1943, com Vénus em 1º 53´/ 3º 1´ de Escorpião, a polícia dispara sobre uma passeata de estudantes em São Paulo exigindo a libertação de Hélio Mota, presidente do Directório Académico XI de Agosto, resultando 2 mortos e 25 feridos; ; em 4 de Novembro de 1969, com Mercúrio em 3º 48´/ 5º 27´do signo de Escorpião, morre numa emboscada numa rua de São Paulo, Carlos Marighella, líder da Aliança Libertadora Nacional, morrendo no tiroteio uma investigadora e sendo presas 17 pessoas, entre elas alguns frades beneditinos; em 16 de Dezembro de 1976, com Nôdo Norte da Lua em 2º 14´/ 15´ do signo de Escorpião, agentes do II Exército penetram numa casa em São Paulo e aí matam 3 dirigentes do Partido Comunista do Brasil.

 

ÁREA 0º-1º DE SAGITÁRIO (E POR VEZES 29º DE CAPRICÓRNIO E 0º-1º DE AQUÁRIO):

AUTO-ESTRADA LISBOA-SETÚBAL

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 0º-1º do signo de Sagitário e, por vezes, simultaneamente em 29º do signo de Capricórnio e 0º-1º do signo de Aquário é condição necessária, mas insuficiente, para causar acidentes na auto-estrada entre Lisboa e Setúbal. 

 

Em 27 de Janeiro de 1994, com Nodo Norte da Lua em 0º 49´/ 0º 38´ de Sagitário, Marte em 29º 5´/ 29º 52´ de Capricórnio, o choque de 21 veículos, em cadeia, na A2, entre Lisboa e Setúbal, causa 19 feridos; em 2 de Setembro de 1996, com Plutão em 0º 29´ de Sagitário, Júpiter em 7º 49´ de Capricórnio, Urano em 1º 3´/ 1º 11´ de Aquário, ao quilómetro 28 da A2, perto de Setúbal, um autocarro despista-se por rebentamento de um pneu do lado esquerdo e embate num automóvel ligeiro, resultando 40 feridos.

 

 

ÁREA 15º-22º DE CAPRICÓRNIO:

 

COLÔMBIA, ARMAZÉM OU CENTRO COMERCIAL

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 15º-22º do signo de Capricórnio é condição necessária, mas insuficiente, para originar acidentes notáveis ou atentados na Colômbia e em centro comercial algures no mundo.

 

Em 12 de Dezembro de 1979, com Vénus em 16º 39´/ 17º 53´ de Capricórnio, um sismo na Colômbia provoca 600 mortos; em 21 de Dezembro de 1980, com Marte em 22º 14´/ 23º 1´ de Capricórnio, uma bomba destrói um avião Caravelle na Colômbia, matando 68 pessoas; em 17 de Março de 1988, com Marte em 15º 54´/ 16º 35´ de Capricórnio, um avião Boeing 727 despenha-se na Colômbia, produzindo 137 mortos; em 19 de Maio de 1993, com Neptuno em 20º 58´ de Capricórnio, um avião Boeing 727 esmaga-se em Medellin, Colômbia, morrendo 133 pessoas.

 

 

Em 29 de Novembro de 1973, com Vénus em 22º 45´/ 23º 37´ de Capricórnio, um incêndio num grande armazém em Kumamotto, Japão, causa 101 mortos; em 17 de Dezembro de 1983, com Mercúrio em 14º 38´/ 15º 19´ de Capricórnio, uma bomba potente explode nos armazéns Harrods, em Londres, matando 5 pessoas e ferindo 80; em 17 de Setembro de 1986, com Marte em 19º 22´/ 19º 47´ de Capricórnio, uma bomba lançada de um BMW branco contra o armazém de roupa Taiti, em Paris, causa 5 mortos e 60 feridos.

 

 

ÁREA 16º-19º DE AQUÁRIO:

SANTARÉM, ROCHA CONDE DE ÓBIDOS

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 16º-19º do signo de Aquário  é condição necessária, mas insuficiente, para originar acidentes de comboio em Santarém e na Rocha Conde de Óbidos.  

 

Em 19 de Janeiro de 1983, com Vénus em 16º 36´/ 17º 51´do signo de Aquário, um acidente ferroviário perto de Santarém provoca um morto e 8 feridos; em 2 de Maio de 1997, com Júpiter em 19º 37´/ 44´do signo de Aquário, um comboio descarrila na linha do Norte, a dois quilómetros de Santarém, devido à queda de uma catenária.

 

Em 17 de Junho de 1999, com Urano em 16º 32´/ 16º 30´ de Aquário, pelas 14.45 horas, na passagem de nível da Rocha Conde de Óbidos, entre Alcântara e Santos, uma mulher é colhida mortalmente e uma criança ferida ligeiramente por um comboio da linha de Cascais, sendo a circulação ferroviária na via interrompida até às 16.30 horas; em 5 de Janeiro de 2004, com Vénus em 18º 7´/ 19º 21´ de Aquário, à 1.35 horas, um homem suicida-se, atirando-se sobre a linha de Cascais à passagem de um comboio, na passagem de nível Rocha Conde de Óbidos entre Santos e Alcântara.

 

 

ÁREA 8º-11º DE PEIXES:

 

LONDRES

 

 

A passagem de um planeta, sol ou nodo da Lua em 8º-11º do signo de Peixes  é condição necessária, mas insuficiente, para desencadear acidentes notáveis ou atentados em Londres.   

 

 

Em 28 de Fevereiro de 1975, com Sol em 8º 46´/ 9º 46´ de Peixes, um comboio metropolitano choca com uma barreira num túnel sem saída na estação de Moorgate, em Londres, produzindo a morte de 41 pessoas; em 12 de Dezembro de 1988,  com Nodo Norte da Lua em 8º 4´/ 7º 59´ de Peixes, o choque de 2 comboios no sul de Londres faz 115 mortos em 7 de Fevereiro de 1991, com Vénus em 10º 57´/ 12º 12´ de Peixes, um rocket disparado pelo IRA cai nos jardins do nº 10 de Downing Street, às 9. 45 horas, e às 10.00 uma explosão dá-se frente ao Ministério da Defesa em Londres, havendo 4 mortos calcinados e alguns feridos; em 10 de Abril de 1992, com. Marte em 10º 1´/ 10º 47´ de Peixes, uma bomba explode no centro de Londres, causando 3 mortos e vários feridos.

 

 

Contra factos, não há argumentos. Fui o primeiro a fazer este tipo de investigação na história mundial e a gerar esta ciência das áreas zodiacais específicas- digo-o sem vaidade, porque a vida é breve e o que importa é salvar o conhecimento que, miraculosamente, se atinge. Não há que endeusar ninguém. É a vaidade dos catedráticos de filosofia e da história - que pretendem ser uma «nobreza» do pensamento - a sua incapacidade de pensar holisticamente o universo como um todo, e o seu desprezo pelo mundo empírico e pela análise dos pequenos detalhes que impedem a descoberta e a difusão da verdade.

 

Descartes, Berkeley, Kant, Hume, Hegel, Schopenhauer, Marx, Engels, Nietzschze, Freud, Husserl, Foucault, Derrida, Heidegger, Sartre, Ricoeur, Einstein, Dirac, Schrodinger, Heisenberg, Stephen Hawking, Sagan, Popper, Khun,  e mesmo Fernando Pessoa e Feyerabend, não sabiam nada disto. É este tipo de saber, preciso, exacto, científico, que os pomposos e vazios catedráticos das faculdades de filosofia, história e sociologia de todo o mundo, e, com eles, o clero de todas as igrejas, temem. É isto que o grupo krisis- évora, as universidades, os jornalistas venais e os grandes media, veículos do poder da burguesia e dos néscios que afirmam a «omnipotência do livre-arbítrio», tudo fazem para silenciar. Infelizmente para eles, existe a internet onde a verdade pode circular, ainda que para um segmento ínfimo da população mundial.

 

 

Note- The secretariat of the group Krisis Évora Portugal censored my thesis on historical astrology and  ontology of predestinationism by stars  preventing this thesis to be presented at the IV International Workshop of Researchers in Philosophy to be held at the University of Évora, Portugal, on June 14-16, 2012 . This attitude expresses fear of novelty and seems to reveal the existence of an epistemological fascism between the university on philosophy that seeks to prohibit and hide any scientif position on Historical Astrology, particularly the social-astronomical laws we discovered in recent decades and that we disclosed in books in Portuguese language.

 

 

 

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Terça-feira, 1 de Maio de 2012
Algumas teses de Theodor Adorno sobre estética

 

Theodor Wiesengrund-Adorno (11 de Setembro de 1903, Frankfurt Am Main; 6 de Agosto de 1969, Visp), filósofo, sociólogo, musicólogo, um dos grandes teóricos da arte no século XX, escreveu:

 

«A arte nega as determinações categorialmente impressas na empiria e, no entanto, encerra na sua própria substância um ente empírico. Embora se oponha à empiria através do momento da forma - e a mediação da forma e do conteúdo não deve conceber-se sem a sua distinção - importa, porém, em certa medida e geralmente, buscar a mediação no facto de a forma estética ser conteúdo sedimentado.» ( Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.15, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Esta é uma ideia perfeitamente hegeliana: o conteúdo espiritual, isto é, a ideia e o sentimento, descem e exprimem-se na forma, na figura desenhada na tela e nas tintas usadas, na figura tridimensional esculpida no mármore, etc. No entanto, a arte não é pura imitação da natureza, nega determinações ou características desta: por exemplo, o braço de mármore de uma estátua não contém veias e células vivas como o braço que o artista tomou por modelo empírico.

 

AS OBRAS DE ARTE SEM SENTIDO GERAM UM CONTEXTO DE SENTIDO

 

A ausência de sentido e de significação, um dos problemas cruciais de muita da arte contemporânea, é assim equacionada por Adorno:

 

«As obras de mais elevado nível formal, desprovidas de sentido ou a ele alheias, são, pois, mais que simplesmente absurdas, porque o seu sentido cresce na negação do sentido. A obra que  nega rigorosamente o sentido está obrigada, por tal lógica à mesma coerência e unidade, que outrora devia presentificar o sentido.  As obras de arte, mesmo contra a sua vontade, tornam-se contextos de sentido ao negarem o sentido. »( Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.176, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Uma questão que aqui se pode colocar é: as obras tornam-se contextos de sentido, em si mesmas, ou é o espectador que, automaticamente, instaura um sentido em tudo aquilo que percepciona, do mesmo modo que ao olhar uma mesma nuvem uma pessoa diz que lhe lembra uma cenoura, outra diz que se assemelha a um focinho de rato e uma terceira à fuselagem de um avião? É o sentido objectivo e real em si e por si ou é subjectivo e irreal, está só nos olhos de quem contempla? 

 

A VERDADEIRA ARTE NÃO INCLUI A INTENÇÃO

 

Para Adorno, a intenção não é um ingrediente essencial da obra de arte. Esta surgiria como que por um puro automatismo, algo similar à natureza e suas leis. É sem dúvida, uma espécie de «astúcia da razão artística» - o conceito hegeliano de astúcia da razão, isto é de manipulação dos espíritos individuais pela razão ou espírito universal,  sustenta, por exemplo, que Napoleão não foi o principal artífice da história da França de 1801 a 1812, como chefe do directório e imperador, mas que foi a razão universal (Deus) que, astuciosamente, se serviu da personalidade e do prestígio de Napoleão Bonaparte para operar as transformações indispensáveis ao domínio da burguesia sobre a vida política em França e na Europa.

 

«A arte procura imitar uma expressão, que não incluiria intenção humana. Esta é apenas o seu veículo. Quanto mais perfeita uma obra de arte, mais as intenções dela se ausentam. A natureza, indirectamente o conteúdo de verdade da arte, elabora imediatamente o seu contrário. Se a linguagem da natureza é muda, a arte aspira a fazer falar o silêncio, exposta ao insucesso pela contradição insuperável entre esta ideia, que impõe o esforço desesperado, e aquela, a que se aplica o esforço, de um não-intencional puro e simples.»  

 

«A natureza deve a sua beleza ao facto de parecer dizer mais do que é. A ideia da arte é arrancar este mais à sua contingência, torná-lo senhor da sua aparência, determiná-lo a ele mesmo como aparência, e também negá-lo como irreal. O «Mais» fabricado pelo homem não garante em si o conteúdo metafísico da arte. Esta poderia ser um nada absoluto e, no entanto, as obras de arte poderiam pôr esse «Mais» como aparência. Tornam-se obras de arte na elaboração do «Mais»; produzem a sua própria transcendência, sem serem o seu teatro, e, por isso, são novamente separadas da transcendência.»

(Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.95, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

A arte é aparência com um «mais» em relação à aparência que é a natureza - a pintura de uma paisagem de um desfiladeiro atravessado por um rio é algo «mais» que o próprio desfiladeiro e rio. Mas o «mais» não reside unicamente no pormenor da técnica utilizada na "reprodução" ou nas tintas e na tela mas sobretudo na transcendência que consiste na espiritualidade, no núcleo de ideias e sentimentos que delas emana. 

 

 

NOMINALISMO VERSUS UNIVERSALISMO ESTÉTICO

 

 

Sobre o nominalismo estético, isto é, a corrente que sustenta que cada obra de arte é única, singular na sua forma e na sua mensagem, e não se inregra num cânone comum, numa escola, num conceito universal determinado, escreveu Adorno:

 

«O nominalismo estético é um processo na forma, e transforma-se, por seu turno, em forma: também aí o universal e o particular se mediatizam. (...) As formas abertas são as categorias universais dos géneros que buscam o equilíbrio com a crítica nominalista do universal. Esta apoia-se na experiência do fracasso inevitável da unidade do universal e do particular, a que aspiravam as obras de arte. Nenhum universal pré-dado admite em si e sem conflito o particular, que não deriva de um género. » (...)

«A obra de arte nominalista deve tornar-se tal em virtude de se organizar puramente a partir de baixo, em vez de lhe serem impostos os princípios de organização. Mas nenhuma obra de arte cegamente abandonada a si mesma tem em si a força da organização, que lhe traçaria os limites obrigatórios: reconhecer-lhe essa força seria, de facto, feiticismo. O nominalismo estético libertado, como a crítica filosófica de Aristóteles, liquida toda a forma enquanto sobrevivência de um ser-em-si espiritual. Vai desembocar na facticidade literal e esta é inconcilável com a arte. Poder-se-ia mostrar, num artista de nível formal como Mozart, como as suas obras mais audaciosas na forma e, portanto, mais autênticas, se aproximam da decomposição nominalista. O carácter da obra de arte enquanto artefacto é incompatível com o postulado da obra repoisando puramente em si. Ao serem feitas, as obras de arte recebem ao mesmo tempo em si aquele momento do organizado, do "governado", que é insuportável à sensibilidade nominalista»( Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.248, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

É discutível a tese de Adorno segundo a qual «nenhuma obra de arte cegamente abandonada a si mesma tem em si a força da organização, que lhe traçaria os limites obrigatórios: reconhecer-lhe essa força seria, de facto, feiticismo.» Nominalismo não implica incapacidade de auto-organização ou mesmo ausência de necessidade (determinismo) na vida de um objecto singular: implica, apenas, impossibilidade de universalizar esse objecto singular, de o subsumir como membro de uma espécie ou género determinados ( do tipo:«Este quadro é uma obra da espécie de arte barroca»). De qualquer modo, segundo Adorno, o nominalismo, isto é, a tendência para a singularização da obra de arte, libertando-a de cânones de escola, tem vindo a acentuar-se ao longo da história.

 

Na luta entre o universalismo e o nominalismo como princípios formadores da obra de arte, Adorno parece adoptar uma posição de síntese, como se a obra de arte nascesse simultaneamente do acidente singular (nominalismo) e da essência universal (universalismo):

 

«O principium individuationis na arte, o seu nominalismo imanente, é uma especificação, não um estado de coisas prévio. Ela não favorece apenas a particularização e, assim, a elaboração completa e radical das obras individuais. (...) A relação do particular e do universal não é tão simples como o sugere a tendência nominalista, nem tão trivial como a doutrina da estética tradicional de que o universal deveria particularizar-se. A exacta disjunção entre nominalismo e universalismo não é válida.»  (Theodor W. Adorno, Teoria Estética, pag.227, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

MOMENTO CONSTRUTIVO VERSUS MOMENTO MIMÉTICO

 

Adorno opõe o construtivismo - entendido não em sentido particular, como corrente de arte abstracta russa nascida em inícios do século XX, mas sim no sentido geral  de transfiguração do real, reconstruindo-o como mundo simbólico, supranatural ou antinatural; por exemplo, correntes como o surrealismo, o cubismo, o abstracionismo - ao realismo - a mimesis ou imitação da realidade exterior.

 

«Se, mediante a luz do flash, o mundo habitual deve ser desmascarado como aparência e ilusão, passou-se já teleologicamente para o não-figurativo. O construtivismo, contraparte oficial do realismo, tem, através da linguagem do desencantamento, um paralelismo mais profundo com as transformações históricas da realidade do que um realismo coberto desde há muito com um verniz romântico, porque o seu princípio, a reconciliação ilusória com o objecto, se tornou entretanto romantismo. Os impulsos do construtivismo foram, quanto ao conteúdo, os da adequação, por problemática que fosse, da arte ao mundo desencantado, que era impossível realizar sem academismo no plano estético, com os meios realistas tradicionais. Tudo o que hoje pode chamar-se informal só se torna verdadeiramente estético ao articular-se em forma; de outro modo, seria apenas documento. Em artistas exemplares desta época, como Schömberg, Klee e Picasso, o momento expressivo mimético e o momento da construção encontram-se com igual intensidade, não no meio medíocre da transição, mas na tendência para os extremos: mas ambos são, ao mesmo tempo e quanto ao conteúdo, a expressão, a negatividade do sofrimento e, a construção, a tentativa de resistir ao sofrimento da alienação, enquanto que esta é ultrapassada no horizonte de uma racionalidade ilimitada e, portanto, não mais violenta.» (W. Adorno, Teoria Estética, pag 287, Edições 70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ao sustentar que «tudo o que hoje pode chamar-se informal só se torna verdadeiramente estético ao articular-se em forma», Adorno está a afirmar que a faculdade estética no ser humano é a capacidade de fruir o belo através das formas. Na verdade o Belo arquetípico de Platão, forma pura transcendente a todas as formas ainda seria "informal" porque demasiado abstracto e só plasmando-se nesta ou naquela forma material se daria a conhecer.

 

 

 

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Domingo, 22 de Abril de 2012
Equívocos nos testes intermédios de filosofia de 20 de Abril de 2012

 

Sem os erros gritantes da prova de exame nacional de filosofia de 2007, o teste intermédio de filosofia realizado em Portugal  em 20 de Abril de 2012 - curiosamente o aniversário do nascimento de Adolf Hitler, o tal que mandava queimar em autos de fé os livros com as teorias metafísicas e científicas que o desafiavam e ao nazismo; a lembrar alguns ditadores da análise lógica de hoje, com os inspectores de circunstâncias e o raciocínio mecânico, robótico... - enferma, sem embargo, de alguns equívocos e da mesma estreiteza antimetafísica e antifilosófica que caracterizou a prova de exame de 2007. O teste intermédio não permite distinguir, com clareza, os alunos muito bons dos alunos bons, e estes dos suficientes elevados: não dá espaço à criatividade filosófica e faz da filosofia, exclusivamente, uma disciplina de memorização de conteúdos que são despejados no teste. Descartes e Hume são os filósofos sobre os quais se pede um saber nas perguntas 2.1 e 2.2 (da versão 1 do teste): mas as orientações de correção revelam que os  autores do teste não dominam a filosofia de David Hume, o que sucede, aliás, com pelo menos 95% dos professores de filosofia do ensino secundário em Portugal. 

 

PERGUNTA SOBRE O ARGUMENTO DE ANALOGIA MAL CONCEBIDA

 

A questão 1.6 do teste, confusamente elaborada, é a prova de que os autores - do mesmo modo que os manuais escolares em voga - não intuem com clareza o que é raciocínio de analogia. Vejamos:

  

1.6.

  

 

 Um argumento por analogia é um argumento

 

(A) dedutivo que parte de uma boa comparação entre realidades diferentes.

 

 

(B) não dedutivo que parte de semelhanças entre realidades diferentes.

 

 

(C) dedutivo que parte de certo número de semelhanças entre realidades diferentes.

 

 

(D) não dedutivo que parte de diferenças relevantes entre realidades semelhantes.

 

 

 O erro desta pergunta reside no facto de ignorar que o argumento por analogia, baseado na comparação entre dois ou mais entes, é multiforme: numa modalidade, consiste em  raciocínios indutivos unificados por uma intuição noética e na outra modalidade reduz-se ao raciocínio dedutivo unificado noeticamente (inteligivelmente). Portanto, as quatro respostas A, B, C e D estão razoavelmente correctas - e razoavelmente incorrectas. Aliás a resposta B é, no fundo, o mesmo que a resposta D: semelhanças entre realidades diferentes (exemplo: o mesmo tipo de intestino e de dentição e de vocação frugívora entre o homem e o gorila) e diferenças relevantes entre realidades semelhantes (exemplo: a crueldade primitiva da criança de 6 anos que agride fisicamente outra, e a crueldade refinada do homem adulto que faz intimidação e acosso psicológico ao seu semelhante) vai desaguar no mesmo, isto é, numa relação de identidade e diferença...

 

Há raciocínios de analogia que são quase puramente dedutivos como, por exemplo, a analogia do ente (tó ón) e do uno (tó tí) que Aristóteles estabelece na "Metafísica". Como verificar que se trata de uma dedução adicionada de intuição noológica unificadora? O ente é uno : unidade deduz-se do conceito abstracto de ente. O uno é ente, isto é, existe - é outra dedução. Trata-se de duas deduções que confluem neste argumento de analogia construído mediante uma intuição unificadora. As respostas A) e C) do texto encaixam nesta modalidade.

 

Consideremos agora o seguinte raciocínio de analogia: «O homem e o chimpanzé possuem semelhanças evidentes na sua anátomo-fisiologia: 32 dentes na boca, um intestino de 6 a 8 metros de comprimento diferente do intestino dos carnívoros que é de 2,5 a 3 metros e uns rins fracos. Portanto, o homem deve alimentar-se de modo similar ao chimpanzé em liberdade: frutos frescos ou gordos (nozes, amêndoas), hortaliças, ovos e pequenos mariscos.» Esta analogia parte da indução, de uma observação empírica do homem e do chimpanzé e por abstração unifica as duas espécies no género antropóides. A analogia inclui pois, nesta modalidade, indução e  aglutinação noética (intuição inteligível unificadora). Nada disto é ensinado nos manuais escolares nem nos dicionários de filosofia. Assim, a pergunta 1.6 está mal construída, borbulha no magma da confusão intelectual.

 

ERRÓNEA ORIENTAÇÃO PARA CORRIGIR AS PERGUNTAS SOBRE DAVID HUME

 

Veja-se agora uma pergunta sobre David Hume cuja teoria os autores desta prova - e a generalidade dos professores de filosofia - não dominam. Reza assim o final do enunciado do teste intermédio:

 

 

2.2.

 

Compare as posições de Hume e de Descartes relativamente à origem do conhecimento humano.

Na sua resposta deve integrar, pela ordem que entender, os seguintes conceitos:

 

 

razão;


 

sentidos;


 

ideias.

 

 

E para o cenário da resposta desenha, entre outras, a seguinte orientação:

 

Caracterização do papel da razão e dos sentidos no conhecimento da realidade, de acordo com a filosofia de Hume, segundo a qual a razão sem os sentidos não pode ajuizar ou fazer inferências sobre a realidade.

 

 

Nota-se neste critério de correção a ignorância dos autores desta prova sobre a doutrina de Hume. David Hume não considerou uma só razão nem afirmou que a razão sem os sentidos não pode ajuizar ou fazer inferências sobre a realidade. Escreveu:

 

«Pareceria ridículo aquele que dissesse que é somente provável que o sol nascerá amanhã, ou que todos os homens têm de morrer, embora seja claro que não temos outros factos além da que nos fornece a experiência. Por esta razão, talvez fosse mais exacto, para conservar logo o sentido correcto das palavras, e marcar os vários graus da evidência, distinguir três espécies de razão humana, a saber, a que resulta do conhecimento, a  que resulta das provas e a  que resulta das probabilidades. Por conhecimento, entendo a certeza que nasce da comparação de ideias. Por provas, os argumentos tirados da relação de causalidade e que são inteiramente livres da dúvida e incerteza. Por probabilidade, a evidência que ainda é acompanhada de certeza. É esta última espécie de raciocínio que passo a examinar. »

 

«A probabilidade ou raciocínio de conjectura pode dividir-se em duas espécies, a saber, a que se baseia no acaso e a que nasce de causas. Consideremos uma e outra por ordem. A ideia de causa e efeito é tirada da experiência que, apresentando-nos certos objectos constantemente conjugados, produz um hábito tal de os considerar nessa relação que não podemos sem sensível violência considerá-los em qualquer outra relação. Por outro lado, visto que o acaso não é em si nada de real e, falando com propriedade, é apenas a negação de uma causa, a sua influência na mente é contrária à da causação; e é essencial que deixe a imaginação perfeitamente indiferente para considerar a existência ou não-existência do objecto tomado como contingente.»

(David Hume, Tratado sobre a investigação humana, pag 163-164, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Para David Hume, a relação de causação ou causalidade necessária vem da experiência: é por vermos diariamente o nascer do sol e os nossos antepassados o terem visto sempre durante milhares de anos, que podemos dizer, com toda a segurança, que o sol nascerá amanhã. Essa é a razão das provas. Mas as outras duas razões ou vertentes de uma razão tridimensional - a razão do conhecimento, isto é meramente teórica, que compara ideias e formula, por exemplo, a teoria dos buracos negros do universo, feita de juízos e raciocínios especulativos; e a razão das probabilidades, céptica,  que conjuga o acaso com o determinismo - fogem da alçada dos sentidos, ainda que as ideias que manejam se originassem neles, e portanto ajuizam em "roda livre", sem controlo da experiência.

O que importa é que a razão opera e ajuíza sem os sentidos, ao contrário do que se afirma no critério de correção acima - opera com base na imaginação.

 

Nenhum dos manuais escolares de filosofia adoptados em Portugal nem os respectivos autores e revisores (Desidério Murcho, Pedro Galvão, Aires Almeida, Célia Teixeira, Paula Mateus, Luis Rodrigues, Pedro Madeira, Alexandre Franco de Sá, Michel Renauld, Marcelo Fernandes, Nazaré Barros, António Pedro Mesquita, Luís Gottschalk, Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes, J.Neves Vicente, Catarina Pires, Maria Antónia Abrunhosa, Miguel Leitão, Margarida Moreira, Adília Maria Gaspar, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Fátima Alves, José Arêdes, José Carvalho, Rui Alexandre Grácio, José Manuel Girão, etc) compreenderam bem e explanaram correctamente a teoria de David Hume. Não falam desta tridimensionalidade da razão ou destas três razões. A doutrina de Hume é mais complexa do que o simplismo redutor com que a pintam. Como poderão então os professores correctores, sob a deficiente influência dessses autores e supervisores, corrigir com verdade as respostas dos alunos sobre a teoria de Hume e ter uma perspectiva correcta sobre a relação razão- sentidos segundo este filósofo?

 

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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
Estética de Hegel: a luz, a cor e a pintura no quadro das artes

 

A Estética, de Hegel, é um livro de um grande pensador, atento àos aspectos multiformes das artes plásticas (pintura, escultura, arquitectura) e não plásticas (poesia, teatro, música, dança). Hegel escreveu na sua teoria da cor e da luz incolor:

 

«Com efeito, a luz como dissemos não existe, senão em relação a outra coisa diferente dela, e particularmente à treva. Mas nesta relação os dois princípios, longe de se oporem um ao outro, formam uma unidade, uma combinação de luz e treva. A luz, assim toldada e obscurecida, mas penetrando e iluminando, por sua vez, a treva, forma o princípio da cor, que é o material próprio da pintura.A luz em si é incolor;é a indeterminação pura da identidade consigo mesma; a cor que, em relação à luz, é já qualquer coisa de relativamente escuro, e, por conseguinte, diferente da luz, é um obscurecimento a que se associa o princípio da luz, para formar uma unidade, e é ter-se uma falsa e péssima ideia da luz o considerá-la como composta de diferentes cores, quer dizer de diferentes escuridades.»

 

(Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 42-43, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é de minha autoria)

  

Assim, Hegel opõe-se à ideia de que a luz (branca) se decompõe, ao refractar-se num prisma, nas sete cores do arco-íris. Estas seriam pois externas à luz, brotariam das diferentes escuridades das diversas zonas do prisma.  

 

Prossegue Hegel:

 

«As formas, as distâncias, a delimitação, os contornos, enfim todas as relações espaciais e todos os diferentes modos de manifestação no espaço, são produzidos na pintura pela cor, cujo princípio ideal está igualmente em condições de representar conteúdos ideais e permite traduzir, com o auxílio de oposições mais ou menos profundas, de delicadezas e transições várias, os mais ligeiros matizes dos objectos representados. O que podemos assim obter, graças à cor, é verdadeiramente admirável. Eis, por exemplo, dois homens totalmente diferentes: cada um representado pela consciência que tem de si prórprio e pelo seu organismo animal, uma totalidade espiritual e corporal, e todavia, toda esta diferença se reduz num quadro a simples diferenças de cores. Aqui termina uma cor, ali começa outra e, graças a isto, tudo surge ante a nossa vista: a forma, a distância, os jogos fisionómicos, a expressão, tudo o que cada homem tem de mais sensível e mais espiritual. E esta redução, dissemos já, não deve ser considerada como um expediente, como um defeito, mas antes pelo contrário: a pintura negligencia intencionalmente a terceira dimensão, para substituir a realidade puramente espacial pelo princípio mais elevado e mais rico da cor.» (...) (Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 42-43, Guimarães Editores, 1962)

 

Eis, no texto acima, duas teses extraordinariamente interessantes de Hegel: é a cor que produz as formas - a cor que estamos habituados a encarar como um conteúdo que preenche o espaço vazio da forma, já é, em si, uma forma; o princípio da cor substitui a representação tridimensional do espaço, sendo mais rico que esta, o que significa que a cor é porta de acesso ao mundo espiritual mais do que a forma trimidensional de uma estátua.

 

A PINTURA É A ARTE QUE MELHOR LIGA A INTERIORIDADE À EXTERIORIDADE

 

Hegel compara entre si, do ponto de vista da forma e do conteúdo, as diferentes artes:

 

«A primeira coisa a considerar e sobre a qual importa chamar a atenção é que a pintura restringe as três dimensões do espaço à superfície. A concentração total dessas dimensões seria representada por um ponto, o que significaria a supressão da justaposição e a instabilidade consecutiva desta supressão que corresponde a um ponto do tempo. Mas é somente na música que esta negação se encontra realizada de uma forma consequente. A pintura, pelo contrário, deixa subsistir o espacial, ao suprimir apenas uma das três dimensões, e ao fazer da superfície o elemento das suas representações. Esta redução das três dimensões às duas da superfície está implicada no princípio da interiorização que se não pode manifestar no espacial como interioridade senão reduzindo a totalidade exterior, em vez de a deixar subsistir na sua completa extensão. (...)»

«Já a escultura, em lugar de ser uma simples reprodução, imitativa da realidade natural, corporal, era uma criação do espírito exercendo-se sobre a natureza e eliminando, por esta razão, das suas figuras, tudo o que não correspondia ao conteúdo que se tratava de exprimir.  Entre as particularidades eliminadas pela escultura, a cor era uma delas, de modo que permanecia apenas a abstração da figura sensível. Na pintura sucede o contrário, porque ela tem por conteúdo a interioridade espiritual que não pode manifestar-se exteriormente senão como parecendo retirar-se do exterior para reentrar em si mesma

(Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 32-34, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).

 

A fina inteligência deste texto acima destaca que a música corresponde à ausência de espacialidade, tal como o ponto, ao passo que a pintura implica o espaço a duas dimensões. Enquanto a escultura é uma exterioridade, um fora de si, a pintura é um passar do exterior ao interior,  porque não é tridimensional e força a imaginar a realidade através de aparências.

A comparação entre música, pintura e escultura sugere-me a analogia com as três fases da Ideia Absoluta ou Deus concebidas por Hegel: a primeira, a fase do ser em si, ou Deus sozinho antes de criar o mundo, em que não há espaço nem tempo, poderia ser associada à música; a segunda, a fase do ser fora de si, ou Deus exteriorizado, alienado em natureza física e biofísica, em estrelas, montanhas, plantas e animais, seria simbolizada pela escultura; a terceira, a fase do ser para si, em que Deus encarna em humanidade a qual através do pensamento e da acção intenta volver a Deus espírito seria simbolizada pela pintura.

 

 

« Do ponto de vista da generalidade, existem diferenças entre as artes; têm umas um carácter mais ideal, são outras mais acessíveis à percepção exterior. As produções da escultura, por exemplo, são mais abstractas do que as da pintura; a poesia, os poemas épicos são, por um lado, dotados de menor vida exterior do que uma verdadeira representação dramática mas, por outro lado, ultrapassam a arte dramática graças ao seu conteúdo concreto...»

«Como todavia, é o espírito que realiza numa forma exterior, o conteúdo que tem um interesse intrínseco, cabe perguntar, também neste caso, qual seja o significado preciso da oposição entre o ideal e o natural. » (Hegel, Estética, o belo artístico ou o ideal, pag. 32, Guimarães editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O espírito a que o texto se refere é o espírito do mundo, ou seja, a ideia absoluta (Deus) incarnada em humanidade, a ideia absoluta na sua terceira fase, de ser para si. As outras duas fases anteriores são como já disse: o ser em si ou ideia absoluta, Deus antes de criar o universo, o espaço e o tempo; o ser fora de si, isto é, Deus alienado em natureza biofísico, transformado em astros, montanhas, planícies, minerais, vegetais e animais, à excepção do homem.

 

 

E prossegue Hegel:

 

«Assim, com efeito, a pintura não deve introduzir no seu domínio senão o que, contariamente à escultura, à poesia e à música, ela é capaz de representar mediante e através das figuras e das formas exteriores, quer dizer, a concentração do espírito, cuja expressão permanece inacessível à escultura, enquanto que a música é incapaz de dar uma concreta expressão exterior da interioridade e a própria poesia se limita a uma imagem imperfeita da forma sensível. A pintura, pelo contrário, está em condições de lançar uma ponte entre a interioridade e a exterioridade, de ligar um ao outro o interior e o exterior, de exprimir exteriormente a interioridade total. Portanto tem por conteúdo, tanto a vida da alma com toda a profundidade dos sentimentos que nela se agitam, como as particularidades vincadas dos caracteres e tudo o que é característico em geral; (...) todavia a particularidade específica deve  estar como que gravada, enraízada na fisionomia, e ser parte integrante da forma exterior.» (Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 51, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Na obra de pintura, o conteúdo é o sentimento geral, o ideal universal, - tese - a forma são os traços e as cores do quadro, o exterior-antítese. A síntese é o carácter do indivíduo, a particularidade específica, misto de visível e de invisível, que se espelha nos traços do rosto, nas cores da figura.

 

 

 

 O VERMELHO É A COR MASCULINA DA REALEZA, O AZUL A COR FEMININA DA MATERNALIDADE

 

 

 

As cores exprimem o espírito, o ideal universal e o subjectivo particular.

 

«A cor comporta igualmente uma oposição do claro e do escuro que vão reagindo um contra o outro, reforçando-se ou aniquilando-se reciprocamente. Apesar da sua intensidade, o vermelho e o amarelo são em si mais claros que o azul. Isto diz respeito à própria natureza das diferentes cores que Goethe expôs com mestria. Efectivamente, no azul é o escuro que domina e só aparece como azul depois de ter atravessado um meio mais claro, mas não inteiramente transparente. O céu, por exemplo, é escuro, tanto mais escuro, quase negro, quanto mais nos elevamos; mas visto através de um meio transparente, embora perturbador, como é o do ar atmosférico das regiões mais baixas, parece azul, e tanto mais azul quanto o ar é menos transparente. No amarelo, pelo contrário, é o claro que age através dum meio nublado, mas que o deixa transparecer. O fumo, por exemplo, é um destes meios; quando olhamos através do fumo qualquer coisa negra que atrás dele se encontra, mas que ele deixa ainda transparecer, o fumo toma uma cor azulada; toma pelo contrário uma cor amarelada ou avermelhada, quando se encontra ante um meio claro. O vermelho em si é a cor real e concreta, resultando da interpenetração do azul e do amarelo que formam, por seu turno, um par de cores opostas. O verde pode igualmente ser considerado como o produto de uma combinação análoga, mas de uma combinação que não vai até à fusão total, até à formação de uma unidade concreta; resulta muito simplesmente de uma supressão das diferenças, que se traduz por uma neutralidade calma, saturada. Estas cores são as mais puras, as mais simples, as cores fundamentais. »

 

«Há um simbolismo das cores. Devemos procurar um sentido simbólico na maneira como as aplicavam os antigos pintores, sobretudo no emprego do azul e do vermelho. O azul, pelo facto de ter por princípio o escuro que não opõe qualquer resistência ( enquanto que é o claro que resiste, que produz, que vive e anima) corresponde a uma maneira de considerar as coisas mais doce, mais reflectida, mais calma; o vermelho simboliza o princípio varonil, dominador, real; o verde, o indiferente e o neutro. Conformemente a esta simbólica, Santa Maria, quando é representada sentada sobre um trono na qualidade de Rainha do céu, está revestida de um manto vermelho, ao passo que traz um manto azul, quando é representada como Mãe

 

(Hegel, Estética, Pintura e Música, pags 96-98, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).


 

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
Kant: a distinção entre belo e sublime

 

Kant distinguiu o belo do sublime. Parece-me correcto definir o sublime como algo grandioso e perfeito do ponto de vista metafísico e intelectual e o belo como algo pequeno, limitado, perfeito do ponto de vista físico-visual. Convém dizer que o Inferno da mitologia cristã é o sublime terrível: é perfeito enquanto lugar do mal ou seja maximamente imperfeito do ponto de vista do bem. Há portanto uma perfeição em dois sentidos: a perfeição do paraíso e do mundo dos arquétipos de Platão, perfeição do bem, em sentido positivo, e a perfeição dos infernos de Platão ou do catolicismo, com rios de lava levando as almas dos condenados e monstruosos diabos, perfeição do mal, em sentido negativo. Aparentemente pelo menos, o sublime é Yang, expansão, transcendência e o belo é Yin, contração, imanência.

 

Dentro do sublime, Kant distinguiu três modalidades: o sublime terrível que mistura a admiração da grandiosidade com o temor ou o horror (exemplo:um precipício imenso, a cratera de um vulcão a vomitar lava), o sublime nobre em que a admiração da grandiosidade se mistura com a nobreza assente na simplicidade, (exemplo: uma catedral gótica, sem decorações interiores) o sublime magnífico (exemplo: um palácio residencial recoberto a oiro e pedras preciosas). Escreveu:

 

«Os carvalhos altos e a sombra solitária no bosque sagrado são sublimes, as plantações de flores, sebes baixas, e árvores recortadas, formando figuras, são belos. A noite é sublime, o dia é belo. Os temperamentos que possuem o sentimento do sublime, quando a tremulante luz das estrelas rasga a parda sombra da noite e a lua solitária está no horizonte, são atraídos pouco a pouco pela calma silenciosa de uma noite de verão, a sensações supremas de amizade, de desprezo do mundo, de eternidade. O resplendor do dia infunde afãs de actividade e um sentimento de regozijo. O sublime comove, o belo encanta. O semblante do homem que se encontra em pleno sentimento do sublime é sério, às vezes rígido e ensombrado. Pelo contrário, a viva sensação do belo declara-se no olhar pela sua esplendorosa serenidade, por sorrisos rasgados e por um claro regozijo. » (Inmannuel Kant, Observaciones acerca del sentimiento de lo bello y de lo sublime, pag.32)

 

«O sublime há-de ser sempre grande, o belo pode também ser pequeno. O sublime há-de ser simples, o belo há-de ser limpo e adornado. Uma grande altura é sublime do mesmo modo que uma grande profundidade, só que esta vai acompanhada da sensação de estremecimento e aquela de admiração. Pelo que esta sensação pode ser sublime-terrível, e aquela nobre. A basílica de São Pedro em Roma é magnífica. Porque no seu desenho, que é grandioso e simples, está a beleza de tal maneira expandida, como o oiro, os mosaicos, etc, que, sem embargo, a sensação de sublime actua maximamente nele, dando um resultado magnífico. Um arsenal há-de ser nobre e simples, um palácio residencial magnífico, e um palácio de recreio belo e decorado.»

«Um longo período é sublime. Se se trata de um tempo passado é nobre; se se prevê para um futuro incalculável, tem então em si algo de terrível. Um edifício da mais remota antiguidade é venerável.» (Kant, ibid,  pag 34-35; o destaque a negrito é posto por mim)

 

A AMIZADE, O MORENO E A VELHICE SÃO SUBLIMES, O AMOR SEXUAL, O LOIRO E A JUVENTUDE SÃO BELOS

 

 

«O entendimento é sublime, o engenho é belo. A audácia é sublime e grandiosa, a astúcia é pequena mas bela. Cromwell dizia que a precaução é virtude de alcaides. A veracidade e a sinceridade são simples e nobres, a piada e a lisonja complacente são delicadas e belas. (..)

 

«A amizade guarda em si principalmente o carácter do sublime, mas o amor sexual é do belo. (..) A tragédia distingue-se, em meu entender, da comédia principalmente porque na primeira desperta o sentimento do sublime, e na segunda o do belo.» (pag Kant, ibid,  pag 37-38; o destaque a negrito é posto por mim).

 

«Com uma grande estatura ganha-se prestígio e respeito, com uma pequena gana-se melhor a confiança. Até a cor morena e os olhos negros estão mais vinculados ao sublime, e os olhos azuis e a cor loira ao belo. Uma idade um tanto avançada avém-se antes com as características do sublime, mas a juventude com as do belo. (...)»  (Kant, ibid,  pag 39; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Se os velhos são, potencialmente, sublimes, devido à sua sabedoria, à profundidade da sua reflexão alicerçada em experiência de vida, há que ter presentes que neles o belo esbate-se, degrada-se, e uma certa fealdade física os caracteriza. Kant não parece ter sublinhado explicitamente esta relação inversamente proporcional entre a sublimidade e a beleza física, ou seja, a proporcionalidade directa entre a sublimidade e a fealdade, no caso dos seres humanos.

 

A FILOSOFIA, RACIONAL E METAFÍSICA, E O HOMEM SÃO SUBLIMES, O SENTIMENTALISMO E A MULHER SÃO BELOS

 

No caso da filosofia, considera sublime o seu pendor metafísico, noológico, e belo mas menor, o seu pendor lógico-sofístico, de que hoje no século XXI a filosofia analítica é o paradigma.

 

«A representação matemática da magnitude imensa do universo, as considerações da metafísica acerca da eternidade, da providência, da imortalidade da alma contêm certa sublimidade e dignidade. Ao contrário, a filosofia também se desfigura, em subtilezas muito vazias, e a aparência de solidez não impede que as quatro figuras de silogismo merecessem ser referidas como deformações grotescas de escola.»

 «Entre as qualidades morais só é sublime a virtude verdadeira. (...) Certo sentimentalismo, que com facilidade se junta a um sentimento de compaixão, é belo e amável, pois manifesta uma benévola participação na sorte de outros homens, à qual levam igualmente os princípios da virtude. Só que esta paixão de bem natural é, sem embargo, débil e sempre cega.»  (Inmanuel Kant, Observaciones acerca del sentimiento de lo bello y de lo sublime, pag. 43-44, Alianza Editorial; .o destaque a negrito é posto por mim)

 

A mulher é associada ao belo - basta pensar na maquilhagem, nos brincos, nos colares e pulseiras, nos cuidados do cabelo, na exuberância da roupa feminina - e o homem ao sublime - pense-se no homem de barba por fazer, desalinhado na roupa, mas com o pensamento em altos ideias abstractos.

 

«A mulher tem um sentimento inato mais intenso para tudo o que é belo, lindo e adornado. Já na sua infância, as meninas desfrutam ao ataviar-se e comprazem-se a embelezar-se. São muito limpas e muito sensíveis a respeito de tudo o que dá asco. (...) O belo sexo tem sem dúvida tanta inteligência quanto o masculino, só que é uma inteligência bela; a nossa deve ser uma inteligência profunda, como expressão para significar o mesmo que sublime .(Inmanuel Kant, Observaciones acerca del sentimiento de lo bello y de lo sublime, pag. 68-69, Alianza Editorial; o destaque a negrito é posto por mim) ».

  

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Domingo, 15 de Abril de 2012
Materialismo dialético: algumas teses e crítica da teoria da relatividade

 

 

O materialismo dialético é a filosofia perfilhada por Marx e Engels que, inspirada em Heráclito e Demócrito, sustenta a eternidade do mundo material, incriado, que é matéria em movimento, a passagem do caos à ordem em intervalos regulares e viceversa, a inexistência de Deus ou deuses (Heráclito falava em Deus de modo panteísta), a perpétua luta de contrários no seio de cada coisa ou fenómeno e a existência do pensamento humano como reflexo da matéria (natureza exterior com paisagens rurais e urbanas, alimentos assimilados, células do corpo do sujeito), pensamento que, no entanto, é dotado de certa autonomia e permite o livre-arbítrio. Os filósofos materialistas dialéticos, como Alan Woods e Ted Grant, refutam diversas doutrinas das ciências actuais.

 

Podemos designar a crítica filosófica e científica das ciências por epistemologia (episteme é, em grego, a ciência demonstrativa, de que a matemática é um exemplo capital). O livro "Razão e revolução" exprime as teses mais importantes da filosofia materialista dialética, uma filosofia realista poderosa que esmaga, em múltiplos aspectos, a fenomenologia heideggeriana, a filosofia analítica e outras. Exporemos apenas algumas, neste artigo que não constitui uma recensão do livro. 

 

A LUTA DE CONTRÁRIOS, MOTOR DO MOVIMENTO E DO DEVIR

 

A unidade e luta de contrários é a lei decisiva na dialética. Em todas as coisas e áreas de existência, uma luta de contrários está presente, como motor e essência dessas coisas e áreas. A luta entre o Yang (calor, dilatação, verão, vermelho) e o Yin (frio, contracção, inverno, azul) de que falava a antiga filosofia oriental do taoísmo verifica-se em tudo, até nas quatro forças fundamentais da natureza: a gravidade (yin) opõe-se ao electromagnetismo (yang), que é luz, microondas, raios X; a força nuclear forte, que dá coesão ao núcleo do átomo (yin) opõe-se à força nuclear fraca que desintegra o núcleo do átomo (yang) através da radioactividade.

 

«Na realidade, o positivo não tem sentido sem o negativo. (...)

«E mais, tudo está em constante relação com outras coisas. Inclusivamente através de grandes distâncias estamos afectados pela luz, a radiação, a gravidade...Ainda que os nossos sentidos não o detectem, existe um processo constante de interação que causa uma série de mudanças contínuas. A luz ultravioleta pode "evaporar" electrões de superfícies metálicas de maneira similar a como os raios solares evaporam água da superfície do oceano. »(...)

«Em 2 de Agosto de 1932, Robert Millikan e Carl D. Anderson do Instituto Californiano de Tecnologia descobriram uma partícula cuja massa era claramente a de um electrão mas que se movia em direção contrária. Não era nem um electrão, nem um protão, nem um neutrão. Anderson descreveu-o como "electrão positivo" ou positrão. Este era o novo tipo de matéria - anti-matéria - predita pelas equações de Dirac. Mais adiante descobriu-se que os electrões e positrões, quando se encontram, eliminam-se mutuamente produzindo dois fotões (dois estalidos de luz). Da mesma maneira quando um fotão atravessa a matéria pode dividir-se formando um electrão virtual e um positrão. »

«Este fenómeno da oposição existe em física, onde, por exemplo, cada partícula tem a sua antipartícula: electrão e positrão, protão e antiprotão, etc. Não são meramente diferentes, mas opostas no sentido mais literal da palavra, já que são idênticas em tudo exceto numa coisa: têm cargas elétricas opostas. Por certo, não importa qual é a positiva e qual é a negativa, o importante é a relação entre ambas.

«Cada partícula tem uma qualidade denominada spin, expressa com um mais ou um menos, dependendo da sua direção. Ainda que possa parecer estranho, o fenómeno oposto de "para a direita" ou "para a esquerda", que joga um papel decisivo em biologia, também tem o seu equivalente no nível subatómico. As partículas e as ondas contradizem-se umas às outras. O físico dinamarquês Niels Bohr referiu-se a isso, bastante confusamente, como "conceitos complementares", com o que queria dizer que se excluíam mutuamente.»

 

«As investigações mais  recentes sobre física de partículas estão clarificando o nível mais profundo da matéria descoberto até ao momento, os quarks. Estas partículas também têm "qualidades" opostas que não são comparáveis com as formas normais, obrigando os físicos a criar novas qualidades artificiais para poder descrevê-las. Assim, temos os quarks up ( acima) os down (abaixo), os charm (encanto), os strange (estranho, etc). Apesar de que ainda há que explorar a fundo as qualidades dos quarks, uma coisa é certa: a propriedade da oposição existe nos níveis mais fundamentais conhecidos pela ciência até ao momento.»

«Na realidade, este conceito universal da unidade de contrários é a força motriz de todo o desenvolvimento e movimento na natureza. É a razão pela qual não é necessário introduzir o factor do impulso externo para explicar o movimento e a mudança (a debilidade fundamental de todas as teorias mecanicistas).»

 

(Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pags 82-84, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é posto por mim )

 

Nestas passagens magníficas, só falta tirar uma ilação: uma vez que tudo se relaciona ou interfere com tudo,  os movimentos dos planetas, do Sol e da Lua ao longo da coroa de círculo celeste denominada Zodíaco interferem na vida na Terra, na erupção de revoluções ou contra-revoluções em tal ou tais países, na avaria dos motores de um avião em voo e subsequente queda, nos fluxos económicos e migratórios, na saúde e na doença de cada organismo humano, animal ou vegetal, etc; logo, impõe-se estudar o movimento dos astros em conexão com os factos reais, biofísicos e sociais, isto é, impõe-se investigar e construir a astrologia histórico-social.

 

REFUTAÇÃO DA TEORIA DA ENTROPIA OU CAOS FINAL DERIVADO DO SEGUNDO PRINCÍPIO DA TERMODINÂMICA

 

 

A dialética, enquanto defensora do curso perpétuo das coisas em devir e luta de contrários, impõe um certo optimismo teórico. O pessimismo que impregna a teoria da entropia como estado final do universo, que inexoravelmente se aproxima, é considerado uma ideologia da burguesia. A classe operária, que o materialismo dialético pretende representar no plano social e científico, tem de sustentar um ponto de vista heraclitiano de devir, em que à destruição se suceda a criação, à entropia e desordem celular da velhice suceda a neguentropia e ordem celular da infância e da juventude.

 

 «A termodinâmica (do grego Therme, calor, e dynamis, força) é o ramo da física que estuda as leis da energia calorífica e das relações entre o calor e outros tipos de energia. Baseia-se em dois princípios originariamente deduzidos de experiências, mas que agora se consideram axiomas. O primeiro é a lei da conservação da energia, que assume a forma de lei da equivalência de calor e trabalho. O segundo sustenta que o calor não pode passar de um corpo mais frio a outro mais quente sem mudanças em algum outro corpo». (...)

«Em geral, interpreta-se a entropia como uma tendência geral para a desorganização.» (....) «Segundo a segunda lei da termodinâmica, os átomos, sem nenhuma intervenção intervenção externa, misturar-se-ão e desordenar-se-ão entre eles tanto quanto seja possível

 (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pags 193, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é posto por mim )

 

«Nos últimos anos, a interpretação pessimista da segunda lei foi desafiada por uma teoria totalmente nova (...).

«A termodinâmica afirma que as coisas deixadas à sua sorte, tendem a um incremento da entropia. Nos anos 60, Ilya Prigogine e outros deram-se conta que, no mundo real, átomos e moléculas quase nunca estão "deixados à sua sorte".  Todas as coisas afectam todas as coisas. Átomos e moléculas estão quase sempre expostos ao fluxo de energia e material do exterior, que se é suficientemente forte pode dar a volta parcialmente ao processo aparentemente inexorável de desordem desenhado na segunda lei da termodinâmica(....)  A madeira apodrece, mas também crescem as árvores. Segundo Prigogine, as estruturas que se organizam por si mesmas encontram-se por todas as partes da natureza. De igual maneira, M. Waldrop chega à seguinte conclusão:

 

«Um láser é um sistema que se auto-organiza em que as partículas de luz, fotões, podem agrupar-se espontaneamente num só feixe potente que tem todos os fotões a mover-se prietas las filas. Um furacão é um sistema que se auto-organiza fortalecido pela corrente constante de energia que vem do Sol, que dirige os ventos e obtém dos oceanos a água para a chuva. Uma célula viva (ainda que muito mais complicada de analisar matematicamente) é um sistema que se auto-organiza, que sobrevive tomando energia em forma de comida e excretando energia em forma de calor e desperdícios. » (M. Waldrop, Complexity, páginas 33-34)

 

«Por toda a natureza observamos modelos de comportamento. Uns são ordenados e outros são desordenados. Há decadência, mas também há crescimento. Há morte, mas também há vida. (...) A segunda lei assegura que tudo na natureza tem um bilhete só de ida para a desordem e a decadência. Sem embargo, isto não quadra com os modelos gerais que podemos observar. » (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pags 196-197; Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

 

 

A existência de ordem sob a aparência do caos, uma ordem que assenta em pares de contrários, agrupados segundo uma dualidade que Mao Ze Dong designava como a contradição principal, é um dos traços da dialética materialista. Isso é patente no "relógio químico".

 

«Durante muito tempo considerou-se a turbulência como sinónimo de desordem e caos. Mas agora descobriu-se que o que parece ser simplesmente desordem caótico no nível macroscópico está de facto altamente organizado no microscópico

«Hoje em dia, o estudo das instabilidades químicas converteu-se em algo comum. Especialmente interessantes são as investigações feitas em Bruxelas sob a direção de Ilya Prigogine. O estudo do que sucede mais além do ponto crítico em que começa a instabilidade química tem enorme interesse para a dialética. O fenómeno do "relógio químico" é especialmente importante. O modelo de Bruxelas (chamado braselator pelos cientistas norte-americanos) descreve o comportamento das moléculas de gás. Suponhamos que há dois tipos de moléculas, vermelhas e azuis, num estado caótico, movendo-se completamente ao acaso. Poderia supor-se que, chegados a um dado ponto, teríamos uma distribuição irregular das moléculas, produzindo uma cor roxa, com lampejos ocasionais de vermelho e azul. Mas num relógio químico isto não sucede além do ponto crítico. O sistema é todo azul ou todo vermelho, e a mudança de cor ocorre com intervalos regulares

«"Tal grau de ordem surgindo da actividade de milhares de milhões de moléculas parece incrível" dizem Prigogine e Stengers, "e, de facto, se não se houvesse observado relógios químicos ninguém acreditaria que um processo desse tipo fosse possível. Mas ao mudar de cor todas ao mesmo tempo, as moléculas devem ter uma maneira de "comunicar" entre si. O sistema tem que actuar como um todo. Voltaremos repetidamente a esta palavra chave, comunicar, que tem uma importância evidente em tantos campos, da química à neurofisiologia. As estruturas dissipativas introduzem provavelmente um dos mecanismos físicos mais simples de comunicação."

«O fenómeno de comunicação demonstra que, chegados a um ponto determinado, a ordem pode surgir espontaneamente do caos. Esta é uma observação importante, especialmente no relativo a como da matéria inorgânica surge a vida.» (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pags 199, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é posto por mim )

 

 

O TODO, MAIS QUE A SOMA DAS PARTES, E A TEORIA DO CAOS

 

A lei do Uno, segundo a qual no universo as múltiplas coisas e determinações se relacionam entre si formando um imenso Uno, é a primeira lei da dialética materialista.  

 

«Segundo a lógica formal, o todo é igual à soma das partes. Sem embargo, examinando isto mais atentamente vemos que isto não está certo. No caso dos organismos vivos, claramente não está. Um coelho destroçado em um laboratório e reduzido às suas partes constituintes deixa de ser um coelho! Os defensores da teoria do caos e da complexidade compreenderam-no. Enquanto a física clássica, com os seus sistemas lineares, aceitava que o todo era exactamente a soma das partes constituintes, a lógica não linear da complexidade mantém a afirmação contrária, completamente de acordo com a dialética.(Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag 73, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

É na noção de uno, de todo, que assenta a "teoria do caos", que alguns definem como a intercomunicação e da ocorrência simultânea ou quase simultânea de fenómenos que, aparentemente, nada têm a ver entre si. Para Woods e Grant a teoria do caos é algo diferente.

 

«A teoria do caos trata de processos da natureza que aparentemente são caóticos ou casuais. » (...)

«Demonstrou-se que processos naturais que antes se consideravam aleatórios têm umas leis internas no sentido científico, implicando causas deterministas. (...) Quando um bloco de metal se magnetiza, entra em um "estado ordenado" no qual todas as suas partículas apontam num mesmo sentido. Podem orientar-se num sentido ou noutro. Teoricamente, é "livre" de orientar-se em qualquer direção. Na prática, cada pequena peça de metal toma a mesma "decisão".».

«Um cientista do caos desenvolveu as regras matemáticas que descrevem as regras da "geometria fractal" de uma folha da samambaia de asplénio negro. Meteu toda a informação num computador que também tem um gerador casual de números e está programado para criar um desenho utilizando pontos casualmente colocados no ecrã. À medida que progride a experiência, é impossível antecipar onde aparecerá cada ponto. Mas infalivelmente aparece a imagem da folha de samambaia.» (...)

 

«O ponto de vista marxista estabelece que todo o universo, toda a realidade, se baseia em forças e processos materiais. A consciência humana é, em última instância, somente um reflexo do mundo real que existe fora dela, um reflexo baseado na interação física entre o corpo humano e o mundo material. No mundo material não há descontimuidade, não há interrupção na interconexão física de acontecimentos e processos. Por outras palavras, não resta nenhum espaço para a intervenção de forças metafísicas ou espirituais. O materialismo dialético, disse Engels, é a ciência da interconexão universal.» (...)

«A teoria do caos representa indubitavelmente, um grande avanço, mas também possui certas formulações questionáveis. O famoso efeito mariposa segundo o qual uma borboleta bate as suas asas em Tóquio e provoca uma tormenta na semana seguinte em Chicago, é sem dúvida um exemplo sensacional pensado para provocar controvérsia. Mas formulado assim é incorrecto. As mudanças qualitativas só podem dar-se como resultado de uma acumulação de mudanças quantitativas. Uma mudança pequena, acidental (uma mariposa batendo as asas) só pode produzir um resultado dramático se todas as condições para uma tormenta já estivessem dadas. Neste caso, a necessidade exprime-se através do acidente. Mas só neste caso.»

(Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pags 151-152, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

 

  

 

A TEORIA DA RELATIVIDADE DE EINSTEIN

 

A posição do materialismo dialéctico, exposta neste livro, é a de que a teoria da relatividade de Einstein é, globalmente, científica mas com lacunas que são fonte de inúmeras interpretações metafísicas anticientíficas como a existência simultânea de múltiplos tempos diferentes e de universos paralelos simultâneos. 

 

«Albert Einstein foi indubitavelmente um dos grandes génios do nosso tempo. Completou uma revolução científica entre a idade de 21 e 38 anos de idade, com profundas repercussões a todos os níveis. Os dois grandes avanços foram a teoria da relatividade especial (1905) e a teoria da relatividade geral (1915). A primeira estuda as grandes velocidades, a segunda a gravidade (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», Fundación Frederico Engels, Madrid), pags 165; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

«Massa e energia não são simplesmente «intercambiáveis», como se podem trocar pesetas por dólares. São a mesma substância que Einstein caracterizou como "massa-energia". Esta ideia é muito mais profunda e vai muito mais além do velho conceito mecânico no qual, por exemplo, a fricção se transforma em calor. Aqui a matéria é somente uma forma concreta de energia "condensada" e toda outra forma de energia (luz incluída) tem uma massa associada. Por isso é totalmente incorrecto dizer que a matéria "desaparece" quando se transforma em energia.

«As leis de Einstein retiraram da cena a velha lei da conservação da massa, elaborada por Lavoisier, que diz que a matéria, entendida como massa, não se pode criar nem destruir. De facto, toda a reacção química que liberta energia converte uma pequena quantidade de massa em energia.»(Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pags 186-189, Fundación Frederico Engels, Madrid;  o destaque a negrito é da minha autoria)

  

Sabe-se que Kant sustentou que o espaço vazio é possível, a priori, existe como estrutura do sujeito e que Aristóteles negou o espaço vazio.

 

«Einstein demonstrou que a geometria euclidiana só se aplicava ao "espaço vazio", uma abstração ideal. Na realidade, o espaço não é "vazio". O espaço é inseparável da matéria. Einstein manteve que o próprio espaço está condicionado pela presença de corpos materiais. Na sua teoria geral, essa ideia exprime-se pela afirmação aparentemente paradoxal de que próximo de corpos pesados o espaço se "encurva".

«O universo real, quer dizer, material não é como o mundo da geometria euclidiana, com círculos perfeitos, linhas absolutamente rectas, etc. O mundo real está cheio de irregularidades. Não é recto, mas precisamente "torcido". Por outro lado, o espaço não é algo que existe aparte e separado da matéria. A curvatura do espaço é só outra maneira de exprimir a curvatura da matéria que "enche" o espaço. Por exemplo demonstrou-se que os raios de luz dobram-se sob a influência dos campos gravitacionais dos corpos espaciais.»

«Na realidade, a ideia que devemos sempre ter em mente é a unidade indissolúvel do tempo, espaço, matéria e movimento. » (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», Fundación Frederico Engels, Madrid), pags 169-170; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

E no que se refere ao combate entre a teoria da ordem - a relatividade - e a teoria da desordem - a mecânica quântica - lemos:

 

«Durante a maior parte do século (XX), a física esteve dominada por duas teorias imponentes: a relatividade e a mecânica quântica. O que em geral não se compreende é que ambas são incompatíveis. A teoria da relatividade não leva nada em conta o princípio da incerteza. Einstein passou a maior parte dos últimos anos da sua vida a tentar resolver essa contradição, mas não o conseguiu.»

«A teoria da relatividade foi revolucionária, como o foi no seu tempo a mecânica newtoniana. Sem embargo, o destino de estas teorias é converter-se em ortodoxias, sofrer uma espécie de arterioesclerose até que já não são capazes de responder às perguntas que a marcha da ciência faz surgir.» (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag. 190-191, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

 

A GRAVIDADE NÃO É UMA FORÇA 

 

 

A gravidade é definida na física actual como uma das quatro forças fundamentais. A gravidade ou força gravitacional força atractiva que mantém unido o sistema solar e evita a explosão das estrelas é  a mais fraca das quatro forças mas aquela que se exerce numa maior vastidão. sendo a sua magnitude relativa de 10 e o seu mediador o gravitão, partícula de massa nula.As outras três são:

 

A)  Força nuclear forte, interacção entre os quarks e os gluões com  um curtíssimo raio de acção de dez elevado à potência menos treze, que mantém coeso o núcleo de cada átomo, mantendo os protões unidos entre si, por serem compostos de quarks, vencendo a força repulsiva entre os protões, e mantém unidos os neutrões, compostos de quarks, no núcleo de cada átomo.

 

B) Força nuclear fraca, que cinde as partículas e constitui, por exemplo, a radioactividade - ou desintegração de um núcleo instável de urânio com emissão de partículas alfa, beta, radiações electromagnéticas de alta frequência gama e poeiras até que o núcleo fique estável - e provoca o calor desenvolvido pelo núcleo de um reactor de energia nuclear gerador de electricidade sendo os  seus mediadores  os bosões W e Z e sendo a sua magnitude relativa dez elevado à potência 29. Juntamente com o electromagnetismo constitui a força electrofraca.

 

C) Electromagnetismo que, na Terra, é, por vezes, suficientemente forte para se sobrepor à gravidade e inclui a luz, as ondas de rádio e televisão,  microcondas, raios X, radar, baseado na transmissão dos fotões. A sua magnitude relativa é dez elevado à potência de 39,  o mediador é o fotão. O campo magnético é o resultado de uma corrente eléctrica.

 

Interessante é notar como a visão dialética encara a gravidade: Woods e Grant dizem que ela não é uma força de sentido unívoco, mas o resultado de uma luta de forças. Se é certo que a Terra atrai qualquer corpo livre no ar - um homem, um avião sem combustível ou sem motores a funcionar, etc - não é menos certo que estes corpos exercem uma atração ínfima sobre a Terra.

 

 «A gravidade não é uma força mas uma relação entre objectos reais. A um homem que cai de um edifício muito alto parece que a Terra "se lhe lança em cima.» Do ponto de vista da relatividade, esta observação não é incorrecta. Só adotando o conceito mecânico e unilateral de "força" veremos este processo como a gravidade da Terra atraindo o homem para baixo, em lugar de ver que é uma interação entre dois corpos. Para condições normais, a teoria da gravidade de Newton está de acordo com Einstein. Mas em condições extremas, estão em completo desacordo. A teoria geral da relatividade contradiz a teoria de Newton da mesma maneira que a dialética contradiz a lógica formal.» (...)

«As propriedades de um objecto não são o resultado das suas relações, mas só se podem manifestar nas suas relações com eles.» (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag Fundación Frederico Engels, Madrid), ; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

ESPAÇO E TEMPO SÃO REALIDADES, O TEMPO É PROPRIEDADE OBJECTIVA DA MATÉRIA

 

Uma das teses do materialismo dialéctico é a de que o tempo é inerente à matéria, é uma propriedade da matéria: esta não está no tempo como se estivesse num meio exterior a ela, como se fosse um acidente do tempo, mas é o inverso. O tempo é um acidente intrínseco ou essencial da matéria.

 

«Espaço e tempo são abstrações que nos permitem medir e compreender o mundo material. Toda a medição está referida ao espaço e ao tempo.

«O tempo só pode exprimir-se de maneira relativa, do mesmo modo que a grandeza valor de uma mercadoria só se pode exprimir em relação com outras mercadorias. Sem embargo, o valor é intrínseco às mercadorias e o tempo é uma característica objectiva da matéria. A ideia de que o tempo é subjectivo, isto é, uma ilusão da mente humana, é uma reminiscência do preconceito de que o dinheiro é meramente um símbolo, sem significado objectivo. Cada vez que se tentou pôr em prática a ideia de "desmonetarizar" o ouro, que partia desta falsa permissa, provocou-se inflação.» (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag 174, Fundación Frederico Engels, Madrid); o destaque a negrito é da minha autoria).

 

 

O tempo absoluto, ou tempo em si mesmo, abarcando a cada instante a totalidade do universo, é um postulado do materialismo dialético.

 

«A teoria da relatividade implica uma contradição. Pressupõe que a simultaneidade é relativa a um sistema de referência. Se um sistema de referência se está a mover em relação a outro, então os acontecimentos que são simultâneos no primeiro não o são no segundo e vice-versa. Este facto, que não encaixa no senso comum, foi demonstrado experimentalmente. Desgraçadamente pode levar a uma interpretação idealista do tempo, por exemplo com a afirmação de que pode haver uma variedade de "presentes". E mais, pode considerar-se o futuro como coisas e processos que "passam a ser", como sólidos quadridimensionais que têm um "segmento temporal".»

«A não ser que se resolva esta questão, podem cometer-se todo o tipo de erros: por exemplo, a ideia de que o futuro já existe e que se materializa no "agora" da mesma maneira que uma rocha submersa irrompe de repente quando uma onda rompe contra ela. (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag. 178-179, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

Depois de se demarcarem dos filósofos do processo (dialético) Alfred North Whitehead, britânico, e Henry Bergson, intuicionista francês, que "acreditavam que o fluxo do tempo era um facto metafísico que só se podia compreender com intuição não científica" mas apesar deste misticismo «tinham razão em afirmar que o futuro é indeterminado e o passado é imodificável, fixo e determinado.» Woods e Grant escrevem:

 

«Por outro lado, temos os filósofos da "multiplicidade", que sustentam que os acontecimentos  futuros podem existir, mas que não estão suficientemente ligados por leis aos do passado. Adoptando um ponto de vista filosoficamente incorrecto sobre o tempo acabamos no puro misticismo, como a noção de "multiverso" - um número infinito de universos (se esta é a palavra correcta, já que não existem no espaço "tal como o conhecemos" - paralelos que existem simultaneamente ( se esta é a palavra correcta, já que não existem no tempo "tal como o conhecemos" 9. Este tipo de confusão é a que surge da interpretação idealista da relatividade.» (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag. 179, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

 

OBJEÇÕES AOS BURACOS NEGROS E À RALENTIZAÇÃO DO TEMPO

 

 

A teoria dos buracos negros no universo, segundo a qual o buraco negro é o que resta da explosão em raios gama de uma estrela (supernova) na qual o núcleo se foi reduzindo, por falta de combustível, sugando tudo o que podia, foi defendida por Penrose e Stephen Hawking, usando equações matemáticas.

Roger Penrose descreveu assim o buraco negro:

 

«Que é um buraco negro? Para efeitos astronómicos comporta-se como um pequeno e muito condensado "corpo" escuro. Mas não é um corpo material no sentido normal da palavra. Não é uma superfície ponderável. Um buraco negro é uma região de espaço vazio (ainda que estranhamente distorcido) que actua como centro de atração gravitacional. Houve um tempo em que um corpo material esteve ali. Mas o corpo contraiu-se sob a pressão da sua própria gravidade. Quanto mais se concentrava o corpo sobre o seu centro, mais forte se fazia o seu campo gravitacional e mais incapaz era o corpo de impedir um colapso ainda maior. Num dado momento alcançou-se um ponto de não retorno e o corpo desapareceu dentro do seu " horizonte absoluto de sucessos". (....) «A região interna, na qual o corpo caíu, define-se pelo facto de que nenhuma matéria, luz ou sinal de qualquer tipo pode escapar dela, enquanto que na região externa ainda é possível que sinais ou partículas materiais escapem para o mundo exterior. A matéria que colapsou formando o buraco negro contraiu-se até alcançar densidades incríveis, aparentemente foi inclusivamente espremida até deixar de existir, atingindo o que se conhece como uma "singularidade espaço-tempo", um lugar no qual as leis físicas, tal e como as entendemos actualmente, não vigoram.» Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag. 226, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

Escrevem Woods e Grant:

«Se existem os buracos negros, e isto não está definitivamente demonstrado, tudo o que haveria no centro seriam os restos colapsados de uma estrela gigante, não outro universo. Qualquer pessoa real que entrasse seria imediatamente feita em pedaços e convertida em energia pura. (...) Toda a ideia de "viagem no tempo" inevitavelmente acaba numa massa de contradições, não dialéticas mas absurdas.»

 

Woods e Grant discordam da ideia de Einstein segundo a qual quem viajasse a uma velocidade próxima da velocidade da luz (300 000 quilómetros/ segundo) escaparia ao avançar do tempo na Terra, isto é, não envelheceria praticamente e se voltasse à Terra após algum tempo nessa viagem, já teriam passado 1000 ou 10 000 anos no nosso planeta.

 

« Fizeram-se experiências com partículas subatómicas (muões) que indicam que as partículas que viajam a 99,5% da velocidade da luz prolongam a sua vida umas 30 vezes, exactamente o que predisse Einstein. Mas está por ver se estas conclusões se podem aplicar à matéria em grande escala e, em concreto, à matéria viva. (...) No futuro, podem ser possíveis viagens espaciais a grande velocidade, talvez a um décimo da velocidade da luz. A essa velocidade uma viagem de cinco anos luz tardaria cinquenta anos (ainda que segundo Einstein, seriam três meses para os viajantes).»  (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag. 183, Fundación Frederico Engels, Madrid; o destaque a negrito é da minha autoria)

 

A MATEMÁTICA NÃO DEVE SER O MODELO PARA EXPLICAR A GÉNESE E A REALIDADE DO UNIVERSO

 

 

A matemática postula o infinito, nas suas duas versões - mais infinito e menos infinito - mas Aristóteles, filósofo grego bastante fecundo para o materialismo dialéctico,  sustentava que o infinito só existe em potência, não em acto. Daí que a matematização do cosmos e da sua evolução seja discutível, se ultrapassar certos limites. O modelo ideal racional consubstanciado na matemática, em particular na geometria euclidiana,

 

«Einstein está morto e portanto é incapaz de fazer qualquer comentário sobre esta particular interpretação das suas teorias. De facto, nos seus escritos, não há uma só referência ao big bang, aos buracos negros e demais. O próprio Einstein, apesar de inicialmente tender para o idealismo filosófico, opôs-se implacavelmente ao misticismo na ciência. Passou as últimas décadas da sua vida lutando contra o idealismo subjectivo de Heisenberg e Bohr, e de facto acercou-se bastante de uma posição materialista. » (Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag 228, Fundación Frederico Engels, Madrid); o destaque a negrito é da minha autoria)

 

 

O materialismo dialético rejeita a teoria do Big Bang defendido por Hawking e outros. Critica sobretudo, a demonstração matemática da realidade física do cosmos feita por Stephen Hawkings e outros supostos herdeiros de Einstein:

«O problema é se a premissa inicial é correcta ou não. Este é o problema central de toda a matemática, e a sua principal debilidade. E toda esta teoria se baseia principalmente na matemática:

 

«"No tempo que denominamos big bang .." mas se não havia tempo, como nos podemos referir a ele como "o tempo"? Postula-se que o tempo começou nesse ponto. Então, o que havia antes do tempo? Um tempo no qual não havia tempo! A contradição desta ideia é evidente. Tempo e espaço são o modo de existência da matéria. Se não havia tempo, nem espaço, nem matéria, que havia? Energia? Mas a energia, como explica Einstein, é só outra manifestação da matéria. Um campo de força? Mas um campo de força também é energia, com o que não resolvemos nada. A única maneira de nos livarmos do tempo é se antes do big bang não havia...nada

«O problema é: como é possível passar de nada a algo? Se uma pessoa é religiosa, não há problema. Deus criou o universo do nada. Esta é a doutrina da Igreja Católica, a criação ex nihilo. Hawking dá-se conta disso, o que resulta bastante incómodo,como evidencia o seguinte parágrafo:

«Muita gente não gosta da ideia de o tempo tenha um princípio, provavelmente porque soa a intervenção divina. (A Igreja Católica, pelo contrário, apropriou-se do modelo do big bang e em 1951 proclamou oficialmente que estava de acordo com a Bíblia)».

(Alan Woods e Ted Grant, «Razón y revolución, Filosofia marxista y ciencia moderna», pag 229, Fundación Frederico Engels, Madrid); o destaque a negrito é da minha autoria)

 

  

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Terça-feira, 3 de Abril de 2012
Astrologia Desportiva: é possível a previsão fundada de quem será campeão nacional da Liga Sagres em 13 de Maio de 2012?

 

É possível a previsão astrológica séria, fundada em estatísticas fiáveis, sobre quem se sagrará campeão nacional de futebol da Liga Sagres em 13 de Maio de 2012? É.

 

Em 13 de Maio de 2012, data da jornada 30 e última da Liga Sagres, Vénus estará em 23º do signo de Gémeos, isto é, no grau 83º de longitude eclíptica ou zodiacal ( o signo de Carneiro vai de 0º a 30º da eclíptica, o signo de Touro é o "arco" de 30º a 60º, o signo de Gémeos é o arco de 60º a 90º, o signo de Caranguejo é o arco de 90º a 120º do Zodíaco, etc) . Sem carácter exaustivo - e isto é uma falha de investigação - recolhi alguns dados astronómicos ligados à presença de Vénus, e também de Mercúrio, na área 23º-26º do signo de Gémeos, que se conexionam com vitórias do Futebol Clube do Porto.

 

ÁREA 23º-26º  DE GÉMEOS:

 

F.C.PORTO

 

 

 

Em 27 de Maio de 1987, com Mercúrio em 25º -26º  de Gémeos, o F.C. Porto conquista a Taça dos Campeões Europeus ao vencer, por 2-1, o Bayern de Munique em Viena de Áustria; em 26 de Maio de 2004, com Vénus em 24º  de Gémeos,  o FC Porto é campeão europeu ao vencer o Mónaco por 3-0; em 16 de Maio de 2010, com Vénus em 25º- 26º  de Gémeos, o FC Porto conquista a Taça de Portugal ao vencer por 2-1 o Chaves; em 15 de Maio de 2011, com Nodo Sul da Lua em 23º  de Gémeos, realiza-se a 30ª jornada da Liga Sagres de Futebol em que o FC Porto é campeão com 21 pontos de avanço sobre o Benfica. 

 

Por conseguinte, sem carácter de infalibilidade, porque não estou a considerar muitos outros ciclos planetários, a minha previsão é: o FC Porto será, provavelmente, o campeão nacional em 13 de Maio de 2012, dia em que Vénus estará em 23º de Gémeos

Mesmo que falhe a previsão, o que importa é que estou a mostrar que há um método indutivo, científico - ou paracientífico, de base estatística - para calcular os acontecimentos desportivos e outros. Assim, reduzo ao silêncio a multidão imensa dos cretinos licenciados, mestres ou doutorados em filosofia, em física, em astronomia, em matemática, em sociologia ou em história que, ignorantes na matéria mas arrogantes, proclamam que «a astrologia não pode ser ciência, porque não há influência real e testável dos longínquos planetas na vida humana, e o determinismo astral sobre a vida humana é uma fantasia». 

 

A astrologia pode ser ciência, sim, se se tratar de Astrologia Histórico-Social, fundada em factos histórico-astronómicos, construída do modo que aqui ilustro. Pesquisei e sintetizei dezenas de milhar de dados que integram regularidades/ leis astronómico-sociais e muitos deles já os publiquei. Para quem estiver atento  e aberto à reflexão incondicionada.

 

Nietzschze escreveu:

«285- Os maiores acontecimentos e os maiores pensamentos - mas os maiores pensamentos são os maiores acontecimentos - são os que mais tarde se compreendem : as gerações que lhes são contemporâneas, não vivem esses acontecimentos - passam por eles. Acontece aqui algo de análogo ao que se observa no domínio dos astros. A luz das estrelas mais distantes chega mais tarde aos homens; e antes da sua chegada, os homens negam que existam lá - estrelas. «Quantos séculos precisa um espírito para ser compreendido?» - aí está também uma medida, um meio de criar uma hierarquia e uma etiqueta necessárias: para o espírito e para a estrela.» (Nietzschze, Para além do bem e do mal).

 

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Sexta-feira, 30 de Março de 2012
Questionar Irene Borges-Duarte: em Kant, o "quê" da acção está fora da ética?

 

Citando  a fórmula do imperativo categórico de Kant «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal.», Irene Borges-Duarte, professora da Universidade de Évora, tece as seguintes considerações:

 

 «Pode haver maior "formalismo" que o que este princípio ético, aqui reproduzido na fórmula crítica mais pregnante, enuncia? (...)

«Em primeiro lugar: a forma verbal do imperativo obriga a um compromisso. Estranho compromisso com...coisa nenhuma. Nesta formulação, parece faltar toda a matéria a que se aplique, toda a referência a objetos, a situações, a qualquer tipo de mediações com a realidade da vida. Não é uma norma de prudência, de justiça ou de equidade ante uma solicitação ou causa prévia. Não deixa supor que a acção, de que é nela questão, tenha um qualquer motivo, que a peça ou impulse. O compromisso que é exigido não é, com efeito, o de um "quê", mas de um "como" (so, dass...) "de tal modo que..". Ao deixar em aberto a questão do "quê" , a lei geral de todo o agir, a que qualquer máxima subjetiva deve subordinar-se formalmente, parece abandonar o agente a uma real desorientação na esfera do fáctico e vivencial. Na verdade, nem se indica uma meta a perseguir, nem se codifica o que deva ser feito, nem se desenha uma doutrina, cujos claros ditames possam ser seguidos. »

 

( Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 844-845; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Compromisso com coisa nenhuma? Não. Discordo de Irene Borges-Duarte.  Há, de facto, um compromisso não explícito na fórmula do imperativo categórico acima explanada, um compromisso duplo: compromisso com a máxima, ou seja, com o princípio moral concreto, subjetivo, que norteia cada pessoa; compromisso com a humanidade em geral, através da equidade (universalizar a regra de tratar os outros, por exemplo: não favorecer os filhos dos ricos em relação aos filhos dos pobres, mas tratar todos por igual, no premiar ou no castigar).

 

Também não é fundado sustentar que o imperativo categórico "não é uma norma de prudência, de justiça ou de equidade ante uma solicitação ou causa prévia". O imperativo categórico é, devido à sua circularidade formal - o sujeito como centro da circunferência composta por todos os outros membros da humanidade - uma norma de justiça e de equidade ante a causa prévia que é a existência de uma máxima em cada sujeito (exemplos: «A minha máxima é produzir filmes sobre espécies animais em risco e mostrá-los aos alunos», «A minha máxima é procurar informar-me e informar alguns sobre a emigração») e de um público universal, que é o alvo e paciente do imperativo categórico. 

 

Não é também defensável dizer que no imperativo kantiano «nem se indica uma meta a perseguir, nem se codifica o que deva ser feito». A meta é a humanidade, o reino dos fins, que é o conjunto de todos os seres humanos postos numa base igualitária de direitos e deveres. O código é: universalizar a máxima ou lei moral subjetiva, fazê-la incidir sobre todos os homens do mesmo modo que sobre si mesmo.

 

Escreveu ainda a catedrática da Universidade de Évora:

 

«Voltamos, pois, ao já dito: "ética" é a forma, não a matéria da ação, é o "como", não o "quê".  (Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 847).

 

Não é uma formulação correcta, dialéctica, esta que Irene Borges-Duarte explana. Dialética significa: um divide-se em dois. Para Kant, a ética é a forma universalista do imperativo categórico adicionada do conteúdo material de cada máxima pessoal. Por exemplo, a ética do indivíduo A é: «Defendo que todas as pessoas devem ter o direito a usar uma arma de fogo de defesa pessoal, já que a minha máxima sempre foi essa, a de ter uma arma em casa.». A ética do indivíduo B é: «Defendo que todos os cidadãos comuns, não membros dos corpos militares e policiais, não devem ter direito a possuir armas de fogo de defesa pessoal, do mesmo modo que eu não possuo estas.»

 

Se a ética não englobasse a matéria da acção, seria a mesma em todos os indivíduos e o imperativo categórico perderia o seu carácter autónomo, variável de pessoa a pessoa autora da lei moral. A máxima, isto é, a peculiaridade de cada um nos valores e ideias directrizes da acção (causa formal, na perspectiva aristotélica), é um dos ingredientes da ética kantiana, é uma das torres do imperativo categórico, sendo as outras duas torres a universalização equitativa (causa eficiente) e a humanidade em geral (causa final, no sentido aristotélico). 

 

A FALÁCIA DO "TEM DE SER" DIFERENTE DO "DEVO FAZER" 

 

Irene Borges Duarte salienta ainda uma suposta diferença entre "dever" ou "devo fazer» e "ter de ser" como se este último fosse extrínseco ao "dever", o que é uma falácia:

 

«A segunda questão a atender consiste, justamente, em que Kant vai investir a expressão do "dever" imperativo, anteriormente enunciado, e que ele próprio no contexto pragmático das máximas de uso quotidiano, considera ser habitualmente "hipotético", num categórico ter de, cuja obrigatoriedade parece mais próxima de determinismo natural - a necessária sequência de tal efeito a tal causa - que da livre intervenção da vontade. (...) A mesma força constringente da "natureza" da nossa razão ordena e obriga, num caso, a agir (domínio práxico), no outro a conhecer (domínio teórico) algo como objecto da experiência. Mas em ambos casos, tem de ser assim!»

«.. O dever-ser torna-se de assertórico em categórico. " Tem de se poder querer que uma máxima da nossa acção se torne uma lei universal: tal é o canon para julgar moralmente em geral, o critério do juízo moral (...)

«O dever obriga pois como um ter de ser: converte-se num " não poder não querer" o fim adequado à pura racionalidade. Só desse modo, a razão pura se afirma, assim, como intrinsecamente prática.» (Irene Borges-Duarte, O homem como fim em si? De Kant a Heidegger e Jonas, in Revista Portuguesa de Filosofia, volume 61, pág. 846-847; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Em todo o dever há um ter de ser, que é o seu aspecto imperativo ou prescritivo, e um "ser quê", que é o seu aspecto descritivo ou conteudal. Separar o "dever" do "ter de ser" só pode ser feito neste sentido de separar a ordem dada, do conteúdo informativo dessa ordem. É isso que Irene Borges-Duarte não clarifica. O dever não se converte num "não poder não querer": ele já é, na sua génese, um "não poder não querer".

Na verdade, dizer, por exemplo, ao ver uma situação de atropelamento «Tens de ligar já ao 112 para vir buscar aquele ferido que está ali na estada, caído e inanimado» é o mesmo que dizer «Deves ligar já ao 112 para vir buscar aquele ferido que está ali na estada, caído e inanimado». Não há diferença entre o ter de e o deves, enquanto imperativo.

 

Não me parece correcta a asserção acima explanada: «A mesma força constringente da "natureza" da nossa razão ordena e obriga, num caso, a agir (domínio práxico), no outro a conhecer (domínio teórico) algo como objecto da experiência. Mas em ambos casos, tem de ser assim!» ». O conhecer, como objecto da experiência, não é um mecanismo formal necessário, é uma apreensão da máxima isto é do princípio subjectivo moral existente em cada indivíduo. Ora este princípio é contingente, é variável de pessoa a pessoa e repousa no sentimento ou na racionalidade senciente - tese que Kant não perfilha nem desenvolve, o que põe em evidência a fraqueza da sua doutrina, como muito bem apontou no século XX Max Scheler, o grande teórico alemão da ética material de valores a priori. Por conseguinte, em ambos os casos não tem que ser assim, ao contrário do que diz Irene Borges-Duarte. A razão não prescreve a máxima, recebe-a e universaliza-a. A máxima não tem que ser assim, é uma escolha (sentimental) de cada indivíduo.

 

Por outro lado, - aspecto que Irene Borges-Duarte não aborda - o "tem de ser" não é exclusivo do imperativo categórico: está presente no imperativo hipotético, ao qual subjaz o determinismo natural que condiciona o corpo e o conforto material de que necessita. Exemplo do imperativo hipotético do vendedor de enciclopédias: «Tens de vender o maior número de enciclopédias possível às pessoas porque tens as prestações da casa e do carro e a alimentação a pagar, para sobreviveres, e tens de persuadir as pessoas de que necessitam de comprar essas enciclopédias, mesmo que o conteúdo destas não ofereça a qualidade necessária e de nada sirva aos compradores, que são para ti meios de enriqueceres e sobreviveres.»

 


 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
Heidegger acusou, sem base, Kant de encobrir o «ser no mundo» do sujeito

 

«O Ser e o Tempo», essa "bíblia" da fenomenologia, escrita por Heidegger, é um livro de dupla face: nele, ideias e raciocínios brilhantes juntam-se a paralogismos e equívocos de que o grande público, e mesmos os especialistas em Heidegger, não se dão conta. Escreveu Heidegger:

 

« Antes de tudo, há que advertir que Kant usa o termo "existência" para designar a forma de ser que na presente investigação se chama "ser diante dos olhos". (...)

«O simples facto de que Kant peça uma prova da "existência das coisas fora de mim" mostra que põe o ponto de apoio do problema no sujeito, no "em mim". Consequentemente, desenvolve-se a própria prova partindo da mudança dada empíricamente em mim. »

«Pois só em mim é experimentado o tempo que suporta a prova. O tempo é quem dá o apoio para o salto demonstrativo do "fora de mim". (...)

«O que prova Kant - concedida a legitimidade da prova e da sua base - é o necessário "ser diante dos olhos juntamente" um ente mutável e um ente permanente. Mas a coordenação dos entes "diante dos olhos" nem sequer quer dizer já "o ser diante dos olhos juntamente" um sujeito e um objeto. E uma vez provado isto, continuaria encoberto o ontologicamente decisivo: a estrutura fundamental do "sujeito", do "ser aí"  como "ser no mundo". O "ser diante dos olhos juntamente" o físico e o psíquico é ôntica e ontologicamente em toda a linha distinto do fenómeno do "ser no mundo"».

(Heidegger, El Ser y el tiempo, pag. 224-225, Fondo de Cultura Económica) 

 

Contrariamente ao que Heidegger afirma, Kant não ocultou a estrutura do sujeito como "ser no mundo". Kant sustentou que o sujeito é o criador ou co-criador do mundo fenoménico, das paisagens terrestres e celestes e seus objetos materiais, e que não existe um dualismo ontológico rigoroso entre sujeito e objeto fenoménico:

 

«Esta hipótese de união entre duas substâncias, a pensante e a extensa, tem por fundamento um dualismo grosseiro e transforma estas substâncias, que são meras representações do sujeito pensante, em coisas subsistindo por si. Pode-se, pois, demolir a falsa concepção da influência física, mostrando que o fundamento da sua prova é nulo e fictício.»

«O famoso problema do que pensa e do que é extenso acabaria assim, se fizermos abstração de tudo o que é imaginário, simplesmente em saber como é possível num sujeito pensante em geral, uma intuição externa, ou seja, a intuição do espaço ( do que o preenche, a figura e o movimento). A esta questão não é possível a homem algum encontrar uma resposta e nunca se poderá preencher essa lacuna do nosso saber, mas somente indicar que se atribuem os fenómenos externos a um objeto transcendental...» (Kant, Crítica da Razão Pura, páginas 367-368, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Como este excerto denota, Kant não considerou o sujeito como um espectador do mundo entendido como "ser diante dos olhos" (concepção realista, dualista) mas antes como um criador do mundo, um "ser no mundo" em sentido heideggeriano.

 

Também não parece que a existência da mudança - da sucessão e dos seus correlatos duração e da simultaneidade, características do tempo, segundo Kant - constituissem, para Kant, meios de prova de um mundo exterior, como sustenta Heidegger. O facto de, na concepção de Kant, o tempo ser o sentido interno e o espaço o sentido externo não faz com que o tempo seja o trampolim de prova do "mundo exterior". Este, como mundo exterior ao corpo físico - distinção que Heidegger, Russel e outros não fazem, o que prova a  inépcia destes ao estudar a gnosiologia de Kant - está dado automaticamente na intuição pura de espaço e não carece de prova. Quanto ao verdadeiro mundo exterior ao espaço e ao espírito humano em geral, é impossível de demonstrar a sua existência ainda que a razão o idealize composto de númenos (Deus, alma imortal, mundo como totalidade).

 

Heidegger nunca compreendeu integralmente Kant, tal como a generalidade dos filósofos contemporâneos. Excetuarei Hegel e Schopenhauer e algum outro. Nem Heidegger, nem Bertrand Russel, nem Witgenstein, nem os catedráticos que hoje lecionam nas universidades mais prestigiadas entenderam, a fundo, o pensamento kantiano. Nenhum destes, nem mesmo Heidegger, clarificou o duplo sentido que Kant atribui às expressões análogas "fora de nós"  e "mundo exterior":

 

1) O espaço está fora do nosso corpo mas dentro do nosso espírito, do vasto sector deste denominado sensibilidade, um «salão» imenso onde cabe a natureza visível, audível e palpável, feita de montanhas, céus, árvores, corpos de animais e humanos, isto é, fenómenos.

 

2) Os númenos ou coisas em si estão, presumivelmente, fora do nosso corpo e do nosso espírito envolvente e constituem o verdadeiro mundo exterior. ,

 

O «Ser e o Tempo» de Heidegger é, por conseguinte, um livro com erros importantes no plano da ontognosiologia, em especial da ontognosiologia de Kant, mas o estilo retórico e emaranhado de Heidegger, sem embargo da originalidade intelectual deste, subjuga o público vulgar e os académicos, que, mais ou menos acríticos,  fingem compreender os paralogismos do grande filósofo alemão do século XX. Sou, presumivelmente, um dos únicos a gritar:«O rei (Heidegger), supostamente vestido com um fato invisível (de sapiência retórica), vai nú!».

   

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